Mar Aberto

27/01/2005 | Categoria: Críticas

Angustiante, claustrofóbico, nauseante: longa de Chris Kentis é tudo isso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Toda e qualquer frase sobre um filme que seja produzida pelos departamentos de marketing dos grandes estúdios de Hollywood deve ser encarada com desconfiança. A indústria do cinema não hesita em exagerar, ou simplesmente mentir, para levar multidões ao cinema. Ao divulgar que o filme “Mar Aberto” (Open Water, EUA, 2003) era uma mistura de “A Bruxa de Blair” com “Tubarão”, porém, o estúdio Lions Gate não estava apenas dando um bem sucedido golpe de marketing. Não estava manchando a reputação de dois fenômenos do cinema nos EUA. Estava sendo honesto.

“Mar Aberto” é inspirado em um caso real. Em 1998, um casal de mergulhadores embarcou em uma expedição para nadar com tubarões. Foi esquecido pelos organizadores da excursão no meio de um oceano infestado de feras aquáticas. É essa a trama minimalista, quase inexistente, que sustenta os 79 minutos de projeção do longa-metragem. Trata-se de uma história curta e grossa, sem gorduras: dois mergulhadores, abandonados no meio do oceano, precisam lutar para sobreviver enquanto esperam uma ajuda que não sabem se, ou quando, virá.

O filme do diretor quase estreante Chris Kentis herda de “A Bruxa de Blair” diversos elementos. Para começar, foi feito por uma turma de amadores. Kentis tinha apenas US$ 130 mil para gastar, e por isso filmou tudo com câmeras digitais comuns. Essa é a razão pela qual o filme é praticamente todo feito de planos fechados (ou seja, cenas que mostram objetos e pessoas bem de perto). Paisagens panorâmicas, quando filmadas com equipamento digital, perdem o foco com facilidade. Por isso, Kentis as evita.

Nesse quesito, porém, o empecilho ajuda o filme a obter a sensação claustrofóbica e angustiante que os protagonistas, Daniel (Daniel Travis) e Susan (Blanchard Ryan), experimentam. Sufocados por um céu opressor e um mar tão agressivo quanto misterioso, os dois precisam lidar com a fome, a sede e os tubarões. Os planos fechados deixam tudo ainda mais misterioso. Além disso, ainda têm que superar os desentendimentos (os primeiros 10 minutos servem para mostrar ao espectador que eles são um casal em crise) para conseguir sair vivos da enrascada.

De “A Bruxa de Blair” vem, portanto, a situação básica enfrentada pelos protagonistas: eles estão perdidos em um ambiente hostil, ameaçados por criaturas que não conseguem ver. Por sua vez, as aterradoras tomadas submarinas e as seqüências impressionantes, filmadas com tubarões de verdade, remetem diretamente ao filme de Steven Spielberg. Com um detalhe a mais: não existem tubarões mecânicos ou digitais na produção da Lions Gate. É tudo verdade.

“Mar Aberto”, de fato, é um filme cru até o osso. O tempo parece se arrastar e o desconforto do espectador (amplificado pela câmera que jamais pára de balançar) aumenta a cada minuto. Exatamente como ocorre com o casal desamparado. Espectadores de estômago fraco devem cuidar para não ficarem nauseados com o balançar constante da câmera.

Chris Kentis faz bom cinema porque consegue impor uma identificação da platéia com os protagonistas que é bastante rara. O cineasta utiliza um truque simples e eficiente para gerar essa empatia: durante quase todo o filme, a platéia fica exatamente na mesma situação dos dois mergulhadores. Não sabe se o desaparecimento foi descoberto, se as buscas já foram iniciadas, se há mesmo tubarões à espreita, ou mesmo qual a localização desses peixes. Os acontecimentos sempre irrompem sem aviso, o que deixa mergulhadores e espectadores com os nervos em frangalhos.

Há apenas dois momentos em que Kentis quebra a regra de deixar a platéia sempre com a mesma quantidade de informação dos protagonistas. Nos primeiros 15 minutos, quem vê o filme sabe antecipadamente que eles serão esquecidos no mar, por um erro de contagem do responsável pela expedição submarina. Essas seqüências são montadas de modo eficaz, pois não há necessidade de diálogos para que a platéia deduza o erro. Por fim, os 10 minutos que encerram o longa-metragem quebram a regra pela segunda vez. Mas para descobrir de que maneira isso acontece, só vendo o filme.

Há ainda uma última surpresa agradável no filme. A trilha sonora de Graeme Revell (colaborador de David Bowie) é discreta e usa quase que exclusivamente canções sem instrumentos, entoadas apenas com a voz dos intérpretes, gerando um resultado melancólico que acentua o caráter sorumbático da situação dramática do filme. “Mar Aberto”, definitivamente, é para quem possui coração forte.

O DVD nacional, lançado pela LK Tel Vídeo, é fraco. Possui imagens em formato 4 x 3, trilhas de áudio em português e inglês Dolby Digital 2.0 (apenas quatro canais) e quase nenhum extra, além de trailers.

– Mar Aberto (Open Water, EUA, 2003)
Direção: Chris Kentis
Elenco: Blanchard Ryan, Daniel Travis
Duração: 79 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »