Luzes da Cidade

27/01/2005 | Categoria: Críticas

Filme emocionante de Charles Chaplin ganha DVD que é verdadeiro documento histórico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um pergunta para refletir: por que a figura do Vagabundo de Charles Chaplin provoca tanto encantamento entre crianças? Chaplin não fez os filmes para os pequenos. Nas três primeiras décadas do cinema, ele transformou Carlitos em uma das imagens mais reconhecidas do planeta, talvez mais do que o logotipo da Coca-Cola. Era, sempre foi, amado pelos adultos. Algumas décadas depois, no entanto, o carisma de Chaplin parece um tanto apagado, mesmo entre os cinéfilos, para quem criadores contemporâneos como Orson Welles e Fritz Lang desfrutam de respeito e admiração. Mais uma vez: em quê, exatamente, divergem crianças e adultos?

Uma resposta possível para o apelo tão avassalador do Vagabundo entre as crianças é a questão da linguagem. Faça um teste. Ponha um filme de Chaplin para um público formado por garotos pequenos, na faixa dos 6 a 8 anos. Observe o fascínio que Carlitos desperta nos pequenos. Se você for adiante no teste e exibir o mesmo filme para um grupo de adultos, a reação vai ser diferente. O que ocorreu? Para o crítico Roger Ebert, o talento de Chaplin para a mímica era tão imenso que ele sabia comunicar os acontecimentos sem precisar de palavras. E as palavras, para crianças pequenas, podem ser um obstáculo à compreensão.

Sim, isso ajuda, mas não parece ser suficiente. Talvez a resposta esteja nos temas com que Chaplin trabalha. Os filmes do Vagabundo lidam com sentimentos universais, como ternura, amor, carinho, tristeza. As crianças sabem o que isso significa. Elas possuem uma identificação instantânea com a pureza, com a ingenuidade, de Carlitos. Na verdade, o Vagabundo de Chaplin é uma criança crescida, e sua permanente inabilidade para lidar com o mundo adulto provoca um sentimento de identificação forte demais para ser deixado de lado.

“Luzes da Cidade” (City Lights, EUA, 1931) não é filme mais indicado de Chaplin para crianças, mas é o elo mais perfeito da obra chapliniana entre o mundo infantil do Vagabundo e a nostalgia mais adulta dos seus filmes seguintes. Não pode ser coincidência que o longa-metragem de 1931 também seja aquele que liga o cinema mudo de Chaplin aos posteriores longas sonoros. É um filme de transição, que possui som e até mesmo gags cômicas que dependem exclusivamente do som para funcionar (o gongo insistente que chama o Vagabundo para a luta de boxe, o apito que ele engole enquanto sofre com soluços).

Mas não há diálogos. Chaplin era um homem muito inteligente. Ele sabia que o aparecimento do filme sonoro, em 1928, estava condenando sua obra ao passado. Mas sentia que, caso colocasse palavras na boca do Vagabundo, transformaria o seu símbolo universal em norte-americano. Ele restringiria seu público e quebraria um encanto. Assim, preferiu não fazer isso. Fez um filme cuidadoso, levando dois anos e meio para concluí-lo, em que conseguiu agregar o som às imagens sem utilizar palavras. Isso, aliado à capacidade de unir elementos cômicos e dramáticos de igual intensidade em um só enredo, transformou o longa-metragem em um dos trabalhos mais inesquecíveis de Chaplin.

O DVD lançado pela Warner, co-produzido pelo estúdio francês mk2, contém um segundo disco que vai a fundo nos bastidores da obra. Ao todo, são quase duas horas de documentários, cenas de bastidores, cena cortada, coleções de trailers, cartazes e fotografias, além de trechos de reportagens sobre a turnê mundial feita para promover o filme. Todo o material foi remasterizado, e um pequeno documentário com o diretor Peter Lord (“Fuga das Galinhas”) ainda foi acrescentado, para que o mestre moderno das animações explicasse ao público porque Chaplin era tão genial.

O resultado é um espetáculo de informações impressionantes, um verdadeiro documento de valor histórico inquestionável. Ficamos sabendo, por exemplo, que Chaplin era tão perfeccionista que chegou a gravar até 300 tomadas de uma única cena – o antológico primeiro encontro entre o Vagabundo e a florista cega (Virginia Cherrill), por quem ele desenvolve uma paixão platônica que o leva a arranjar trabalhos como lixeiro e boxeador para pagar uma cirurgia que possa devolvê-la a visão. Chaplin dirigiu o filme, escreveu o roteiro, interpretou o Vagabundo e até escreveu a trilha sonora, orquestrada com perfeição para sublinhar o roteiro.

Não é possível escrever de verdade uma crítica sobre Charles Chaplin. Seus filmes pertencem ao patrimônio cultural da humanidade. Ele foi um dos revolucionários que ajudou a criar a linguagem do cinema. O melhor que pode ser dito sobre o DVD é que o disco, bem como todos os demais da Coleção Charles Chaplin, faz jus a esse legado extraordinário. O longa-metragem, em si, tem talvez a melhor de todas as restaurações de filmes antigos já vista. O filme está limpo, sem arranhões, estalando de novo, e tem até uma trilha sonora mixada em Dolby Digital 5.1. Perfeição é pouco.

– Luzes da Cidade (City Lights, EUA, 1931)
Direção: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Harry Myers, Hank Mann
Duração: 83 minutos

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