Magnólia

08/01/2006 | Categoria: Críticas

Um dia na vida dos habitantes de uma rua em Los Angeles: a incomunicabilidade em versão norte-americana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Magnólia” (Magnolia, EUA, 1999) é um filme épico, na definição do próprio diretor, Paul Thomas Anderson. Anotem esse nome. Esse californiano tem tudo para se tornar um dos maiores diretores do planeta. Ele define o filme assim por causa dos 189 minutos que praticamente empurram o espectador ao banheiro, no final. Mas esqueçam os épicos tradicionais, que mostram tramas sobre guerras, heróis ou episódios históricos. “Magnólia” é um épico sobre brigar com os pais, trair a mulher e mentir para o namorado. E é também, junto com “Clube da Luta”, um dos filmes americanos mais talentoso da safra de 1999.

Uma primeira olhada no trabalho de P.T. Anderson leva a uma comparação imediata, porque a película trata de um universo muito semelhante ao do premiado e elogiadíssimo “Beleza Americana”. Mas pôr um ao lado do outro revela a fragilidade do mais famoso. Seria como comparar o valor artístico de um rock de quatro acordes a uma sinfonia de Richard Strauss – curiosamente, as trilhas sonoras dos filmes são baseadas exatamente nesses sons: os grupos hard rock Free e Bachman Turner Overdrive estão no filme de Sam Mendes, enquanto a poesia sinfônica “Assim Falou Zaratrusta”, de Strauss, aparece numa cena hilariante protagonizada pelo astro Tom Cruise. Simples coincidência?

Não é nenhuma surpresa que, em última instância, o ouvinte médio prefira escutar rock. Não que a música popular seja pior: ela é simplesmente mais fácil de compreender, porque tem uma estrutura familiar. Ouvir uma ópera demanda aprendizado, treinamento. Exigir que o espectador médio goste de “Magnólia” é como querer que um estudante ginasial compreenda Shakespeare.

Talvez daí venham os resultados opostos que os dois filmes conseguiram, tanto nas bilheterias quanto nas críticas internacionais. “Beleza Americana” ganhou o Oscar e faturou mais de U$ 120 milhões somente nos EUA. “Magnólia” venceu a disputa pelo modesto mas prestigiado Urso de Ouro de Berlim (onde sucedeu nosso “Central do Brasil”) e arrecadou só US$ 22 milhões entre os ianques – um prejuízo enorme, pois custou US$ 37 milhões. O filme de Sam Mendes teve críticas favoráveis em todo o mundo. O de Paul Thomas Anderson foi acusado de ser uma egotrip sem freios. “Beleza Americana” não é ruim, mas foi feito sob medida para o espectador médio. Junto a “Magnólia”, que pertence a um status diferente de obra de arte, soa artificial.

A crítica americana não compreendeu sequer as referências do cineasta. Insistiu em comparar o filme ao brilhante “Short Cuts – Cenas da Vida”, de Robert Altman. Os dois trabalhos realmente têm estrutura semelhante: trocam os protagonistas por dezenas de personagens, que dividem as cenas igualmente; e contam pequenas histórias de encontros e desencontros, paralelas a princípio, que vão se cruzando no decorrer do filme. Anderson não esconde a referência a Altman, mas avisa que tem influências maiores. E tem mesmo. O surreal fenômeno meteorológico que preenche a última meia hora do filme teria certamente orgulhado o espanhol Luis Buñuel, se ele estivesse vivo.

Na verdade, Paul Thomas Anderson é produto de uma inversão no mínimo curiosa. Hoje, até seus contemporâneos europeus mais talentosos estão fazendo filmes americanos. É o caso dos excelentes “Corra Lola, Corra” (do alemão Tom Tykwer) e “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (do inglês Guy Ritchie). Quando a globalização, no sentido negativo mesmo, parece inevitável no cinema, o mais europeu dos cineastas da década de 90 surge… num subúrbio de Los Angeles, juntinho de Hollywood! Outra simples coincidência?

Anderson revela em “Magnólia” o uso perfeito de um recurso quase esgotado. Como o filme lida com sentimentos profundos, o diretor optou por filmar os principais planos em close nos rostos dos atores. Influência clara da obra do sueco Ingmar Bergman, especialmente da fase entre as décadas de 60 e 70. “Magnólia” captura o enigma e a angústia da face de cada personagem. A câmera, não raro, deixa só um par de olhos na tela. Perceba: há pouquíssimas seqüências, nas mais de três horas de filme, em que a câmera captura os atores à distância ou de perfil (o verdadeiro balé nos corredores da TV é a exceção primorosa que confirma a regra). Ela fica frente a frente com os personagens e invade a intimidade de cada um. Trata-se de uma opção estética arriscada. Pena que, no Brasil, o DVD está em tela cheia, com cortes laterais nas imagens (e sem nenhum extra).

Como o roteiro fala através de olhares, e não apenas de palavras, o filme é sutil, repleto de detalhes e exige muita atenção para ser compreendido plenamente. O diretor não esconde nada, mas também não coloca o doce na boca do espectador. Vai muito além: faz cada um dos atores encarar a câmera sempre de frente. Nos diálogos, Anderson fecha o foco no rosto dos intérpretes. Filmar assim é mais difícil, mas dá a ênfase necessária à experiência emocional, que é o verdadeiro objetivo do cineasta. Ele obriga cada interprete a rasgar o coração. Amor, ódio, rejeição, ternura, medo, perdão, angústia, tudo isso salta da tela. Muitas vezes, esses sentimentos prescindem de palavras. Estão nos olhares e pequenos gestos faciais dos personagens.

Lógico que fazer isso seria impossível sem um bom elenco, mas o que Anderson conseguiu em “Magnólia” é digno de aplausos. São quase vinte personagens, todos importantes nas nove tramas paralelas. De astros como Tom Cruise a desconhecidos como o garoto Jeremy Blackman, os desempenhos são brilhantemente uniformes. Destacar qualquer um dos atores é cometer uma injustiça contra os demais. Mas preste atenção no enfermeiro (Philip Seymour Hoffman): ele é o único personagem que surge apenas como observador passivo, sem participar de nenhuma ação. Phil Parma não tem contas a ajustar com o passado nem conflitos a resolver no presente. Talvez seja uma pista para que a gente consiga identificar a voz do autor dentro de uma rara obra com múltiplas vozes. Ou, talvez, seja só mais uma coincidência.

O DVD brasileiro é um lançamento da PlayArte. O disco é simples, sem extras, e tem o filme com o corte original (wide letterbox) e o som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1).

– Magnólia (Magnolia, EUA, 1999)
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Julianne Moore, Tom Cruise, Jason Robards, Philip Seymour Hoffman, John C. Reilly, William H. Macy
Duração: 189 minutos

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