Mother – A Busca pela Verdade

26/12/2010 | Categoria: Críticas

Com ótimos desempenhos do elenco e reviravoltas imprevisíveis, Joon-ho Bong cria autêntica montanha-russa cinematográfica que mais uma vez aposta na subversão de gêneros fílmicos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Não existe nada mais forte, nessa vida, do que amor de mãe. OK, este é um ditado bem gasto e que, nos tempos cínicos em que vivemos, nem sempre corresponde à realidade (de vez em quando os jornais publicam notícias de mulheres abandonando ou matando os próprios bebês). Mas a sentença continua forte e verdadeira, na maioria dos casos. O talentoso cineasta Joon-ho Bong partiu deste ditado para criar a autêntica montanha-russa cinematográfica que é “Mother – A Busca pela Verdade” (Madeo, Coréia do Sul, 2009), mais uma subversão de gêneros fílmicos oriunda do país asiático.

Já faz algum tempo que o cinema da Coréia do Sul vem se destacando no panorama cinéfilo internacional. Esse movimento, reconhecido em fóruns importantes como o Festival de Cannes (onde o sensacional “Oldboy”, de 2003, faturou o Grande Prêmio do Júri), chama a atenção sobretudo porque é liderado por autores jovens, que bebem diretamente da fonte do cinema de gênero norte-americano, só que mesclando ou subvertendo as regras rígidas de narrativa e estilo que geralmente se percebe nesse tipo de filme popular. Não são filmes intelectualizados, mas populares, sem que se perca a inteligência.

“Mother” consiste no quarto título a sair da mente divertida e doentia de Joon-ho Bong. Três desses filmes tiveram boa receptividade internacional, incluindo o bizarro filme de monstro “O Hospedeiro” (2006), talvez o coquetel de gêneros mais ousado do cineasta. Em “Mother”, na verdade, ele retorna ao território do longa-metragem anterior, “Memórias de um Assassino” (2004), em que uma dupla muito estranha de policiais caçava um assassino em série. Assim como essa obra, “Mother” tem a estrutura e a aparência de um “whodunit” (ou seja, um thriller de suspense em que o protagonista tenta, junto com a platéia, desvendar a identidade do autor de um crime). Mas, como manda a tradição cinematográfica contemporânea da Coréia do Sul, o filme subverte todas as regras do gênero, uma a uma.

A estrutura narrativa não poderia ser mais simples: uma mãe (Hye-ja Kim, maravilhosa num papel que, significativamente, não tem nome) faz das tripas coração para desvendar o caso do assassinato de uma adolescente para tirar o filho (Bin Won), principal suspeito do crime, da cadeia. Como se pode perceber pela longa duração, Joon-ho Bong narra a história sem pressa, gastando todo o primeiro ato na caracterização dos personagens e na construção delicada de uma atmosfera de estranheza. As composições visuais são primorosamente desenhadas, e o diretor abusa das tomadas subjetivas, escolhendo freqüentemente ângulos que sugerem um observador escondido presente nos locais.

Boa parte da qualidade do filme deve ser creditada à decupagem e ao pontos de vista escolhido, associada à perfeita dosagem de informações. Desta maneira, quando o crime acontece, parece claro para todo mundo – inclusive para nós, na platéia – que o autor foi mesmo o rapaz, que é deficiente mental. Mas a mãe dele, como toda boa mãe, não pensa assim. Acupunturista humilde, ela dedicou toda a vida a cuidar bem do filho, e não vai desistir dele assim tão fácil, por mais que ele entre em contradições e dê cada vez mais munição à polícia para acusá-lo.

Decidida a provar a inocência do rapaz, a mãe embarca numa investigação pessoal. Quase sempre de forma atabalhoada, ela não tem nada a seguir além de pequenos indícios e um forte instinto maternal. A investigação, claro, ocorre de forma absolutamente diversa do que seria mostrado num thriller norte-americano. Aqui há muito humor negro e, no que parece ser uma inspiração vinda do trabalho diretor italiano Dario Argento, há também uma forte crença na subjetividade das imagens: elas podem parecer claras e evidentes, mas nem sempre dizem aquilo que parecem dizer.

De resto, é preciso dizer que Joon-ho Bong extrai ótimos desempenhos de seu elenco – mãe e filho estão impecáveis nos respectivos papéis – e inclui pelo menos duas reviravoltas sensacionais e absolutamente imprevisíveis na narrativa, o que torna a experiência de assistir ao longa-metragem uma montanha-russa absolutamente empolgante. Embora dispense os efeitos especiais gerados em computador e boa parte da ação física alucinante de “O Hospedeiro”, “Mother” não fica nada a dever aos demais longas do cineasta, que afirma seu nome entre os mais inventivos do cenário internacional.

– Mãe (Madeo, Coréia do Sul, 2009)
Direção: Joon-ho Bong
Elenco: Hye-ja Kim, Bin Won, Ku Jin, Jae-Moon Yoon
Duração: 128 minutos

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