Mandando Bala

13/02/2008 | Categoria: Críticas

Uma aventura aloprada, sem qualquer preocupação com lógica, enredo e composição de personagens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Você já viu um homem matar outro usando uma cenoura como arma? Pois o misterioso vagabundo errante que protagoniza “Mandando Bala” (Shoot ‘Em Up, EUA, 2007) consegue esta proeza não apenas uma, mas duas vezes, nos 86 minutos de duração do longa-metragem. E olha que estas mortes não representam muita coisa, levando-se em consideração que são apenas dois dos 100 homicídios cometidos por ele durante a trama. Veterano obscuro em Hollywood, o roteirista e diretor Michael Davis realiza uma aventura despretensiosa e aloprada, um bombardeio de proezas impossíveis, sem qualquer preocupação com lógica, enredo e composição de personagens. Se você entrar no clima, pode ser um programa divertido.

A primeira imagem do filme – um plano-detalhe que mostra apenas os olhos de Smith, o personagem de passado misterioso interpretado pelo ator inglês Clive Owen – revela, sem deixar qualquer traço de dúvida, a intenção do trabalho: realizar uma paródia contemporânea dos faroestes espaguete de Sergio Leone. Quem conhece o trabalho do mestre italiano sabe como ele adorava closes de olhos. Como os pistoleiros de mira infalível que apareciam sem aviso nos filmes de Leone, Smith surge como uma assombração para atrapalhar os planos de um assassino de aluguel, Hertz (Paul Giamatti), cuja gangue é impedida pelo estranho de executar uma mulher grávida em um beco sem saída, no meio da noite.

Na abertura, Smith está sentado em um ponto de ônibus, mastigando uma cenoura. A verdura, que reaparece diversas vezes durante a ação, evidencia a outra grande influência da produção: as animações de Chuck Jones. Quando a moça grávida passa por ele, fugindo de um ameaçador sujeito armado, Smith pragueja. Como qualquer herói do western, ele possui uma ética própria que lhe obriga a agir para proteger gente indefesa. Ele vai atrás do grandalhão e inicia o primeiro dos inúmeros tiroteios do filme, menos de dois minutos depois dos créditos de abertura. A seqüência dá o tom de desprezo à lógica que marcará toda a produção: enquanto ajuda a moça a dar à luz, Smith executa uma dúzia de bandidos. A mulher acaba morrendo, mas Smith percebe que a gangue quer matar o recém-nascido e escapa, com ele, saltando do alto de um prédio para outro – mas não sem antes cortar o cordão umbilical da mulher com uma bala. Yeah!

O restante do filme é uma sucessão impiedosa de cenas de ação, cada uma mais inacreditável do que a outra. Híbrido impagável de Clint Eastwood com Pernalonga, o Sr. Smith é perseguido por duas centenas de meliantes, mas desafia as leis da Física e sempre encontra uma maneira de se safar. Como um legítimo herói de western italiano, ele arranha o limite do humano com o sobrenatural. Mata uma dúzia de bandidos enquanto provoca um orgasmo literalmente explosivo na prostituta de coração de ouro (outro personagem clássicos dos faroestes espaguete), interpretada pela bela Monica Bellucci. Extermina outra dúzia no ar, durante um salto de pára-quedas. Dá um jeito de acertar balaços nos bandidos até mesmo quando está sem arma. A seqüência final, em uma lanchonete, é impagável.

A história? Sim, existe uma, mas ela é mero coadjuvante em um filme que valoriza muito mais o estilo pirotécnico do que o conteúdo. Cada núcleo de personagem precisa quebrar a cabeça para descobrir detalhes sobre o passado e as motivações do outro grupo. Smith não sabe por que os bandidos querem matar o bebê, enquanto Hertz investiga a identidade do estranho misterioso. A direção pop, com seqüências bem coreógrafas e pontuadas por gags visuais inteligentes (o tiroteio nos letreiros luminosos), lembra bastante o estilo de Quentin Tarantino, especialmente no uso de boas canções de rock clássico na trilha sonora (Nirvana, AC/DC, Motorhead) e na opção por uma violência estilizada, de cartoon. Curto, enxuto e engraçado, “Mandando Bala” diverte sem compromisso.

– Mandando Bala (Shoot ‘Em Up, EUA, 2007)
Direção: Michael Davis
Elenco: Clive Owen, Paul Giamatti, Monica Bellucci, Stephen McHattie
Duração: 86 minutos

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