Malícia Atômica

07/03/2007 | Categoria: Críticas

Nicolas Roeg imagina Albert Einstein e Marylin Monroe passando uma noite juntos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A idéia é não apenas promissora, mas deliciosa. “Malícia Atômica” (Insignificance, EUA, 1985) documenta o que poderia ter acontecido se dois dos maiores ícones do século XX, o físico Albert Einstein e a musa Marylin Monroe, tivessem se encontrado por uma noite. Para tornar tudo ainda mais picante e imprevisível, o cineasta inglês Nicolas Roeg inclui no encontro duas personalidades menos conhecidas mais igualmente importantes, o atleta Joe DiMaggio (grande astro do beisebol e um dos maridos da loira platinada) e o político Joseph McCarty (homem responsável pela delirante caçada a comunistas que destruiu muitas carreiras em Hollywood nos anos 1950).

A idéia tresloucada, criada pelo roteirista Terry Johnson em uma peça teatral pouco conhecida, foi ampliada por Nicolas Roeg com muitos detalhes e anedotas imperceptíveis para quem não está familiarizado com os bastidores de Hollywood. O longa-metragem, que concentra toda a ação em uma única noite (exceção feitas aos inúmeros flashbacks evocando lembranças de cada personagem), é inteligente e bem-humorado, apesar da narrativa irregular. Como filme, é um veículo perfeito para Roeg exercitar sua famosa técnica de montagem por associação (o diretor ficou famoso pelas seqüências em que fragmenta tempo e espaço).

Curiosamente, porém, a montagem aqui é muito mais linear e bem-comportada do que se poderia imaginar. Roeg se limita a inserir flashbacks relacionados a memórias do passado, ou visões de um futuro possível, de cada um dos quatro personagens principais (detalhe curioso: nenhum deles é jamais chamado pelo nome). São muitos, é verdade, mas rigorosamente todos expressam a mesma idéia: uma ação no presente dispara no personagem em questão uma lembrança anterior, ou o medo de algum acontecimento posterior. Não há os experimentalismos radicais de “Uma Longa Caminhada” (1971) ou de “Inverno de Sangue em Veneza” (1973), dois dos trabalhos mais interessantes e criativos do cineasta.

Um destaque evidente no filme é a maneira meticulosa e repleta de detalhes com que Roeg e o roteirista Terry Johnson cercam o encontro improvável. Eles imaginam Einstein e Monroe juntos em um quarto de hotel, em Nova York, durante certa noite de 1953. Trata-se da mesma madrugada quente em que a diva loira gravou a celebre cena da lufada de vento que lhe levanta a saia, exibida no filme “O Pecado Mora ao Lado”, de Billy Wilder. Em “Malícia Atômica” (o título em português é uma pérola da idiotice), Einstein estaria na cidade para falar numa conferência da ONU, no dia seguinte. Sabendo disso, Marylin sai da extenuante gravação diretamente para o hotel, batendo à porta do físico em plena madrugada, e sem aviso.

As circunstâncias inusitadas do encontro ganham contornos ainda mais bizarros porque Nicolas Roeg imagina que os dois estão sob pressão, por motivos diferentes. Einstein estaria sendo chantageado por McCarthy (Tony Curtis, cuja presença no filme é uma piada interna, pois ele namorou Monroe na vida real) para fazer declarações a favor da caça aos comunistas. Monroe, por sua vez, está sendo seguida por DiMaggio (Gary Busey), o marido enciumado. Cada personagem tem sua própria motivação, e a certo momento todos estão dentro do quarto de Einstein, discutindo sobre gravidez, prostituição, comunismo e o formato do Espaço-Tempo.

O senso de humor de Roeg é peculiar, mas inteligente. Embora não exiba a mesma criatividade de trabalhos anteriores (alguns críticos apontam que foi a partir deste filme que a criatividade de Roeg escasseou, e sua carreira começou a declinar), o cineasta conduz a narrativa rumo a um final imprevisível, passando por algumas cenas memoráveis. A mais bacana mostra Marylin fazendo, para Einstein, uma demonstração prática da teoria da relatividade, usando brinquedos e objetos comuns, como trens elétricos, balões de gás e lanternas.

O filme ganhou lançamento tímido em DVD, no Brasil, pela NBO Editora, e foi vendido em bancas de revista. Não há extras, e a qualidade é apenas razoável, com imagem cortada nas laterais (1.33:1) e áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0). Curiosamente, a edição brasileira reproduz com exatidão as especificações técnicas da única edição importada existente, da Artisan (EUA). Infelizmente, as legendas em português são péssimas, registrando ausência de diversas falas e tradução incorreta de outras.

– Malícia Atômica (Insignificance, EUA, 1985)
Direção: Nicolas Roeg
Elenco: Michael Emil, Theresa Russel, Gary Busey, Tony Curtis
Duração: 109 minutos

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