Mais Forte que a Vingança

17/10/2006 | Categoria: Críticas

Faroeste ecológico prega respeito à natureza e lança olhar admirado à cultura indígena

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Quase todos os filmes refletem, ainda que inconscientemente, a época no qual foram produzidos. Esta é uma verdade universal, que se aplica até mesmo aos longas-metragens cuja ação acontece em um passado ou futuro distante. Tome o caso do faroeste ecológico “Mais Forte que a Vingança” (Jeremiah Johnson, EUA, 1971), por exemplo. A bela produção de Sydney Pollack surgiu logo após a revolução flower power dos hippies, quando largas porções da população juvenil dos Estados Unidos organizavam passeatas em defesa da natureza.

Um dos maiores ativistas políticos de Hollywood, homem que começava a assumir o papel de porta-voz desse tipo de movimento, era o ator Robert Redford. Foi dele que surgiu a idéia de filmar a lenda de um solitário ermitão das Montanhas Rochosas que, como um fantasma vingador, viveu durante anos a fio em um ambiente inóspito, cercado de índios hostis, simplesmente porque aprendeu a se misturar ao meio ambiente e tirar dele apenas o estritamente necessário para sobreviver. “Mais Forte que a Vingança” reflete a mentalidade ecológica dos anos 1970 como poucos filmes do período, mesmo que sua ação se passe cem anos antes.

O protagonista, chamado Jeremiah Johnson (Redford, excelente), é um soldado que acaba de sobreviver à sangrenta guerra civil nos Estados Unidos, na segunda metade do século XIX. Desiludido com a violência, ele toma a radical decisão de abandonar a civilização para viver no topo das Montanhas Rochosas, em um território gelado habitado apenas por tribos de índios selvagens. O plano é simples: vender todos os pertences, comprar um bom rifle e viver de caça e pesca, como os primeiros habitantes do planeta. A idéia é despir-se dos males da civilização.

Claro que as coisas não são tão simples assim. Viver em temperaturas negativas, cercado de neve, ursos selvagens e índios hostis, quase sem contato com comerciantes, é uma tarefa que logo se mostra quase impossível de cumprir. O diretor Sydney Pollack conduz a ação em ritmo lento, contemplativo, aproveitando a beleza das paisagens naturais para criar longas tomadas de tirar o fôlego. Em termos estritamente visuais, “Mais Forte que a Vingança” é um triunfo.

No entanto, não chega a ser um grande filme, já que tem uma narrativa bastante convencional. Ao contrário do que muitos podem imaginar, há muito mais história do que a sinopse faz supor – Johnson chega mesmo a constituir família – e algumas cenas com bastante humor, especialmente quando entra em cena o veterano caçador Garra de Urso (Will Greer, impagável). Embora seja bastante lenta para os padrões convencionais, a ação está baseada em um roteiro sólido, que mantém o personagem evoluindo emocionalmente durante todo o arco narrativo percorrido.

Também é interessante observar que Sydney Pollack lança um olhar bastante respeitoso à cultura dos índios, contrariando a clássica dualidade mocinhos/bandidos que marcou a fase clássica do faroeste. Se isto não chega a ser uma novidade – desde fins dos anos 1950 que Hollywood já começara a tratar os índios com mais dignidade – a relação silenciosa que Johnson estabelece com o altivo chefe Corvo (Joaquin Martinez) é bastante ousada para a época. Aliás, é possível classificar “Mais Forte que a Vingança” como um precursor de faroestes humanistas como o paparicado “Dança com Lobos” (1990).

O DVD simples da Warner não tem extras. A cópia do filme tem ótimo som (Dolby Digital 5.1) e um problema: cortes laterais na imagem (fullscreen 4:3).

- Mais Forte que a Vingança (Jeremiah Johnson, EUA, 1972)
Direção: Sydney Pollack
Elenco: Robert Redford, Will Geer, Delle Bolton, Josh Albee
Duração: 116 minutos

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2 comentários
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  1. Uma tentativa de retorno a natureza na belíssima paisagem das montanhas rochosas. Na linha de “Darsu Usala” (Akira Kurosawa) e de “In to the Wild” (Na natureza selvagem). Imperdível para aqueles que a ainda conservam instintos em meio ao sedentarismo da civilização.

  2. Sim… Lembrei-me imeditamente dos dois filmes citados pelo Will. É um grande filme, e que não conquistou a fama que merecia (sim, “Dança com Lobos”, muito abaixo de “Mais forte que a vingança”, foi “paparicado” em excesso…). A tradução do título no Brasil também não colaborou… É o mesmo caso de outro filme, destruído pela tradução do título: “Na mira do inimigo”, filme excelente (para dizer o mínimo) sobre a guerra da Argélia (superior ao também paparicado “Apocalypse now”) e que passou batido em boa medida em função desse título ridículo.

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