Maldito Coração

26/07/2006 | Categoria: Críticas

Asia Argento assina facada cinematográfica áspera no tema do abuso infantil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Asia Argento, filha do mestre do horror italiano Dario Argento, tem uma carreira bissexta em Hollywood como atriz (“Terra dos Mortos”, “Triplo X”). Estes trabalhos, contudo, funcionam como mero ganha-pão, já que a atividade que realmente lhe interessa é a direção. “Maldito Coração” (The Heart is Deceitful of All Things, EUA, 2005) é o segundo longa-metragem assinado por Asia, e confirma a tendência da cineasta para contar histórias próximas do estilo de vida bagaceira que leva fora das telas (leia-se sexo, drogas e rock’n’roll em doses cavalares). “Maldito Coração” aborda diretamente um tema difícil – o abuso infantil – e possui bons momentos, apesar de optar por uma abordagem dura, sem ser delicado ou tocante.

Por infelicidade, o filme ganhou fama involuntária devido ao escândalo a respeito da identidade do autor do livro em que se baseia. Para quem não sabe, a indústria editorial foi sacudida, no início de 2006, pela revelação de que o andrógino J.T. Leroy, autor da coletânea de 11 contos que leva o mesmo nome da produção cinematográfica, não existe. O rapaz franzino, que supostamente teria se prostituído com caminhoneiros violentos durante a infância, por influência da mãe doidona, é mera invenção de uma escritora fracassada de San Francisco (EUA). A mulher inventou o personagem fictício e pôs uma atriz para representá-lo em entrevistas e eventos ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

A revelação de que as histórias de Leroy são ficção, e não realidade, não diminuem em nada os méritos – e os defeitos – da obra de Asia Argento, que além de dirigir também escreveu o roteiro e interpretou Sarah, a mãe maluca do protagonista. Sarah é uma prostituta de 23 anos que vive uma relação de amor e ódio com o filho Jeremiah, de 7 anos. A intenção de Asia é bem clara: oferecer ao espectador uma narrativa despida de glamour para a vida na sarjeta. A representação visual do dia-a-dia de Sarah é um dos grandes acertos da obra. A diretora aposta no realismo para montar um painel visual que representa o universo retratado com máxima fidelidade – leia-se muita bebida, tatuagens, roupas de couro e jeans, olheiras de ressaca e dentes estragados.

Cabe ressaltar que a estréia de Asia como diretora (“Scarlet Diva”, em 2000) já mergulhava de cabeça neste mundo-bagaceira. “Maldito Coração” apenas confirma a intimidade que a diretora tem com esse universo, o que fica ainda mais explícita pela profusão de ícones visuais oriundos dele na narrativa de “Maldito Coração”. Estes ícones incluem insistentes citações aos Sex Pistols, entre camisetas e penteados punk. Desembocam na cena mais engraçado do filme, em que o inocente Jeremiah cantarola para a avó, fanática religiosa, um trecho da letra furiosa de “Anarchy in the UK” (“eu sou um anticristo!”).

Não que “Maldito Coração” seja engraçado assim. Pelo contrário. A cena acima citada é um verdadeiro oásis em meio ao deserto de aridez que é o filme de Asia Argento. A rigor, o filme funciona como uma facada cinematográfica que apunhala o abuso infantil, mas utiliza para isso o mesmo tratamento de choque reservado por Mel Gibson para a platéia de “A Paixão de Cristo”. A lição é algo como “veja aqui, durante quase duas horas, os estragos que a desatenção com um filho podem produzir”. Ou seja, transforma o pequeno Jeremiah em saco de pancadas, para agonia da platéia. Somos obrigados a ver Sarah se prostituindo com caminhoneiros para sobreviver, enquanto deixa o filho trancado em casa por dois dias sem comida, estimula-o a se vestir de mulher (e confunde de vez a sexualidade em frangalhos da criança) e até oferece-o sexualmente a namorados.

Um grande acerto de Asia Argento foi adotar o ponto de vista de Jeremiah para narrar o filme, em estratégia semelhante à de longas como o excelente “Minha Vida de Cachorro” (1985). Dessa forma, o público compartilha com Jeremiah um senso cortante de desorientação e permanente confusão, sem entender direito porque está sendo castigado. A diretora também usa o ponto de vista para poupar a platéia das cenas mais dantescas, já que o garoto mergulha em delírios envolvendo corvos vermelhos (representados através de uma animação propositalmente tosca) sempre que é submetido a um ato de violência.

Mostrar diretamente esses atos certamente daria uma experiência traumática, quase insuportável, ao espectador. Ao evitá-los com criatividade, a diretora demonstra ousadia e qualidade. Mesmo com acertos como esses, porém, sobra aspereza e falta delicadeza na narrativa. De certa forma o filme se transforma em lixa emocional que arranha a auto-estima de qualquer adulto decente. Ver a carinha inocente de Jimmy Bennet, que o interpreta aos 7 anos, sofrendo o pão que o diabo amassou é de partir do coração. Afora isso, a narrativa episódica tem, talvez por causa da pouca experiência de Asia, ritmo irregular.

Por outro lado, a diretora acertou em cheio em pelo menos dois pontos importantes. O primeiro é a maneira como ela usa todos os elementos possíveis para encher o filme de símbolos religiosos. O título original, por exemplo, é retirado do livro bíblico de Jeremias, também nome do protagonista. A câmera dá um jeito de mostrar crucifixos a todo instante, como em uma tomada de conversa na estrada entre mãe e filho, no começo do filme, filmada com uma cruz gigante em segundo plano. A estratégia tem dupla função: representar fielmente tanto o universo da criança – criada entre a devassidão carnal da mãe prostituta e o deserto moral dos avós, fanáticos religiosos – quanto à própria dualidade essencial da sociedade norte-americana, que é eminentemente protestante e, por isso, está sempre acuada entre o fantasma do pecado e a tentação do vício.

O segundo acerto tem relação direta com a estratégia de fugir do realismo para exibir os mais pérfidos atos de violência cometidos contra Jeremiah. Na melhor cena d o filme, a diretora deixa de lado os corvos vermelhos (algo importante para não banalizar o recurso) e cria uma delirante seqüência em que a criança (aos 10 anos, interpretada pelos gêmeos Cole e Dylan Sprouse) se veste igual à mãe para seduzir o namorado da vez (Marilyn Manson, que solta a pérola: “Transei pensando em você, querida! Ele chupa igual a você!”).

O elenco está muito bem, em especial o pequeno Jimmy Bennett, que personifica Jeremiah na maior parte do longa-metragem e se beneficia do rosto cândido e do ar ingênuo. Asia, vestida como um cruzamento de Courtney Love com Nancy Spungen (namorada de Sid Vicious, dos Sex Pistols), agarra o papel da prostituta Sarah com unhas e dentes, mergulhando sem medo na bagaceira. Para completar, não deixe de observar a profusão de aparições especiais de atores famosos (Winona Ryder, Michael Pitt, Peter Fonda, Ornella Muti). O negócio é o seguinte: “Maldito Coração” é cinema corajoso, direto na veia, para pessoas de coração forte. Bate forte no abuso infantil, mas de maneira não recomendável para quem não gosta de ver, mesmo que em ficção, crianças sendo maltratadas.

O DVD da Califórnia Filmes é bem fraco. O enquadramento tem cortes laterais (fullscreen 4:3), e a trilha de áudio tem cinco canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Maldito Coração (The Heart is Deceitful od All Things, EUA, 2005)
Direção: Asia Argento
Elenco: Asia Argento, Peter Fonda, Ornella Mutti, Marilyn Manson
Duração: 98 minutos

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