Mar Adentro

31/08/2005 | Categoria: Críticas

Alejandro Amenábar abandona suspense para fazer melodrama comovente sobre eutanásia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Alejandro Amenábar não precisou de mais do que um filme para estabelecer o seu nome como um dos mais promissores cineastas do século XXI. Desde “Morte Ao Vivo”, o trabalho de estréia, sempre demonstrou segurança narrativa e ousadia. Precisou, no entanto, fazer três filmes de temática e conteúdo jovens, que flutuavam na fronteira de gêneros como suspense, horror e ficção científica, antes de decidir dar um passo mais arriscado e cair no mundo do melodrama, contando uma história simples, sobre vida, morte e a condição humana. “Mar Adentro” (Espanha/França/Itália, 2004) é um retrato sóbrio, corajoso e emocionante sobre a eutanásia, e tem uma das grandes performances de 2004 na pele do ator Javier Bardem.

Bardem tem no filme uma daquelas performances inesquecíveis, que combina simplicidade e refinamento com uma fluidez que não encontra paralelo em outro filme de 2004. O astro espanhol reafirma, mais uma vez, que é um dos maiores nomes não-americanos a atuar na profissão. Seu trabalho em “Mar Adentro” é completo. Ele combina sotaque, expressão corporal, naturalidade e impostação de voz de uma maneira tão intensa que incorpora o personagem por inteiro. É impossível não acreditar que Bardem não é um tetraplégico, com o corpo moído por 28 anos passados em cima de uma cama, deitado e imóvel.

Bardem foi fundo na composição de Ramón Sampedro, o ativista pró-eutanásia cuja vida recebe uma versão ficcional na tela do cinema. Ele desenvolveu um sotaque galego impecável (seu personagem mora na Galícia, uma região da Espanha longe de Barcelona) e trabalhou a expressão corporal de maneira intensa. Sua atuação não se limita ao rosto, a recitar diálogos sob um lençol. Longe disso. Observe bem a posição dos braços, os dedos das mãos retorcidos, os pés virados para dentro. Bardem interpreta um tetraplégico com o corpo inteiro. Ainda por cima, engordou e ficou com o corpo flácido, para dar mais realismo às cenas em que aparece sem camisa. É um trabalho impressionante.

De qualquer modo, sua atuação se encaixa no filme de maneira soberba porque todo o elenco é conduzido com segurança com Amenábar. Julia (Belén Rueda), a advogada que topa ajudar Ramón a lutar judicialmente pelo direito de morrer, faz a parceira em cena mais constante de Bardem, e mantém o nível de excelência. A cunhada de Ramón, Manuela (Mabel Rivera), é outro destaque no elenco maravilhoso. Ela tem uma cena linda, já perto do final do filme, um diálogo travado com um padre tetraplégico que faz uma visita a Ramón. A seqüência dá o tom da narrativa: elegante, honesta, sem apelar para recursos banais para arrancar lágrimas do espectador.

O filme, é preciso dizer, baseia-se em um evento real, mas não passa de ficção. Ramón Sampedro foi o primeiro espanhol com coragem para ir aos tribunais, lutar pelo direito à eutanásia. Fez isso depois de 26 anos realizando uma campanha lenta, difícil, pelo direito a morrer. A luta nos tribunais durou mais quatro anos. O filme ficcionaliza esses quatro anos, começando a partir da chegada de Julia. Quase ao mesmo tempo, mostra também o aparecimento de Rosa (Lola Dueñas), uma operária local que trabalha também em um programa de rádio, leva os dois filhos para conhecer Ramón e mostra vontade de ficar amiga. As relações entre Ramón, Julia e Rosa vão dominar a trama, de maneiras às vezes surpreendentes.

Rosa é a única nota destoante da orquestra afinada regida por Amenábar. O personagem parece mais um rascunho. Suas ações são previsíveis, e suas razões, simplificadas em excesso; às vezes, parece estar na trama apenas para criar um pouco de conflito em um filme que, se narrado da forma convencional, já teria demais. Mas “Mar Adentro” não é convencional. O filme não foca na luta jurídica de Ramón, mas na sua vida pessoal – a maneira como lida com a família (que se opõe de modo veemente à sua decisão de morrer), com as suas memórias (ele era marinheiro e deu a volta ao mundo aos 18 anos) e fantasias (algumas das cenas mais belas são vôos rasantes que Ramón se imagina dando sobre a bela paisagem do lugar, quando fica por demais sufocado com os problemas do dia-a-dia).

No plano técnico, Amenábar mostra de novo sua predileção por espaços fechados e ambientes escuros, apoiando-se de novo na boa fotografia do colaborador Javier Aguirresarobe. Mas a técnica, como em todo filme que narra a tragédia humana, apenas sublinha o que deve ser destacado. É o talento do diretor e sua habilidade com as palavras que realmente importam. E aqui, decerto, Amenábar faz seu trabalho mais ambicioso, e se sai bem.

“Mar Adentro” é um melodrama legítimo, no sentido positivo da palavra, e lida com um assunto espinhoso de forma desenvolta e muito sóbria. Em vários momentos da narrativa, Ramón sublinha que o desejo de morrer é algo pessoal, e não deve (ou não precisa) ser compartilhado por outros tetraplégicos. “Não falo por todos nós, só falo por mim. Quero viver com dignidade, e espero morrer também com dignidade”, afirma ele, a certo momento. Caloroso, paciente e bem-humorado, Ramón Sampedro não é uma alma torturada, mas um fascinante caso de sujeito bem resolvido que vê com clareza desconcertante a própria condição. Isso faz dele um dos mais complexos e empáticos personagens de 2004, e faz do filme um belo exemplar de cinema.

O lançamento nacional é da Fox. O filme aparece com corte original de imagem (widescreen) e som Dolby Digital 5.1 em espanhol, com opção de trilha em português. Alejandro Amenábar e Javier Bardem aparecem comentando o filme, e há um documentário de bastidores.

– Mar Adentro (Espanha/França/Itália, 2004)
Direção: Alejandro Amenábar
Elenco: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas, Mabel Rivera
Duração: 125 minutos

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