Mamma Mia!

11/12/2008 | Categoria: Críticas

Musical consegue ser o equivalente cinematográfico de uma canção dos suecos: simpático, alto astral e facilmente esquecível

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Não são muitas as pessoas por aí com coragem suficiente para assumir que gostam das canções açucaradas do ABBA. O quarteto sueco reinou nas pistas de dança de boates chiques, nos anos 1970, mas não costuma ser lembrado por gente que vê música como algo mais do que mera diversão despretensiosa. Pois diversão ensolarada e sem um pingo de pretensão séria é exatamente o que você recebe ao assistir a uma sessão de “Mamma Mia!” (EUA/Reino Unido/Alemanha, 2008), cuja história aglutina 22 canções do ABBA em um musical que mistura romance com comédia, mirando sem cerimônia o público feminino. Dentro de sua proposta, o longa-metragem funciona com eficiência, já que consegue ser o equivalente cinematográfico de uma canção dos suecos: simples, simpático, alto astral e facilmente esquecível.

Cinéfilos antenados vão perceber sem dificuldade a enorme semelhança de conceitos entre “Mamma Mia!” e o bonitinho “Across the Universe” (2007). O primeiro faz com o repertório do ABBA aquilo que o segundo havia feito com as músicas dos Beatles: conta uma história de amor bobinha e bem romântica. A semelhança, porém, pára por aí. Enquanto o filme de Julie Taymor tinha evidentes ambições artísticas, atulhando a direção de arte com uma overdose de cores, efeitos e elementos cênicos, a obra da diretora estreante Phyllida Lloyd aposta na simplicidade e na economia, tanto estética quanto narrativa. Além disso, é importante ressaltar que “Mamma Mia!” não buscou inspiração em “Across the Universe,” apesar de ter sido lançado um ano depois. A película foi baseada em uma peça musical encenada pela primeira em Londres, em 1999, e adaptada dezenas de vezes, em mais de 20 países, desde então.

O roteiro, escrito pela mesma Catherine Johnson que concebeu o espetáculo teatral original, não passa de um fiapo de história. Às vésperas de casar, Sophie (Amanda Seyfried) descobre o antigo diário da mãe (Meryl Streep), uma norte-americana que dirige um hotel numa pequena ilha grega. Órfã, a menina descobre que a mãe teve três romances no ano em que ficou grávida, e decide convidar os três homens para a festa, sem dizer a ela. O trio (Pierce Brosnan, Colin Firth e Stellan Skarsgard) não sabe o motivo do convite, mas chega à Grécia ao mesmo tempo. A confusão, narrada em grande parte através de números musicais (as 22 canções são executadas na íntegra, o que significa que mais ou menos dois terços do filme contêm música), está armada.

Apesar de ser diretora de óperas e musicais experientes, Phyllida Lloyd nunca tinha comandado um filme antes, muito menos com tantos astros no elenco. Talvez por isso, a direção seja tão simples e básica. A direção de arte soa correta e despojada, vide o figurino de Meryl Streep, composto de macacões jeans e camisetas brancas, exatamente o tipo de roupa que o dono de uma pousada modesta usaria num balneário. O trabalho de câmeras também não tem nenhuma invencionice. Lloyd se limita a usar as paisagens ensolaradas da Grécia como moldura para atuações cheias de energia, embora irregulares, de um elenco que demonstra estar se divertindo à beça. As coreografias dos números musicais soam simplórias, até desajeitadas, mas até isso impregna o resultado final com senso de diversão que faz bem ao filme, embora algumas canções sejam filmadas em exaustivo esquema de planos e contraplanos banais que fazem uma canção de três minutos parecer ter o dobro da duração (cheque “The Winner Takes it All”).

Além disso, a diretora leva a cabo boas idéias, como aproveitar o fato de a história se passar na Grécia para usar os figurantes, nas canções, como coro musical (convém lembrar que o coro foi inventado lá). De resto, trata-se de um filme essencialmente feminino, algo facilmente identificável a partir da cena cheia de gritinhos histéricos em que Donna (Streep) e suas duas melhores amigas se encontram pela primeira vez. Na verdade, é uma obra tão feminina que os três atores parecem desconfortáveis nos respectivos papéis, aspecto agravado pelo sofrível desempenho vocal do ex-007 Pierce Brosnan, aqui com uma tremenda barriga de cerveja. Mas o mais engraçado de tudo, especialmente para os marmanjos na platéia, é perceber que, embora não tenha um disco sequer do ABBA na coleção, você provavelmente conhece quase todas as canções que compõem a trilha sonora. É preciso admitir: o quarteto sueco compunha as perólas pop mais grudentas de que se tem notícia.

O DVD da Universal, apesar de simples, tem um bom número de extras. Além de um making of, há cenas cortadas, erros de gravação, um número musical excluído, outro dissecado em detalhes e um videoclipe com uma canção do filme. A imagem tem enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Mamma Mia! (EUA/Reino Unido/Alemanha, 2008)
Direção: Phyllida Lloyd
Elenco: Meryl Streep, Pierce Brosnan, Colin Firth, Stellan Skarsgard
Duração: 108 minutos

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