Marca da Maldade, A

16/04/2008 | Categoria: Críticas

Orson Welles transforma filme policial em estudo monumental sobre a natureza ambígua do ser humano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um pequeno mal-entendido fez com que Orson Welles assumisse a direção de “A Marca da Maldade” (A Touch of Evil, EUA, 1958). O cineasta, maldito em todos os estúdios de Hollywood, seria escalado pela Universal apenas como ator. Durante os preparativos para as filmagens, contudo, o produtor Albert Zugsmith descobriu que o astro Charlton Heston só tinha assinado para protagonizar o longa-metragem porque pensava que Welles iria dirigi-lo. Com medo de perder o maior galã da época, Zugsmith concordou em pôr o genial diretor de “Cidadão Kane” no comando da produção.

Zugsmith não sabia, mas ao tomar essa atitude estava transformando um projeto menor da Universal – um autêntico filme B – em uma das obras mais cultuadas de todo o film noir. O gênero, inspirado nos fortes contrastes claro/escuro do expressionismo alemão, tinha vivido o auge nas décadas de 1930 e 1940, e estava em plena decadência. Welles não o revitalizou, mas fez o que sabia fazer melhor: manipulou habilmente os clichês do gênero até subvertê-los, transformando uma prosaica historinha policial num verdadeiro tratado sobre o comportamento humano. O cineasta concebeu e interpretou um dos vilões mais ambíguos e fascinantes do cinema em todos os tempos, o detetive Hank Quinlan.

É verdade que o mundo somente iria desfrutar de toda a genialidade da cabeça pensante por trás de “Cidadão Kane” 40 anos depois das filmagens. A princípio, Welles não queria entrar no projeto. Quando lhe foi oferecida a cadeira de diretor, contudo, ele não pensou duas vezes. Imediatamente, passou a realizar profundas alterações no enredo original, escrito pelo romancista Whit Marsterson. Queria imprimir seu estilo inconfundível à trama. O problema é que, ao terminar as filmagens, Welles engajou-se em outro projeto e só depois do lançamento descobriu que a Universal mutilara radicalmente o filme. Basta dizer que o trabalho lançado em 1958 tinha 89 minutos (16 a menos do que o planejado pelo diretor) e incluída muitas cenas filmadas depois do desligamento de Welles do projeto. Até mesmo o famosíssimo plano-seqüência de abertursa, que se tornaria uma das cenas mais famosas da história do cinema no futuro, foi picotado e ganhou uma trilha incidental que Welles não desejava.

O cineasta ficou compreensivelmente furioso. Escreveu um memorando de 58 páginas à Universal, relatando ponto a ponto todas as mudanças que o tinham desagradado, e pedindo que o estrago fosse corrigido. Na época, não lhe deram ouvido. Charlton Heston, contudo, foi precavido, e guardou uma cópia do memorando. Assim, no aniversário de 40 anos do longa-metragem, a película foi submetida a um trabalho de restauração e, depois, remontada seguindo as instruções do diretor, morto em 1985. O grande montador Walter Murch (“Apocalypse Now”) ficou encarregado deste trabalho. Essa é a versão que a Universal lançou em DVD no Brasil.

O filme, como planejado por Welles, é um verdadeiro monumento cinematográfico; há quem o prefira a “Cidadão Kane”. As marcas registradas do cineasta estão impressas em cada fotograma de “A Marca da Maldade”. Para começar, o subtexto. Welles transformou uma história policial em um estudo da moral humana, mas o fez de forma sutil, de maneira a enganar até mesmo o espectador. Como em “Cidadão Kane”, ele mergulha na alma de um homem egoísta, manipulador e arrogante, expondo o ponto de vista dele e mostrando que as coisas nunca são simples como parecem. François Truffaut matou a charada, ao dar graças a Deus por Welles ser gordo. “Se fosse magro, ele seria capaz de interpretar Hitler e nos fazer sentir pena dele”, escreveu, na Cahiers du Cinema, no ano do lançamento do filme.

