Madrugada dos Mortos

25/10/2004 | Categoria: Críticas

Estreante Zack Snyder faz filme curto, grosso, violento e eficiente sobre zumbis comedores de gente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O que é um filme B de terror? Se algum dia existiu alguma definição concreta, palpável, desse conceito, ela não existe mais há alguns anos. Os estúdios não distribuem mais filmes feitos com milhares de dólares. Tomando como base que a premissa servisse para definir os filmes dos cineastas George Romero ou Roger Corman, por exemplo, então é um tremendo erro chamar “Madrugada dos Mortos” (Dawn of the Dead, EUA, 2004) de B. O trabalho de estréia do diretor Zack Snyder é bacana, mas consumiu US$ 28 milhões, o que o coloca em posição muito acima de qualquer filme do tipo.

Portanto, a primeira observação sobre a refilmagem da obra de 1978 de George Romero deveria ser a seguinte: trata-se de um filme de custo relativamente baixo para a Hollywood atual, mas ainda assim muito longe do charme extravagante e barato dos longas-metragens em que supostamente o filme se baseou. O que não significa, obviamente, que “Madrugada dos Mortos” seja ruim. Não mesmo. É um exemplar honesto de cinema jovem e tapa-na-cara, atrevido e violento como poucos filmes produzidos em estúdio ousam ser em 2004.

Uma das grandes qualidade do filme de Snyder é a objetividade do roteiro. A enfermeira Ana (Sarah Polley, do cult juvenil “Vamos Nessa!”) chega em casa exausta, de um longo dia de trabalho, e cai na cama para dormir feliz com o marido. A dupla acorda de manhã cedo, e parece que o inferno subiu à Terra. Em menos de cinco minutos de filme, uma adolescente zumbi, vista andando docemente de patins logo na abertura, ataca a casa de Ana com fúria. O marido morre, e vira zumbi na seqüência. Ana consegue fugir.

A fuga da enfermeira talvez seja o momento mais bacana de “Madrugada dos Mortos”. O cineasta Zack Snyder parece ter despejado a maior parte do orçamento com efeitos especiais nos primeiros 10 minutos, com tomadas aéreas impressionantes do caos na cidade. Vê-se enormes fogueiras e acidentes de trânsito realmente chocantes. Os créditos passam junto com trechos de reportagens televisivas. Em pouco tempo, Ana encontra outros sobreviventes. Eles se trancam em um shopping center, que logo fica rodeado de zumbis esfomeados.

A partir daí, o filme vira uma espécie de mistura bizarra de “Scanners”, de David Cronenberg (os mortos-vivos só morrem de vez quando acertados na cabeça, e por isso a quantidade de crânios explodindo em cenas grotescas e hiperviolentas é enorme), com o cerebral “O Anjo Exterminador”, de Luis Buñuel (o longo tempo de confinamento dentro do shopping logo resulta em desgaste e tensão extras para os sobreviventes). Mas, diga-se, “Madrugada dos Mortos” não tem nada de cerebral. O filme é curto e grosso, jamais se furtando de ir direto ao ponto. Snyder faz uma opção ousada e inteligente: ele não se desvia da rota. Não põe humor ou crítica social nos diálogos.

Não que o filme seja deliberadamente tão cru. A seqüência em que os novos habitantes do shopping liberam o tédio e a tensão, brincando de matar zumbis parecidos com celebridades, é uma pérola de nonsense e consegue injetar humor sem precisar apelar para risadas fáceis ou romances bobos. O filme lembra um pouco uma luta de Mike Tyson nos bons tempos: tensão, fúria e clareza de objetivos. A receita funciona bem.

Por causa dessa opção pela objetividade, fica fácil perdoar deslizes vistos na construção de alguns personagens. Há, por exemplo, um segurança de shopping malvado e insensível, que acaba se transformando em mártir sem qualquer cena que justifique ou ilustre a mudança de comportamento. Existe também uma pequena subtrama envolvendo um casal improvável (um jovem negro e uma russa grávida). A subtrama ameaça se tornar banal, evolui de maneira improvável, mas termina como um dos bons momentos do filme, uma mistura de crueldade com humor negro.

Melhor que essa cena, somente o final do longa, que dribla algumas convenções do gênero e abraça outras, mas encontra uma maneira eficiente de deixar o espectador grudado na cadeira até o final dos créditos – e aproveita esses momentos raros para eliminar quaisquer resquícios de pieguice que o roteiro porventura pudesse deixar, ao contrário do que Danny Boyle fez em “Extermínio”, outro filme de zumbis recente (e bem bacana também). Por isso, “Madrugada dos Mortos” merece uma conferida atenta. Mas filme B, isso ele não é.

– Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, EUA, 2004)
Direção: Zack Snyder
Elenco: Sarah Pollye, Ving Rhames, Jake Weber, Mekhi Phifer
Duração: 100 minutos

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