Maldição

23/05/2006 | Categoria: Críticas

Noir quase esquecido de Fritz Lang, cheio de personagens ambíguos, ganha lançamento inédito em DVD

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma das maiores virtudes do DVD é que o formato digital, por ter baixo custo de produção e boa qualidade de som e imagem, permite que pequenas pérolas cinematográficas, que pareciam fadadas ao esquecimento eterno, sejam restauradas e reapresentadas a um público que, de outro modo, jamais teria acesso a elas. É o caso de “Maldição” (House by the River, EUA, 1950), um dos filmes mais desconhecidos da fase norte-americana de Fritz Lang. Pouco lembrado até mesmo pelo cineasta alemão, enquanto viveu, o longa-metragem passou décadas mofando nos arquivos de Hollywood. Graças ao DVD, porém, apareceu no mercado de vídeo doméstico e vem causando deleite nos admiradores do film noir.

Embora a fase germânica de Lang seja muito mais lembrada, graças à qualidade das obras-primas que ele dirigiu no país de origem (a ficção científica “Metrópolis” e o thriller “M – O Vampiro de Düsseldorf” são duas delas), os filmes que o diretor fez nos EUA compõem uma impecável galeria de representantes do noir, gênero no qual o estilo de Lang se encaixou perfeitamente. “Maldição” não é perfeito como “Almas Perversas”, mas apresenta imagens inesquecíveis e personagens atormentados, como os melhores que caracterizaram a obra de Lang.

O enredo, baseado num romance de A.P. Herberts, focaliza um escritor medíocre, Stephen Byrne (Louis Hayward). Vivendo à custa da fortuna herdada pelo irmão mais velho, John (Lee Bowman), o rapaz lascivo acaba saindo dos trilhos, certa noite, ao tentar beijar à força a criada, Emily (Dorothy Patrick). Sem querer, a mata por estrangulamento. Durante o resto do filme, Stephen vai lidar com as conseqüências desse ato impensado, desde os problemas para se livrar do corpo até os dilemas pessoais que o assassinato lhe causa (ou não).

O elemento mais interessante de “Maldição” é a ambigüidade moral dos personagens. Não há heróis e nem vilões; todos têm um esqueleto no armário, algo a esconder. O personagem principal, aliás, é um canalha, algo raro em Hollywood. Bon vivant e preguiçoso, Stephen oprime a mulher Marjorie (Jane Wyatt) e não demora a descobrir que a morte acidental de Emily pode lhe trazer benefícios, como a chance de escrever um thriller baseado na experiência. Além disso, ele ama a excitação que sente por causa do segredo escondido.

À primeira vista, John Byrne é o homem íntegro da história, mas mesmo ele cede aos caprichos do irmão e ajuda a dar sumiço no cadáver, o que o torna amargo e irritadiço, além de desleixado com os empregados. Mas o personagem mais significativo, aquele que passa pelo arco dramático mais interessante, é secundário: trata-se da governanta Mrs. Ambrose (Ann Shoemaker). Tagarela e fofoqueira, ela aos poucos se revela uma mulher traiçoeira, capaz de sutilmente levar as pessoas a acreditar que John Byrne é o culpado pelo desaparecimento de Emily, de forma mesquinha e vingativa, apenas porque o rapaz não percebe que ela alimenta sonhos apaixonados por ele.

Fritz Lang narra a história com um trabalho visual muito bom, cheio de enquadramentos diferentes, explorando ângulos oblíquos e freqüentemente posicionando a câmera de cima para baixo ou vice-versa. A mansão onde vivem os Byrne é uma locação gótica impressionante, que acentua o grau de desolamento daquele grupo de pessoas atormentadas. Mas é o rio – sinistro, sem vida, cheio de animais mortos levados pela correnteza para cima e para baixo – que reflete com mais intensidade o caráter árido do personagem principal. Enxergar o rio como um espelho da alma podre de Stephen Byrne é a chave para entender as soluções visuais da produção.

“Maldição” carrega a assinatura de Fritz Lang não apenas na atmosfera lúgubre, mas sobretudo no tema da culpa, que reverbera em toda a obra do alemão. É verdade que o longa-metragem possui um roteiro irregular, que faz o filme perder força na segunda metade, e inclui uma excessivamente longa seqüência de tribunal. Além disso, o encerramento do caso é bastante óbvio para o espectador atento, e não oferece nenhuma surpresa capaz de segurar a tensão até a resolução final da trama, que ocorre de maneira bastante conservadora, onde os maus são punidos e os bons recebem recompensas.

O DVD da Aurora é simples, não contém extras, e a cópia do filme tem qualidade apenas razoável, com enquadramento de imagem preservado (1.33:1, ou tela cheia, formato original da época) e som (Dolby Digital 1.0). O filme nunca tinha sido lançado antes no Brasil, em nenhum formato de vídeo caseiro.

– Maldição (House by the River, EUA, 1950)
Direção: Fritz Lang
Elenco: Louis Hayward, Jane Wyatt, Lee Bowman, Dorothy Patrick
Duração: 88 minutos

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