Marca da Vingança, A

05/09/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Monte Hellman apaga linhas divisórias entre Bem e Mal no Velho Oeste

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Você escolhe o nome em português: “A Marca da Vingança” ou “A Vingança do Pistoleiro”? Se encontrar os dois títulos em DVD, na locadora ou em uma loja de discos, saiba que o filme é um só, apesar de ter sido lançado no Brasil duas vezes, com dois nomes diferentes. “Ride in the Whirlwind” é uma das obras dirigidas por Monte Hellman, na década de 1960, com a ambição de chacoalhar as fundações de um gênero quase morto. Embora produzido simultaneamente a “O Disparo Fatal”/”O Tiro Certo”, este longa-metragem é menos badalado e tem características diferentes.

Se o outro projeto (lançado dois anos depois) tinha toques metafísicos e um clima onírico que remetia a David Lynch e Michelangelo Antonioni, este aqui segue uma história de modo mais coerente e não possui oa mesma sensação de estranheza. Talvez isso tenha ocorrido porque o autor do roteiro é outro: o ator Jack Nicholson, em início de carreira. Nicholson ajudou a financiar as duas obras, funcionado como produtor em ambas. A narrativa mais tradicional, no entanto, não quer dizer que o filme seja uma mera manipulação dos clichês do gênero.

A principal marca registrada da carreira de Monte Hellman, presente em quase todos os filmes que dirigiu, é o uso das características clássicas de cada gênero para subvertê-lo de dentro para fora. Esse objetivo é claramente expresso em “Ride in the Whirlwind”. O filme utiliza os elementos mais básicos do western – tiroteios, conflitos entre vaqueiros e pistoleiros – para discutir os princípios do gênero, apagando as linhas divisórias entre o Bem e o Mal. Essa dualidade sempre foi característica das obras clássicas do faroeste, como os longas dirigidos por John Ford ou Howard Hawks, mas aqui é questionada com inteligência.

O enredo gira em torno de três vaqueiros. Wes (Nicholson), Vern (Cameron Mitchell) e Otis (Tom Filer) estão voltando para casa por uma região desértica de Utah (EUA). Eles decidem passar a noite numa cabana localizada num vale, e lá encontram uma quadrilha de assaltantes. Os bandidos acabaram de assaltar uma caravana e estão cuidando de um ferido. Um grupo desconfia do outro, mas todos decidem dormir na cabana. No dia seguinte, contudo, uma força-tarefa formada por moradores da região chega ao local para punir os assaltantes. Um problemão para os vaqueiros, que não têm nada a ver com o roubo, mas podem ter que pagar por ele.

Hellman conduz a narrativa com firmeza, mas com lentidão exasperante para personagens e para a platéia. Em certo momento, dois dos vaqueiros começam a jogar uma tensa partida de damas para matar o tempo (deve ser a primeira vez que um filme mostra algo tão prosaico e banal!), enquanto não conseguem pensar em uma maneira de fugir da situação terrível em que se encontram. Pressionados pelos acontecimentos, eles podem ser obrigados a usar de violência, embora seja sujeitos pacíficos.

Esse é o maior trunfo do filme: mostrar como, sob situações críticas e adversas, os homens podem se tornar verdadeiros animais, agindo por puro instinto. Na segunda metade do filme, com a exceção dos elementos catalisadores da situação (os ladrões), todos os homens envolvidos na trama têm motivos justos e plausíveis para agir da maneira que agem. Todos são pessoas honestas e têm boas intenções. Mas cada grupo vê a situação de um ângulo que só permite solução com o uso de violência.

O recado é claro: a moralidade é um valor complexo, que não pode ser explicado em termos simplistas (Bem X Mal), pois a mesma situação, quando vista de diferentes ângulos, pode oferecer leituras bem diferentes e contraditórias. Embora tenha seqüências longas de tiroteios – pelo menos três delas, cada uma durando vários minutos – o filme jamais se torna frenético. Cada tiroteio adiciona mais elementos para a compreensão moral das atitudes de cada personagem, e não funcionam apenas a serviço do elemento “ação” dentro do filme. As cenas de ação estão à serviço da temática mais ampla.

Em termos estéticos, “Ride in the Whirlwind” forma uma dobradinha perfeita com “The Shooting”, de 1967. É natural, já que as duas obras foram filmadas simultaneamente nos desertos do Utah, compartilhando não apenas a equipe técnica e parte do elenco (Jack Nicholson e a beldade Millie Perkins estão nos dois longas), mas sobretudo os cenários. O deserto seco, a vegetação rasteira queimada de sol e o céu azul escaldante, bem como o trabalho de fotografia de Gregory Sandor, aparecem nos dois casos, fornecendo uma unidade visual às duas obras, que são complementares. Apreciadas em conjunto, elas podem dar uma boa idéia da obra deste diretor subestimado.

Os DVDs foram lançados no Brasil pela Works DVD e pela New Line. Nos dois casos, o disco contém apenas o filme, sem material extra, com formato de imagem widescreen 16:9 e som Dolby Digital 2.0.

– A Marca da Vingança (Ride In The Whirlwind, EUA, 1965)
Direção: Monte Hellman
Elenco: Cameron Mitchell, Jack Nicholson, Millie Perkins, Catherine Squire
Duração: 82 minutos

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