Maldição dos Mortos-Vivos, A

14/11/2005 | Categoria: Críticas

Clímax aterrorizante dá ar de clássico a um filme apenas razoável de Wes Craven

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Vez por outra, grandes (e pequenas) publicações sobre cinema costumam publicar listas de filmes “mais isso”, ou “mais aquilo” da história do cinema. Uma das listas mais lembradas é a dos longas-metragens mais assustadores. E um dos títulos mais recorrentes desse tipo de lista é um longa-metragem pouco lembrado do norte-americano Wes Craven, um dos criadores do horror teen (são dele a série “Pânico” e a franquia do Freddy Krueger). “A Maldição dos Mortos-Vivos” (The Serpent and the Rainbow, EUA, 1988) explora um dos medos mais primais do ser humano: o de ser enterrado vivo.

Apesar de alguns equívocos na condução da trama, o filme tem momentos perturbadores, contando com um clímax não exatamente assustador, mas brutalmente agoniante e desconfortável. A cena é um primor de construção cinematográfica para causar incômodo do espectador. O personagem em questão é dado como morto, pois perdeu todos os sinais vitais (o coração parou, não há pulsação). No entanto, está sob o efeito de uma droga misteriosa, que mantém a consciência intacta. A rigor, ele compreende que está sendo enterrado vivo – e Wes Craven põe a câmera dentro do caixão, de modo que a platéia é enterrada junto com o personagem. Um momento realmente aterrorizante.

A proposta original do projeto era explorar, de maneira séria, um filão do gênero horror que fazem sucesso normalmente entre adolescentes: filmes de zumbi. Para isso, os produtores decidiram transformar em filme um relato de pesquisa escrito por um professor da Universidade de Harvard, Wade Davis. No relato biográfico, o antropólogo narrou uma série de experiências que teve no Haiti, na década de 1970, com comunidades que trabalham firmemente com a idéia da vida após a morte. Nas pesquisas, o professor se deparou com uma extraordinária substância, um pó capaz de simular, em um ser humano, todas as características da morte física, mas apenas por um breve período de algumas horas.

A narrativa de Davis poderia render um belíssimo filme sério de horror, mas pequenos equívocos fazem da película apenas uma obra correta. Em primeiro lugar, a narrativa é absolutamente trivial, carregada da visão colonialista e preconceituosa, de baixo para cima, que um grande estúdio de Hollywood normalmente lança para os países subdesenvolvidos. O Haiti mostrado em “A Maldição dos Mortos-Vivos” vive uma perpétua mistura de Carnaval com Festa dos Mortos, com nativos semin-nus desfilando pelas ruas e cerimônias sensuais em terreiros de macumba. É um lugar onde todos são corruptos e/ou ingênuos, inclusive a psiquiatra (Cathy Tyson) que ajuda o protagonista, o professor Dennis Alan (Bill Pullman), na pesquisa para conseguir uma amostra da substância mágica.

Tyson é uma sensual nativa que foi educada no Primeiro Mundo (onde mais um haitiano poderia se formar em Medicina, devem pensar os engravatados de Hollywood), e dessa forma adquiriu uma capa de cultura refinada sobre os hábitos primitivos da comunidade. A visão maniqueísta lançada pelo filme sobre a sociedade haitiana realmente incomoda. Wes Craven situa a ação nos dias finais da ditadura sanguinária de “Baby Doc”, em 1985, e as cenas que encerram a película mostram a fuga do governante. O diretor, porém, jamais incluí um diálogo sequer sobre o clima político no país, e isso deixa a impressão de que a fuga é o ato tresloucado de um homem louco, já que o filme sugere não haver qualquer tipo de oposição organizada – a não ser de uns poucos “rebeldes” solitários – ao regime sangrento do ditador.

Também o enredo de “A Maldição dos Mortos-Vivos” segue uma fórmula previsível. Quando Alan (Pullman) encontra a doutora Duchamp (Tyson) pela primeira vez, e a dispensável narração em off explica que “ela era bem diferente do que esperava”, fica evidente que os dois terão um affair amoroso, clichê dos piores desse tipo de filme. A construção dos vilões, inclusive o chefe da polícia secreta do regime do Haiti, Peytraud (Zakes Mokae), é superficial e maniqueísta. O policial é inclusive apresentado como um torturador sádico que , além de dirigir a organização policial, também exerce a função de feiticeiro, um dos mais poderosos do Haiti.

Problemas à parte, o filme trabalha bem uma das marcas registradas de Wes Craven, que é o embaralhamento de sonho e realidade. Seguindo a trilha aberta em “A Hora do Pesadelo”, o cineasta apresenta seqüências premonitórias assustadoras que envolvem Dennis Alan e sua busca pela droga proibida. Os sonhos são filmados esteticamente da mesma maneira que as cenas que se passam no mundo real, o que é um acerto, já que a intenção do diretor é exatamente confundir platéia e personagem. Um dos sinais positivos de ousadia nesse campo é que Alan chega a ter um sonho dentro do sonho, dado não muito comum em filmes de horror. Os pesadelos lidam quase sempre com medos básicos do ser humano – animais ferozes, cadáveres ambulantes, mãos que saem da terra – e isso enfatiza o caráter instintivo que o filme associa aos medos do protagonista. Isso tudo é muito bom.

Quanto à aterrorizante seqüência que representa o ponto culminante da trama, é ótimo constatar que Craven acertou em todas as escolhas estéticas que fez para registrá-la. Para começar, adotou o ponto de vista subjetivo do homem que é enterrado vivo, o que aumenta a sensação de claustrofobia, fazendo a própria platéia viver – e não apenas ver – a experiência. Além disso, o diretor foi ousado o suficiente evitar cortes no momento mais dramático do filme, quando a terra começa a ser atirada sobre o caixão e a luz do sol vai desaparecendo, até não restar mais nada além de escuridão e do ruído insistente do barro encobrindo a sepultura. A seqüência é um momento especial, inesquecível, e sozinha vale o filme.

O DVD da Universal é simples e, tecnicamente, apenas eficiente. Não há extras, e o filme aparece com áudio apenas razoável, no formato Dolby Digital 2.0 (quatro canais). O formato de imagem é original (widescreen 1.85:1), mas a aparência é granulada.

– A Maldição dos Mortos-Vivos (The Serpent and the Rainbow, EUA, 1988)
Direção: Wes Craven
Elenco: Bill Pullman, Cathy Tyson, Zakes Mokae, Paul Winfield
Duração: 94 minutos

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