Mágico de Oz, O

11/11/2005 | Categoria: Críticas

Clássico infantil perde força entre os adultos, mas continua imbatível para crianças

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Hollywood funcionava de forma muito peculiar nos anos 1930. A figura do cineasta, o diretor do filme, que tinha prerrogativa quase ilimitada sobre os projetos, simplesmente não existia. Era o produtor, e em última instância o estúdio, quem mandava. “O Mágico de Oz” (The Wizard of Oz, EUA, 1939), clássico entre os filmes infantis, não surgiu da cabeça de algum cineasta talentoso. Foi simplesmente o projeto encontrado pela MGM, um dos maiores estúdios da época, para contra-atacar o enorme sucesso que a rival RKO havia conseguido, dois anos antes, com “Branca de Neve e os Sete Anões”.

O filme de Walt Disney havia batido sucessivos recordes de bilheteria, tornando-se o filme mais rentável de todos os tempos. Além disso, tinha sido a primeira animação em longa-metragem e o primeiro filme infantil com cores. Convencidos de que essas características eram uma mina de ouro que deveria ser explorada, os executivos da MGM decidiram fazer o seu próprio filme infantil hipercolorido. Decidiram, então, filmar uma centenária história infantil, muito popular nos EUA, e que já havia sido transformada em filme em 1925, com sucesso.

A produção de “O Mágico de Oz” foi uma balbúrdia fenomenal. Nada menos do que quatro diferentes diretores passaram pelos sets de filmagens, todos nomes de prestígio na época. Richard Thope começou a comandar a produção, mas foi demitido após algumas semanas. George Cukor veio para a cadeira, mas não filmou uma única polegada de celulóide; mandou a atriz protagonista, Judy Garland, jogar fora a peruca loira que usaria, ficou por três dias e pediu para sair. Veio, então, Victor Fleming, que filmou a maior parte do longa-metragem, mas teve que abandonar os sets antes do final para ir fazer “…E O Vento Levou”. Por fim, King Vidor terminou o trabalho, filmando as partes preto-e-brancas que abrem e fecham o filme.

Não vale a pena entrar em detalhes a respeito das sucessivas mudanças no elenco, mas o leitor pode ter uma idéia simplesmente imaginando: um filme que mudou três vezes de diretor deve ter sofrido quantas alterações entre os atores? De fato, não foram poucas. Fato, também, é que essa enorme desorganização simplesmente não aparece diante da tela do cinema. “O Mágico de Oz” não desfruta do enorme prestígio por acaso – é, em pleno século XXI, considerado um dos maiores clássicos entre os filmes para crianças. O filme, que terminaria sob a assinatura única de Victor Fleming, é redondo e uniforme, do começo ao fim.

A história é simples e imortal. Dorothy (Judy Garland, então com 16 anos), uma criança que vive numa fazenda no interior dos EUA, está tendo um péssimo dia, que inclui uma discussão com a vizinha antipática, uma queda dentro do celeiro dos porcos e um furacão. Ela adormece e sonha que a casa foi carregada pelos ventos até uma terra mítica além do arco-íris, habitada por fadas, bruxas e seres da natureza. Dorothy quer voltar para casa, mas para isso precisa chegar até o rei daquelas terras, o Mágico do título, para que ele resolva tudo com um feitiço.

No caminho até o castelo do mago, ela ganha a companhia de um espantalho (Ray Bolger), um homem de lata (Jack Haley) e um leão covarde (Bert Lahr). Juntos, eles precisam enfrentar a ameaça da Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton), uma odiosa feiticeira interessada nos sapatos de rubi que Dorothy calça desde que aterrissou na terra encantada.

Para os padrões de hoje, “O Mágico de Oz” não funciona entre adultos. É lento, tem músicas demais (pelo menos um clássico entre elas, “Over The Rainbow”, cantada por Judy Garland) e cenários majestosos mas claramente falsos. As paisagens não passam de panos pintados, e as majestosas florestas são de plástico.

Experimente, no entanto, exibir o longa-metragem para crianças na faixa entre 4 e 8 anos. Para os pequenos, a saga de Dorothy ainda tem todos os elementos fascinantes que transformaram o longa-metragem num dos mais estrondosos sucessos da época de ouro de Hollywood: cores exuberantes, texto bem-humorado e, acima de tudo, a jornada de um protagonista fascinante, com quem eles se identificam fácil e rapidamente. Dorothy é um herói genuíno do período clássico do cinema, e o filme lida com arquétipos universais que são facilmente reconhecíveis para qualquer criança, em qualquer lugar do planeta.

Talvez por causa disso, “O Mágico de Oz” permaneça na lista dos filmes favoritos de tanta gente de prestígio, como o escritor Salman Rushdie. Existem poucos filmes que ultrapassam a categoria de simples produtos audiovisuais, para ganharem um lugar especial na cultura universal que embala geração atrás de geração. “O Mágico de Oz” é um deles.

Em DVD, existem duas versões, bem diferentes, com as seguintes características:

1) Disco simples, com trilha de áudio Dolby Digital 5.1 e imagens restauradas no formato original (1.33:1).

2) Caixa com três discos lançada pela Warner em 2005. Esse box é espetacular. O disco 1 contém a versão restaurada do filme, no formato original (standard 4×3) e com trilha remixada para cinco canais (Dolby Digital 5.1). Existe também uma trilha de áudio que compila nada menos que comentários de 15 pessoas, incluindo atores, roteiristas, filhos de pessoas envolvidas na produção e um historiador, todos coordenados pelo diretor Sidney Pollack. Ainda no disco 1, um documentário sobre a restauração (11 minutos), uma galeria animada do elenco de apoio (21 minutos) e uma nova adaptação da história lida pela atriz Angela Lansbury (10 minutos), mais trilha isolada da música do filme.

O disco 2 é dedicado aos documentários. O principal foi feito em 1990 e tem 50 minutos. Outro, de 2001, possui 27 minutos. Mais dois novinhos foram feitos em 2005 e somam 54 minutos. Existem cinco cenas deletadas (14 minutos), testes do efeito especial do tornado (8 minutos) e três featurettes feitos na época do lançamento do filme, entre 1938 e 1940 (13 minutos ao todo). Quer mais? Fique então com transmissões radiofônicas da história do filme (apenas em áudio), galerias de fotos, um desenho animado (4 minutos) e seis trailers.

O disco 3 abre com um documentário (27 minutos) biografando o autor do livro original, L. Frank Baum. E inclui, para a delícia dos fãs, nada menos que cinco versões de filmes anteriores (entre 7 e 34 minutos cada) contando a mesma história, de 1910, 1914 (dois), 1925 e 1933, entre curtas-metragens mudos e cartuns. Tudo isso com legendas em português. Um verdadeiro show.

– O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, EUA, 1939)
Direção: Victor Fleming
Elenco: Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger
Duração: 101 minutos

| Mais


Deixar comentário