A interpretação de Welles como o seboso detetive Hank Quinlan é a chave do filme. Ele ocupa o centro da tela e empurra (literalmente) o delegado mexicano Mike Vargas (Heston), o pretenso protagonista, para segundo plano. A dupla é obrigada a investigar o assassinato de um rico industrial, cometido na fronteira entre EUA e México. O carro explodiu nos Estados Unidos, mas como a bomba foi colocada no lado mexicano, o caso precisa ser acompanhado pelos dois. O problema é que Vargas discorda frontalmente do método brutal de investigação de Quinlan, e os dois entram em rota de colisão.

A abertura de “A Marca da Maldade” é uma das mais famosas do cinema, e não sem razão. Num plano-seqüência magnífico, que dura três minutos e não possui cortes, a câmera mostra um homem armando uma bomba e colocando-a na mala de um carro. Depois, acompanha o veículo no meio do trânsito, afastando-se e aproximando-se sucessivas vezes. De quando em quando, focaliza um casal que cruza o trajeto do carro. São Vargas e a mulher dele (Janet Leigh), recém-casados e prontos para uma lua-de-mel interrompida com a explosão. A tensão hitchcockiana da cena (o espectador sabe que a bomba vai explodir, mas não sabe quando) é insuportável. Bastam três minutos para que a platéia esteja totalmente ligada na trama.

A partir daí, o filme se concentra na investigação, basicamente realizada em cenas nortunas. Esse detalhe permite que o cineasta exiba o talento para construir seqüências visuais, com longas panorâmicas sem cortes e foco em profundidade, o que acentua a ambigüidade da trama e obriga ao espectador a olhar para tudo com atenção redobrada. Também a cenografia requintada e o uso excepcional do contraste claro/escuro e das sombras para exagerar a tensão merecem destaque. Mais um vez, contudo, é o som que vai responder pela assinatura final de um dos maiores gênios de Hollywood.

Preste atenção em como Welles utiliza pouquíssimas vezes fontes de áudio que estejam fora do mundo ficcional onde habital os personagens. Quase toda a música que se ouve no filme vem de elementos que fazem parte do cenário: pianos, rádios de automóveis, toca-discos, vitrolas localizadas em bares no meio da rua. No campo da atuação, ele acentua ainda mais a personalidade dominadora de Quinlan conduzindo os diálogos na velocidade e no tom em que deseja, acelerando as conversas, interrompendo as frases dos outros na metade, aumentando e diminuindo o tom quando acha necessário. Ganha a contribuição de um elenco afinado, que gira ao redor dele como zangões em volta de uma irritada abelha-rainha. Quinlan é o dono do filme. São sutilezas como essas que fazem dele uma obra-prima.

Se isso não for suficiente, o espectador ainda ganha uma galeria excepcional de personagens coadjuvantes, como o mafioso Tio Grandi (Akim Tamiroff) e o estranho gerente noturno do hotel Mirador (Dennis Weaver). Esse último serviu de base para a criação do inesquecível Norman Bates de “Psicose”, que iria completar, dois anos depois, a péssima experiência de Janet Leigh em motéis à beira de estrada. E a seqüência final, acredite, é outra obra-prima do suspense, eletrizante como poucos filmes atuais conseguem fazer.

No DVD nacional, da Universal, o único extra é um trailer (legendado), mas vídeo (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 2.0) têm ótima qualidade. Vale observar que o som do filme, inteiramente refeito por Walter Murch em 1998, tem uma complexidade em camadas que supera em muito a média do que era feito nos anos 1950. A trilha incidental de Henry Mancini, jazzística e cheia de frases de saxofone, aparece pouquíssimo no filme. Murch preferiu seguir à risca as instruções do memorando de Welles e enfatizar a confusão sonora do ambiente boêmio de fronteira, cheio de bares tocando canções latinas e rock’n’roll a todo vapor. O resultado é genuinamente empolgante. 

– A Marca da Maldade (A Touch of Evil, EUA, 1958)
Direção: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Charlton Heston, Janet Leigh, Marlene Dietrich
Duração: 105 minutos

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