M – O Vampiro de Düsseldorf

18/10/2003 | Categoria: Críticas

Clássico alemão possui roteiro impecável, visual rigoroso e uso do som espetacular para os padrões dos anos 1930

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Os primeiros trinta anos do cinema foram mudos. O som, nos filmes, apareceu apenas em 1927, numa película norte-americana chamada “O Cantor de Jazz”. Esse detalhe, aliado à extraordinária possibilidade de ver imagens em movimento, fez com que o cinema se tornasse uma mídia essencialmente visual. Assim, o som começou – e até hoje continua – a ser utilizado como um apêndice, um mero reforço àquilo que os olhos vêem. São raros os cineastas que dão ao som um uso verdadeiramente criativo, que não se limite apenas a reproduzir as ações visuais do filme, mas desempenhe um papel narrativo dentro dele.

Talvez essa seja a maior das muitas qualidades do clássico “M – O Vampiro de Düsseldorf” (M, Alemanha, 1931). Vista hoje, essa obra seminal do movimento expressionista alemão impressiona, sobretudo, pelo inédito uso do som que o diretor Fritz Lang conseguiu imprimir à película. Não custa lembrar que o longa-metragem foi o primeiro a ser produzido com a tecnologia sonora, na Alemanha, apenas quatro anos depois de ela ser criada, em Hollywood. Até aí tudo bem; logicamente, os cineastas germânicos, responsáveis por um dos movimentos de produção cinematográfica mais revolucionários do período, teriam que usar o som em algum momento, para não ficarem ultrapassados. Mas Fritz Lang foi além.

Se o expressionismo era um movimento em que o visual desempenhava papel fundamental, com filmes carregados de contrastes violentos de luz e sombras, Lang usou o som para compor a mais perfeita obra-prima entre as muitas produzidas pelo grupo expressionista, formado por ele mesmo (“Dr. Mabuse – O Jogador” e “Metrópolis”), F. W. Murnau (“Nosferatu” e “A Última Gargalhada”) e Robert Wiene (“O Gabinete do Dr. Caligari”), apenas para citar alguns dos mais geniais cineastas da época. Há outros méritos, claro. “M – O Vampiro de Düsseldorf” é, por exemplo, o primeiro suspense que teve a coragem de enfocar a história de um serial killer, um tema que seria explorado à exaustão por Hollywood – mas apenas 50 anos depois.

De qualquer forma, o filme de Fritz Lang é um verdadeiro compêndio de técnicas inovadoras de narração cinematográfica. Na seqüência de abertura, em que apresenta a temática e mostra um assassinato cometido pelo maníaco, Lang compõe uma sinfonia em que som e imagem se combinam de maneira inédita. Vemos uma garotinha bater uma bola contra a parede, onde está estampado o anúncio da recompensa pelo assassino de crianças que age na cidade. A sombra do maníaco surge na parede, enquanto ele assobia um trecho da ópera “Peer Gynt”, de Edvard Grieg. Os dois saem caminhando. O matador compra um balão para a criança a um vendedor cego. O assassinato não é mostrado, mas sugerido; a mãe da garota olha para o relógio, preocupada. Grita o nome da filha, que ecoa no vazio. Vemos a bola da menina, jogada na grama, e o balão enroscado em fios elétricos. O espectador imagina o que aconteceu sem precisar ver nada!

E o som, você poderia perguntar? A rigor, essa seqüência parece prescindir dele, pois não há diálogos. Mas o prosaico assobio do assassino é precisamente o elemento que vai revelar a identidade dele, diante dos perseguidores, algum tempo mais tarde. Lang também introduziu a técnica do flashback, ao mostrar detalhes das batidas policiais em busca do assassino narradas ao telefone, pelo chefe de polícia, a um ministro que lhe pede explicações. A narração em off, que não existia no período, ganha uma coerência narrativa que os filmes contemporâneos não se preocupam em manter. Hoje, os diretores simplesmente colocam palavras para explicar as imagens que vemos, sem que essa narração tenha qualquer motivo plausível.

A partir desse momento, o espectador passa a acompanhar duas investigações paralelas, uma promovida pela polícia e outra, extra-oficial, conduzida pelos criminosos da máfia local. Os bandidos têm interesse em descobrir e impedir o serial killer de cometer mais crimes, pois as freqüentes batidas policiais nos bares e casas de jogos estão atrapalhando os negócios no submundo. Uma dessa batidas ilustra perfeitamente o talento de Fritz Lang para compor cenas com dezenas de personagens.

Através de uma montagem dupla inteligentíssima, o cineasta constrói a tese que policiais e bandidos são dois lados da mesma moeda. Os dois grupos investigam de maneiras diferentes, mas organizam essas investigações de forma idêntica (reuniões, telefonemas) e até se vestem da mesma maneira. Com essa tese, o diretor queria discutir o conceito de justiça e a maneira como ele se aplica, de acordo com as condições sociais. Vale lembrar que a Alemanha vivia um período difícil, com a ascensão do Partido Nazista. Uma leitura possível de “M – O Vampiro de Düsseldorf” interpreta o assassino de crianças como uma metáfora do próprio nazismo. Não por coincidência, no ano seguinte, Lang fugiu para os EUA.

Além de tudo isso, há ainda o extraordinário desempenho do ator (austríaco, como Lang) Peter Lorre, no papel do psicopata. No percurso do trabalho, a figura sombria do assassino se transforma num ser humano patético, acuado e de raciocínio tão agudo quanto distorcido. O monólogo final, quando a criatura lamenta a impossibilidade de conseguir controlar os próprios impulsos homicidas, é um dos momentos mais comoventes do cinema em todos os tempos. Tudo isso vem realçado por uma fotografia opressora, baseada em espaços fechados, em cenários urbanos decadentes e na clássica iluminação de contrastes claros/escuros. O visual sugere uma atmosfera de opressão e decomposição social.

O conjunto de técnicas revolucionárias imaginadas por Fritz Lang teria repercussão em Hollywood. Orson Welles, particularmente, bebeu diretamente da fonte de “M – O Vampiro de Düsseldorf”, cuja estética seria de fundamental importância para a composição de “Cidadão Kane”, o maior de todos os filmes, feito dez anos depois. O uso de tetos baixos (uma revolução para a época, em que os equipamentos de iluminação exigiam cenários sem teto), saudado por muita gente como uma invenção de Welles, já existia na película de Fritz Lang. Esse monumento do cinema está disponível no Brasil num DVD simples, contendo apenas o filme, numa cópia de baixa qualidade. Mesmo assim, uma obra essencial numa videoteca que se preze.

- M – O Vampiro de Düsseldorf (M, Alemanha, 1931)
Direção: Fritz Lang
Elenco: Peter Lorre, Otto Wernicke, Gustav Grundgens, Friedrich Gnas, Theo Lingen
Duração: 109 minutos

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2 comentários
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  1. Em qual site eu posso baixar o filme “O Vampiro de Dusseldorf” ?

  2. Geralmente não consigo perceber as mensagens subliminares ou metáforas de um filme, mas o fiz com M – O Vampiro de Düsseldorf. Na verdade, associei os criminosos ao Partido Nazista e a polícia à decadente República de Weimar. O assassino representa, ao meu ver, os problemas daquela época. A cena do tribunal no final, formado por criminosos e pessoas comuns, deixa isso bem claro, com ambos do mesmo lado.

    Sobre baixar o filme, vá ao site Making Off. Está em domínio público. Dá para baixar legalmente.

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