Maratona da Morte

25/09/2003 | Categoria: Críticas

Duelo de interpretação entre Lawrence Olivier e Dustin Hoffman abrilhanta suspense policial de boa qualidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A história é conhecidíssima: durante as gravações de “Maratona da Morte” (Marathon Man, EUA, 1976), o veterano Laurence Olivier encontrou com o colega de elenco Dustin Hoffman durante um vôo de Nova Iorque a Los Angeles. Espantado com as olheiras do ator, o astro inglês lhe perguntou o que andara fazendo para ficar daquele jeito. Dustin respondeu que havia ficado três noites sem dormir, para filmar uma cena em que seu personagem ficava… três noites sem dormir. Chocado, sir Olivier faz a pergunta que se tornaria lendária: “Mas Dustin, por que você simplesmente não interpreta? É mais fácil!”

A anedota ganhou uma tremenda fama entre as rodas de atores em Hollywood, porque expunha de maneira crua o duelo entre os dois métodos de interpretação mais importantes desenvolvidos no século XX. Uma vinha da tradição teatral inglesa, mais intelectual do que física, e tinha o próprio Olivier – mestre das peças de Shakespeare – como maior representante; a outra era a técnica proposta por Lee Strasberg, do Actor‘s Studio, com base nos estudos do russo Stanislavski. Criado nos anos 1950, “O Método” propunha um mergulho total do ator dentro do personagem para interpretá-lo em todas as suas nuances. Marlon Brando era seu ícone máximo.

O fato é que a história foi publicada pela revista Time e acabou ganhando status de lenda urbana. Seria verdade? O DVD de “Maratona da Morte encerra a questão de uma vez por todas. O próprio Dustin Hoffman relembra o fato num dos dois documentários (45 minutos, ao todo) que acompanham o disco. Hoffman confirma a história toda, com uma única ressalva: “Eu nunca disse que havia ficado três dias acordado apenas com o objetivo de interpretar a cena; lembrem-se que aquela era a época da Studio 54 (boate famosa em Nova York na década de 1970)”, diz, sorrindo maliciosamente.

O duelo de interpretação entre dois ganhadores do Oscar, representantes de estilos tão distintos, permanece como maior atração do filme. É uma briga sem vencedores – quase saem faíscas da tela. Hoffman encarna um atormentado estudante de pós-graduação, Babe, que luta para explicar o suicídio do pai, ex-professor universitário, e cronometra longas corridas diárias. Ele é acidentalmente envolvido numa trama internacional de espionagem que começa com uma prosaica discussão automobilística entre dois velhinhos. A tal briga acaba num acidente que pode terminar por revelar o paradeiro do mais procurado carrasco nazista foragido: o dentista alemão Christian Szell (Olivier), autor das experiências mais atrozes da II Guerra Mundial.

“Maratona da Morte” pode ser inserido no contexto dos filmes policiais que vieram no rastro do sucesso de crítica e público de “Operação França” (1971). O uso prioritário de locações abertas é uma influência clara; a direção de fotografia num estilo cru, quase documental, com câmera tremida e luz natural, é outra. As cenas feitas embaixo da Ponte do Brooklyn fazem a homenagem mais explícita. O cineasta John Schlesinger conduz a trama com perfeição milimetricamente estudada. No início, são narradas várias histórias paralelas (a discussão dos velhinhos, o cooper estressado de Dustin Hoffman, uma inocente paquera na biblioteca da faculdade). Elas se cruzam, aparentemente sem ligação, e vão ganhando camadas extras de significado à medida que o filme anda.

O aparecimento de Olivier, sádico e feroz, proporciona uma seqüência antológica do cinema moderno: o carrasco nazista (inspirado em Joseph Mengele, que vivia anônimo no Brasil na ocasião) tortura o estudante numa cadeira de dentista, enquanto repete dezenas de vezes uma única frase, para desespero de um atordoado Hoffman: “É seguro?”. Passo a passo, contando com as presenças marcantes e charmosas de Roy Scheider (“Tubarão”) e da atriz suíça Marthe Keller, o cineasta conduz o filme a um final explosivo. De quebra, o espectador ainda ganha uma das cenas de perseguição mais bacanas do cinema, quando os comparsas do nazista tentam, de carro, pegar Dustin Hoffman correndo descalço e de madrugada entre becos e viadutos da Big Apple.

– Maratona da Morte (Marathon Man, EUA, 1976)
Direção: John Schlesinger.
Elenco: Dustin Hoffman, Lawrence Olivier, Roy Scheider, Marthe Keller.
Duração: 118 minutos

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