Máquina, A

19/07/2006 | Categoria: Críticas

João Falcão estréia na direção promovendo um casamento bem-humorado de teatro e cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Se o diretor pernambucano Guel Arraes resolvesse dirigir uma refilmagem do drama romântico “Em Algum Lugar do Passado”, o resultado final seria algo parecido com “A Máquina” (Brasil, 2006). O longa-metragem narra uma história de amor bem nordestina, com uma atmosfera leve e cômica, brincando com uma tradicional temática do cinema de ficção científica – a viagem no tempo – de maneira lúdica e inventiva. Não é, contudo, um filme fácil ou de grande apelo popular; sua cenografia, eminentemente teatral, o aproxima de obras experimentais como “Dogville”, do dinamarquês Lars Von Trier, e pode provocar certo estranhamento no público.

“A Máquina” marca a estréia no cinema do pernambucano João Falcão. Autor de peças de teatro populares, diretor publicitário de mão cheia e colaborador de roteiros de Guel Arraes, no cinema e na TV, João Falcão foi buscar dentro da própria família a matéria-prima para migrar à direção cinematográfica. A história de “A Máquina” foi contada pela primeira vez no romance homônimo da mulher de João, Adriana (que escreve o seriado “A Grande Família”, na TV Globo). O livro virou uma peça de teatro que rodou o Brasil com sucesso e revelou atores como Lázaro Ramos, Wagner Moura e Wladimir Brichta. O ciclo se fecha com a adaptação do enredo para o cinema.

Devido ao sucesso do espetáculo teatral, que circulou pelo Brasil com platéias lotadas durante dois anos, a história de “A Máquina” é amplamente conhecida. O filme fala do amor de Antônio (Gustavo Falcão), pernambucano de uma pequena cidade fictícia no sertão, chamada Nordestina, pela vizinha Karina (Mariana Ximenes). A garota sonha em ser atriz de televisão e quer ganhar o mundo, mas Antônio gosta de morar no sertão e não cogita virar um retirante. Por isso, decide empreender uma jornada que desafia tempo e espaço, de modo a levar o mundo até Karina, e não o contrário.

O longa-metragem é uma curiosa e bem-sucedida mistura de linguagens. O diretor de fotografia, Walter Carvalho, revela que a opção de rodar todo o filme em estúdio foi um fantasma que perseguiu diretor e equipe técnica durante todo o processo de pré-produção. O resultado final não reflete esse medo, já que a cenografia, especialmente a iluminação e os cenários, assume completamente um caráter teatral, dando ao filme um senso de ficção que é bastante original. Os cenários, por exemplo, invariavelmente têm fundo azul, unidimensional, algo que faz a platéia recordar imediatamente “Dogville” ou “Manderlay”, de Lars Von Trier.

Além disso, o trabalho de iluminação – foram utilizados 120 spots de luz colorida nas cenas mais trabalhosas – é incomum e criativo, perseguindo o tempo todo um registro artificial, longe do realismo. O resultado soa como se os atores estivessem interpretando em um palco, e não em locações de cinema. “A Máquina” contrasta radicalmente com o naturalismo de um “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que tenta reproduzir fielmente a luz ofuscante do Nordeste brasileiro. O filme de João Falcão não é banhado pelo sol, mas por lâmpadas coloridas. Não tenta imitar a realidade; busca estilizá-la, fazendo o cinema dialogar constantemente com o registro teatral, que é mais empostado e artificial.

Ao contrário do que muitos podem pensar, “A Máquina” não é mero teatro filmado. A obra busca criar uma tensão criativa a partir do choque constante entre elementos do filme e do palco. A fotografia é a maior prova disso. Vejamos: os dois trabalhos essenciais do fotógrafo de cinema são (1) iluminar as cenas, e (2) posicionar/mover a câmera. No primeiro item, a solução visual de “A Máquina” remete ao teatro, como foi ressaltado no parágrafo anterior deste texto. Mas a câmera de Walter Carvalho é puro cinema. Um bom exemplo é a seqüência em que Antônio e Karina ensaiam para uma peça fictícia, na garagem onde o primeiro trabalha. Quase todo o diálogo é acompanhado com a câmera focalizado o reflexo dos dois em uma bacia d’água, um recurso criativo tipicamente cinematográfico, que valoriza a questão do enquadramento.

A seqüência onde este choque entre as linguagens do cinema e do teatro fica mais evidente é a maravilhosa elipse (longa passagem de tempo) que cobre a infância do protagonista Antônio, em uma espécie de truque de mágica tipicamente cinematográfico. Através de uma longa tomada panorâmica sem cortes, em que a câmera se movimenta apenas lateralmente, observamos o dia virar noite, o sol se transformar em chuva e os personagens saírem e voltarem ao quadro, progressivamente mais velhos. O registro geral é completamente cinematográfico, embora a luz seja teatral. Muito bom.

Se há algum elemento em que o choque teatro/cinema se revela mais frágil, ele está na performance do elenco. Paulo Autran e Gustavo Falcão, como as duas versões do protagonista Antônio, estão perfeitos, interpretando com a naturalidade que o cinema exige. A narração de Autran, particularmente, é inspirada. Já Wagner Moura (no papel do apresentador de um programa de TV sensacionalista) e Mariana Ximenes parecem estar atuando em um palco, abusando de gestos largos e falas pausadas que destoam do registro mais discreto dos demais. Este, contudo, é um problema menor, que chega mesmo a funcionar a favor do filme em determinadas cenas, como na breve referência aos musicais da Metro, em que Antônio e Carina improvisam uma curta coreografia musical.

À primeira vista, “A Máquina” pode provocar certo estranhamento, já que rema contra a maré ao investir em uma atmosfera que não se propõe realista e, por isso, diferente bastante das produções que dominam as salas de cinema brasileiras. O longa-metragem lembra em alguns momentos a proposta das minisséries “Hoje é Dia de Maria”, de Luiz Fernando Carvalho. Para aqueles que enxergarem no filme algo do que a crítica gosta de denominar de “estética de TV”, João Falcão providencia uma alfinetada certeira durante a segunda metade da produção, ao criticar abertamente o sensacionalismo que domina este veículo de comunicação. “A Máquina” é um filme estranho, mas adorável, e quem souber enxergar a beleza por trás desse estranhamento vai sair recompensado da experiência do assisti-lo.

O DVD é da Buena Vista. O filme aparece com boa qualidade: imagem widescreen anamórfica e som Dolby Digital 5.1. Um making of está incluído no disco simples.

– A Máquina (Brasil, 2006)
Direção: João Falcão
Elenco: Paulo Autran, Gustavo Falcão, Mariana Ximenes, Wagner Moura
Duração: 90 minutos

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