Manderlay

26/09/2006 | Categoria: Críticas

Abordagem de questões culturais enfraquece segundo capítulo de triogia do dinamarquês Lars Von Trier

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Quanto maior o tamanho, maior a queda. O ditado serve perfeitamente para ilustrar a frieza com que “Manderlay” (Dinamarca, 2005) tem sido recebido. O segundo filme da trilogia do dinamarquês Lars Von Trier sobre os Estados Unidos é uma continuação, no mais clássico sentido possível, do genial “Dogville”, um dos filmes mais originais dos últimos anos. Por causa disso, o título levanta uma expectativa que dificilmente poderia ser igualada, ainda que ele fosse também genial. Desse modo, quando “Manderlay” se revela um filme inferior ao irmão mais novo, a decepção é tão grande que rebaixa automaticamente o longa-metragem a um nível abaixo de onde ele realmente está.

“Manderlay” acrescenta novas questões à parábola de Grace, a filha de gângsteres que cruza os EUA nos anos 1930 procurando fazer o bem. De fato, a intenção do diretor dinamarquês parece ter sido abordar, com as duas obras, a dicotomia natureza X cultura. Se em “Dogville” a parábola exibia o pessimismo de Von Trier ante a natureza humana, em “Manderlay” as questões trazidas à tona são culturais. Embora essa escolha pareça lógica, está exatamente nela a raiz da fragilidade que envolve o segundo filme da trilogia.

Ao perscrutar a natureza humana com a aguda visão de mundo que possui, Lars Von trier fez um filme sobre os EUA que é virtualmente universal. A pequena vila de Dogville funciona como um microcosmo do mundo, pois seus moradores se comportam exatamente da mesma maneira que o fariam habitantes de Recife, São Paulo, Nova York ou Londres. Já a perspectiva de “Manderlay” é diferente, pois evita analisar as ações intuitivas dos personagens, concentrando-se na dificuldade deles para se adaptar a novas regras culturais. Ou seja, Von Trier põe o foco no comportamento induzido pela cultura.

Todos sabemos que culturas variam de um lugar para o outro. Assim, o comportamento dos habitantes da fazenda Manderlay, no Alabama (EUA), pode até funcionar como um microcosmo dos EUA, ou em última instância do mundo colonizador, incluindo aí a Europa, onde Von Trier foi criado. “Manderlay” desfia uma crítica pesada aos países dominantes, no que se refere à relação entre colonizadores e colonizados, mas o faz sempre da perspectiva do dominador. Daí resulta uma análise poderosa, mas insuficiente e certamente problemática, porque não mais universal.

Assim como ocorrera em “Dogville”, o enredo de “Manderlay” é muito simples. A caravana de gângsteres na qual viaja Grace (agora interpretada por Bryce Dallas Howard) e seu pai (Willem Dafoe, no lugar de James Caan) pára na fazenda Manderlay, onde a garota descobre que ainda existem escravos, em plano ano de 1933. Ela liberta os negros, mas quando percebe a dificuldade deles para assimilar a nova cultura, decide ficar e a ajudar aquelas pessoas a conviver em sociedade, a partir de uma perspectiva inteiramente diferente. Como no primeiro filme, ela vai perceber que na prática as coisas são muito diversas da teoria pura.

A repetição literal da receita estética de “Dogville” é a opção lógica de Lars Von trier para associar os dois filmes. Assim, “Manderlay” também se caracteriza por uma cenografia teatral, com poucos objetos cênicos, luz artificial, ausência absoluta de paredes e sons realistas (portas que não existem rangendo). O plano de abertura, belíssimo, também é muito parecido (um mapa dos EUA em que uma seta pontilhada se move; quando a câmera se aproxima, os pontilhados se transformam nos carros da caravana de gângsteres) com o que inicia o filme número 1.

A utilização dos mesmos recursos visuais não possui mais o sabor de surpresa e novidade de “Dogville”, e acaba se tornando prejudicial ao trabalho, por alimentar a idéia de que Lars Von Trier está se repetindo. Isso é fato concreto, como a obra faz parte de uma trilogia, parece lógico que este filme tinha que obrigatoriamente guardar parentesco com o antecessor. Levando em consideração que Von Trier já havia sido instado a mudar os atores principais, não havia outra alternativa para conseguir unidade visual. É o típico caso em que o criador vira refém da criatura.

Por outro lado, incomoda bastante a utilização tímida da ausência de paredes, que no filme anterior era uma das melhores e mais originais idéias. Sem paredes, o espectador podia verificar in loco que as pessoas se comportam de forma muito diferente quando têm privacidade e quando não têm, mas no filme 2 os personagens parecem esquecer que as paredes só são invisíveis para a platéia. Em outras palavras: em “Dogville” a receita estética tinha uma justificativa sólida para ser utilizada, mas em “Manderlay” ela é gratuita, e sua única função é aproximar esteticamente as duas obras. O trabalho poderia ter estética tradicional. Não haveria grande diferença.

O maior problema, contudo, está mesmo na visão confusa de Lars Von Trier diante do problema da escravidão. A tese do diretor dinamarquês, de que a escravidão literal do século XIX foi substituída, nas décadas seguintes, por uma espécie de escravidão cultural, é óbvia demais, digna de uma tese de estudantes secundaristas, não de um cineasta que já provou ser um dos mais instigantes pensadores do cinema na atualidade. Sua abordagem dura, repleta de um sentimento indisfarçável de culpa colonizadora, ressalta ainda mais a fragilidade de sua argumentação – que, embora correta, não possui a sutileza necessária para analisar uma questão tão complexa.

Classificar um filme como “Manderlay” como bom ou ruim seria, diante do contexto da trilogia e da obra do autor como um todo, uma atitude inútil. Basta dizer que, em termos estritamente cinematográficos, seu filme é muito similar a “Dogville”, com a desvantagem de não ter o elemento surpresa a seu favor. Quanto ao conteúdo, é fato que o dinamarquês tem o que dizer; pena que dessa vez o faça de maneira confusa e limitada.

O DVD é da Califórnia Filmes, e a qualidade, fraca. Não há extras, as imagens estão no formato letterbox (enquadramento original, mas com resolução menor), e o som é apenas Dolby Digital 2.0.

– Manderlay (Dinamarca, 2005)
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Danny Glover, Willem Dafoe, Lauren Bacall
Duração: 139 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »