Madagascar

09/11/2005 | Categoria: Críticas

Humor infantil faz longa-metragem funcionar para crianças, mas ausência de lógica interna incomoda

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Atribuir ações e consciência humanas a animais irracionais é uma das fórmulas clássicas do cinema de animação. Do pioneiro “Branca de Neve” (1937) até o elogiado “Procurando Nemo” (2003), a maioria dos longas-metragens compostos por desenhos animados utiliza o recurso. O que esses filmes possuem que “Madagascar” (EUA, 2005) não tem é uma lógica específica para a utilização dessa técnica. Por isso, a despeito de boas piadas e momentos inspirados ocasionais, a produção da DreamWorks não atinge o nível de excelência de uma produção da Pixar, embora tenha um trunfo inegável, que é mirar – e atingir – um público claramente mais novo do que filmes como “Shrek” e “Os Incríveis”, que costumam agradar crianças mais velhas.

A premissa em que se ancora o filme é muito simples e não exatamente original. “Madagascar” gira em torno de quatro animais selvagens que nasceram e foram criados em cativeiro, no zoológico de Nova York. O protagonista do filme é a zebra Marty. Ele está entediado pela rotina insípida e entristecida pelo fato de não conhecer o ambiente natural que lhe originou. Seu melhor amigo é Alex, o leão, maior estrela do zoológico e satisfeito com a vida de pouco esforço, que lhe proporciona alimento à vontade sem que ele precise caçar. Alex, ao contrário de Marty, deseja que nada mude.

Os outros dois companheiros apenas acompanham a aventura. A hipopótamo Glória dá o toque feminino, ainda que abrutalhado, ao quarteto, enquanto a girafa hipocondríaca Melman é o alívio cômico do filme – ou seja, o dono da maior parte das cenas engraçadas. Os quatro animais andam quase sempre juntos no amplo espaço verde do zoológico. Compartilham as dores e alegrias. Por isso, quando Marty aproveita a inspiração dada por um grupo de pingüins que querem ir à Antártica e foge, os outros três se sentem obrigados a ir atrás dele e tentar impedir uma loucura.

A seqüência da fuga é interessante, pois Marty e o trio restante seguem caminhos paralelos e enfrentam problemas iguais para chegar até a estação central de trens de Nova York, de onde a zebra deseja apanhar um trem para Connecticut. Só que ela já expõe o maior problema do filme: não existe uma lógica coerente que governe as ações dos animais selvagens e torne-as possíveis no mundo em que vivemos. Tome como exemplo a cena em que Alex, Glória e Melman pegam o metrô para ir à estação central. Você realmente acha que seria possível que um leão, uma girafa e um hipopótamo apanhassem um trem, descessem na parada correta e não fossem impedidos por policiais? Mesmo em uma cidade bizarra como Nova York, isso não parece muito lógico, não é mesmo?

Apenas a título de exemplo, a lógica que falta em “Madagascar” é evidente nos filmes da Pixar, como “Toy Story”, que mostra uma incursão urbana bem parecida, organizada por um grupo de bonecos. O gênio John Lasseter, da Pixar, toma o cuidado de fazer com que os bichos de plástico jamais revelem aos humanos a informação de que possuem consciência. Ou seja, a ação sempre se passa longe dos olhos dos homens. Os bonecos fingem serem inanimados quando qualquer humano olha para eles. “Madagascar” não tem essa preocupação e põe uma zebra para conversar com o cavalo de um policial em plena Quinta Avenida, sem que o soldado em questão tome a iniciativa de impedir o animal selvagem de circular entre as pessoas.

O mesmo problema de lógica aparece depois. Capturados, os quatro animais são enviados para uma reserva de vida selvagem, dentro de caixotes, em um navio. Os pingüins terroristas, no entanto, tomam o controle da embarcação e fazem uma manobra radical que acaba por atirar os caixotes dos outros animais na água. E quem em sã consciência pode acreditar que, dentro de caixas de madeira atiradas no oceano, sem comida ou água, mamíferos conseguem sobreviver até que as caixas atinjam a costa da África? O episódio é claramente impossível, mas “Madagascar” o trata com naturalidade, algo que foge de forma evidente ao clima de realismo que o filme tenta imprimir desde as primeiras imagens.

Em outras palavras, “Madagascar” segue a trilha aberta pelos filmes da Pixar, que elaboram essas aventuras fantásticas passadas no mundo em que vivemos, o mundo de carne e osso. Na animação clássica, não era assim. Os mundos do Mickey e o do Papa-Léguas, por exemplo, são dimensões paralelas, universos coloridos, cartunescos, fechados dentro de si mesmos e habitados por seres inanimados, que seguem uma lógica particular. Isso não faz desses desenhos produtos ruins; eles apenas se passam em mundos que seguem lógicas diferentes da nossa. Em “Madagascar”, no entanto, os quatro protagonistas circulam no nosso mundo, mas não seguem a lógica dele, e sim a do mundo das animações. Não combina.

As habituais referências a filmes adultos aparecem, aqui, com resultados distintos. A seqüência que cita “Beleza Americana”, por exemplo, com o devaneio do leão Alex sobre os bifes suculentos que devorava no zoológico, funciona bem e está integrada à narrativa. A citação de “Náufrago”, por outro lado, é uma piada sem graça que soa fora do tom. De modo geral, é assim que se comporta o roteiro de Mark Burton e Billy Frolick: alternando bons momentos com outros constrangedores. O clímax do filme, aliás, resolve mal o problema da adaptação dos animais domesticados ao ambiente selvagem, especialmente o “fator Alex”. As crianças pequenas, no entanto, vão gostar do humor infantil que permeia a narrativa, bem como da curta duração, que faz o filme ser dinâmico.

