Má Educação

16/05/2005 | Categoria: Críticas

Almodóvar faz grande filme sobre a paixão e desafia o conceito de moral com talento

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Pedro Almodóvar é um cineasta de muitas paixões. O prodígio espanhol ama paisagens iluminadas, figurinos coloridos, homens afeminados, histórias que teimam em desobedecer à cronologia. Gosta de travestis e artistas; viagens, clássicos do melodrama espanhol e filmes noir. Acima de tudo isso, é apaixonado por paixões. O grande tema da sólida obra que Almodóvar construiu é a paixão. O diretor de “Fale Com Ela” dirige, na maior parte dos filmes que fez, um olhar fascinado ao processo misterioso (mágico?) que faz duas, ou mais, pessoas se apaixonarem. “Má Educação” (La Mala Educación, Espanha, 2004) tem todos esses elementos. É um típico filme de Almodóvar.

“Má Educação” tem lugar especial reservado na filmografia de Almodóvar. O diretor jamais escondeu a vontade de abordar o tema da educação católica severa em um país regido por uma ditadura rígida. Desde 1992, ele se dedicava a burilar um roteiro sobre isso. Preferiu, no entanto, atingir um certo grau de maturidade, pessoal e artística, antes de se aventuras nessas águas perigosas. Fez certo. Um tema explosivo e político como a pedofilia em uma escola católica poderia ter virado um panfleto histérico, nas mãos do Almodóvar de “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”. Agora, maduro e no apogeu do seu excepcional talento para construir narrativas cheias de emaranhados e atalhos que se resolvem de maneira magnífica, Almodóvar fez apenas um grande filme, sereno e brilhante.

Almodóvar conseguiu uma proeza: pagou tributo a um gênero que ama (o filme noir) sem fugir da característica paleta multicolorida que é marca registrada do visual de seus filmes. “Má Educação” é um autêntico filme noir, e não precisou ser filmado em preto-e-branco para atingir esse status. Pelo contrário: é ensolarado e cheio de cores. Se existe algo como uma loira fatal neste filme, é um homem; e ele veste rosa-choque, verde-limão e sapatos de plataforma vermelhos. Isso é noir? Sim, é. A “culpa” é do texto brilhante de Almodóvar. É possível que ele seja, atualmente, o roteiristas mais talentoso em ação no cinema internacional. Poucos autores possuem, como ele, a facilidade para tecer tramas tão complexas e imprevisíveis como a de “Má Educação”.

O filme não possui, a rigor, um protagonista. Não se trata de um filme de narrativa clássica, reta; o roteiro não tem o que os norte-americanos chamam de “plain text”. Nada é óbvio ou simplista aqui. Pelo contrário; o enredo lembra mais um novelo de lã, com uma trama cheia de camadas, com múltiplos significados e um flerte bastante radical com a metalinguagem. A certa altura, por exemplo, o espectador vai tomar um susto ao perceber que determinado personagem, até então chamado por um nome, é na verdade outra pessoa. Ao contrário de filmes pesados como “Cidade dos Sonhos” ou “Adaptação”, em “Má Educação” esse estrategema tem uma explicação simples e engenhosa. É sofisticado e jamais grosseiro.

Almodóvar não deixa nada ao acaso. Como em “Fale Com Ela”, ele desafia a platéia construindo uma história com personagens cuja moral varia do repulsivo ao condenável. Está claro que esse detalhe foi intencional, mas o diretor espanhol jogou um jogo arriscado: fez um filme de 110 minutos em que nenhum dos persoagens principais é uma pessoa boa. Nada disso. Enrique, Angel, padre Manolo, Juan e Ignacio cometem toda a sorte de atrocidades: estupro, chantagem, prostituição, drogas, assassinato. Não há na tela um único personagem com quem a platéia possa se identificar. Ninguém doce, ingênuo ou simpático. Esse detalhe afasta o público de “Má Educação”.

O cineasta radicalizou. Em “Fale Com Ela”, já havia feito algo parecido. Naquele filme, porém, havia a figura do jornalista argentino, o “homem que chora”, um observador cujo olhar pacífico confortava e acalmava a alma do espectador nos momentos mais terríveis. Ele era o condutor na narrativa, o representante da platéia dentro do filme. Não acontece nada parecido em “Má Educação”. É um filme duro. Ainda mais porque põe o galã mexicano Gael García Bernal em pesadas seqüências homossexuais, recebidas com um esgar pelo espectador médio (e machista) brasileiro. Gael se sai muito bem nestas cenas. Como, de resto, todo o elenco, inclusive as crianças; a perícia de Almodóvar na direção de atores parece não ter fim, e todos abraçam seus papéis com garra e habilidade, o que é fantástico.

Não é um filme sobre pornografia infantil, embora essas cenas estejam lá. Não é um filme sobre padres pedófilos, embora essas cenas estejam lá. Não é um filme sobre um travesti drogado que deseja dinheiro para fazer uma cirurgia plástica, embora essas cenas estejam lá. Tampouco é um filme sobre um ator esforçado que tem uma idéia para um filme, e é capaz de qualquer coisa para convencer um promissor cineasta novato a dirigi-lo. Embora, claro, essas cenas estejam lá. “Má Educação” é um filme sobre paixões. Dirigido com paixão. E é um filme refinado, profundo, complexo, que desafia o conceito de moral com uma qualidade, e uma serenidade, que não se encontra mais no cinema do século XXI.

A Fox põe o filme nas prateleiras com formato de imagem original (widescreen), trilhas de áudio Dolby Digital 2.0 em espanhol e português. Como extra, apenas um trailer.

– Má Educação (La Mala Educación, Espanha, 2004)
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Gael García Bernal, Fele Martinez, Daniel Giménez Cacho, Lluís Homar
Duração: 105 minutos

| Mais


Deixar comentário