Mão do Diabo, A

28/09/2005 | Categoria: Críticas

Thriller de suspense que marca estréia de Bill Paxton na direção é eficiente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A abertura de “A Mão do Diabo” (Frailty, EUA, 2001) é promissora. O filme de estréia do ator Bill Paxton (de “Titanic”) na direção mostra um homem procurando o escritório local do FBI no Texas (EUA) para informar que sabe a identidade do serial killer que está sendo procurado pelos policiais. Fenton (Matthew McConaughey) é levado à sala do encarregado do caso, Wesley Doyle (Powers Boothe), e afirma, objetivamente, o assassino é o irmão Adam. Doyle pede provas, e Fenton começa então a narrar a uma história familiar arrepiante, dessas que os adolescentes costumam contar em acampamentos para deixar os colegas com medo.

Não é um conto de horror. “A Mão do Diabo” pertence a outra categoria cinematográfica. Fenton levanta a teoria de que Adam foi doutrinado pelo pai de ambos, Meiks (o diretor Bill Paxton), para virar um assassino. Meiks era um viúvo solitário que criava os dois filhos com grandes dificuldades, numa fazenda do Texas. Numa noite, ele acordou as crianças com uma revelação surpreendente. Meiks teria recebido a visita de um anjo, com uma missão divina. O fazendeiro e os dois filhos deveriam eliminar uma série de demônios, que estariam caminhando sobre a Terra em forma humana.

Meiks começa então a seqüestrar e matar pessoas da vizinhança. As pessoas integrariam uma suposta lista repassada ao fazendeiro pelo anjo vingador. As ações sangrentas do patriarca da família provocam reações distintas nos dois jovens. Adam é pura admiração pela coragem do pai, e acredita piamente em suas palavras. Já Fenton representa os olhos do espectador dentro do filme. Ele fica horrorizado e passa a ver o pai como um assassino desalmado, ainda que se esforce genuinamente para “ver” sinais de aura maligna nas vítimas dos crimes que é obrigado a ver.

Bill Paxton narra o filme de forma limpa, discreta, sem muito enfeite. A estrutura narrativa comporta duas histórias intercaladas, uma no passado (a trajetória do pai assassino e dos filhos) e outra no presente (a investigação do FBI). Essa última serve de moldura para a ação, abrindo e fechando o longa-metragem. Paxton acerta ao narrar tudo do ponto de vista de um impotente Fenton, que sente estar praticando atos errados, mas por ser criança não tem meios de se rebelar contra eles. A situação do garoto é traumatizante, horrível mesmo, e o filme consegue capturar a situação de forma sincera e eficiente.

Apesar dos muitos assassinatos que ilustram a tela nos 100 minutos de projeção, “A Mão do Diabo” não traz muitas cenas chocantes, já que Paxton mostra-se um diretor à moda antiga, que prefere sugerir o horror a mostrá-lo explicitamente. As mortes sempre ocorrem fora do enquadramento da câmera, que prefere se concentrar nas reações de Fenton. A estratégia se revela ainda mais correta quando o longa-metragem vai chegando ao final e, então, a inevitável surpresa final trata de colocar todas as ações vistas até então sob nova perspectiva – e o filme se sustenta ainda melhor quando analisado sob essa nova ótica.

Tudo bem, algumas pessoas podem julgar a trama de “A Mão do Diabo” implausível, e até mesmo rasa do ponto de vista psicológico. Não deixam de ter razão. Não estamos diante de uma obra-prima. A estréia de Bill Paxton na direção é apenas um bom thriller, com a atmosfera certa de intriga, alguns sustos episódicos e um desfecho bastante polêmico e corajoso.

O DVD é da Europa Filmes. Como quase todos os lançamentos da empresa, a qualidade é fraca. O enquadramento original é mutilado nas laterais, para fechar a imagem na proporção de uma TV comum (standard 4×3), e o som é apenas Dolby Digital 2.0 (em português e inglês). Nada de extras.

– A Mão do Diabo (Frailty, EUA, 2001)
Direção: Bill Paxton
Elenco: Bill Paxton, Matthew McConaughey, Powers Boothe, Matthew O’Leary
Duração: 100 minutos

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