Do ponto de vista de animação, “Madagascar” se sai bem, preferindo adotar uma espécie de versão em três dimensões dos antigos cartuns, desenhados à mão. O estilo de desenho não é muito realista e isso, como já havia acontecido em “A Era do Gelo”, funciona bem. A referência visual mais evidente do longa-metragem é sem dúvida o clássico “O Rei Leão”, mas “Madagascar” tem um estilo próprio, repleto de cores primárias e tonalidades quentes, que dá um toque correto a um filme passado na África.

O DVD da Universal capricha nos extras: há documentários, featurettes, jogos on-line e comentários em áudio, além de curta-metragem inédito com os pingüins, tudo legendado. O filme comparece na proporção de imagem original (wide anamórfico) e com som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1).

- Madagascar (EUA, 2005)
Direção: Eric Darnell e Tom McGrath
Animação
Duração: 80 minutos

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5 comentários
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  1. Rodrigo, você está nos devendo a crítica de madagascar 2, que saiu no cinema em 2008.
    Para mim, o segundo é tão bom quanto o primeiro. Não entendo por que você aponta contradições no primeiro filme. Afinal, trata-se de desenho animado.Este simples fator licencia toda e qualquer pretensão racional. Vamos lá: os humanos não combinam com os animais? Bem, na cena da zebra(Marty) falando com cavalo da polícia está normal. Tanto que o policial montado pede permissão, por telefone, para atirar na zebra.Ou seja, vemos aí uma “interação lógica” das coisas. Em outra cena, no metrô, vemos um passageiro escondido atrás do jornal em que lê, apavorado com a presença dos animais no trem. Trata-se também de uma “interação lógica” entre animais e humanos. Não vejo onde os diretores do filme erraram. Não obstante, Como disse o personagem Morpheus sobre a Matrix: algumas leis podem ser quebradas, outras totalmente ignoradas. Ora, no mundo do cartum animado isso é mais do que uma constante, é a regra.
    Outro grande problema que observamos em críticas sobre animações são as aborrecidas comparações com os desenhos da Disney. OK, eles são um primor de perfeição técnica. Mas são convencionais e um tanto previsíveis. No passado, vimos a rivalidade entre a Disney e Hanna-Barbera e Warner( Pernalonga e cia.). Estes dois sempre foram mais irreverentes e interessantes que o “padrão Disney de qualidade”. Eu, por exemplo, sempre preferi Tom & Jerry, Pernalonga, Flinstones, Corrida Maluca, Zé Buscapé, embora sejam animações mais modestas e rústicas que o grande concorrente. A mesma rivalidade vemos hoje, entre a Disney/Pixar e a DreamWorks. Como no passado, a irreverência e o despojamento se sobrepõem ao refinamento técnico da arte. Shrek, Madagascar e Kung Fu Panda dão um banho de humor e graça sobre todos os filmes da Pixar. Para a garotada esperta (e a criança levada que há dentro de nós) não interessa com quantos pixels se faz um desenho digital, mas sim com quantas gags se faz uma divertida animação das boas. Nesse aspecto, o aloprado rei Julio e os pinguins pancadões dão um show em Madagascar 1 e 2. Vida longa à DreamWorks.

  2. Não vi “Madagascar 2″ (nem pretendo ver, pra dizer a verdade), por isso não escrevi sobre ele. E não poderia discordar mais de você no que toca à dicotomia Pixar/Dreamworks, como acho que minhas críticas deixam claro. Obviamente, qualquer um tem inteira liberdade para se colocar nesse debate da maneira que desejar. Mas eu acho os desenhos da Dreamworks divertidinhos, engraçadinhos e ultra-previsíveis. Muito mais do que os desnhos “bem-comportados” da Pixar.

  3. Não pretende ver ou não pretende escrever sobre o filme? Uma coisa não leva necessariamente à outra. É claro que você já imagina como deve ser o segundo filme, mas má vontade antecipada é quase preconceito. Disso ninguém escapa.
    É claro que gosto de alguns filmes da Pixar:Toy Story, por desbravar os longas digitais e WALL-E, pela linguagem cinematográfica pura. Quanto à velha Disney, destaco O Rei Leão, claramente inspirado em Shakespeare. Aliás, Walt Disney nunca criou quase nada. Seu grande mérito foi adaptar os antigos contos de fadas à então nova maneira de se contar estórias: o cinema. Seria bom que a Pixar rompesse com esse passado nostálgico e entrasse de vez na nossa era, a dos desenhos à la Simpsons e Shrek: irreverentes e questionadores. Mas isso é pedir demais.

  4. Não pretendo ver (embora seja provável que acabe vendo, já que minhas filhas têm o DVD). Como só escrevo sobre filmes que vejo, também não devo escrever mesmo. Até admito o preconceito, Gilx, mas a minha lógica é a seguinte: não tenho tempo para ver todos os filmes que gostaria, então preciso ser seletivo – e o critério fundamental nessa seletividade é, sem dúvida, meu gosto pessoal. E uma observação sobre Disney/Pixar: a relação entre as duas empresas só passou a ser criativa a partir de 2006. Até então, a Disney apenas distribuía os filmes. A Pixar sempre foi uma produtora independente. É claro que todo mundo nesse campo de animação paga tributo enorme à Disney – os tais “bichinhos falantes” de Shrek e Madagascar foram inventados pela Disney, né? Por isso, creio que dizer que Walt não criou “quase nada” é um erro factual. A equipe dele (não digo que ele criou sozinho, claro que não, já que ele nem mesmo era diretor) foi responsável por uma série de inovações tecnológicas – “branca de Neve”, “Pinóquio”, “A Bela Adormecida” são filmes revolucionários, sim – impressionantes. A animação de hoje não chegaria onde chegou sem a Disney.

  5. xau

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