Marcas da Vida

03/12/2008 | Categoria: Críticas

Thriller/drama escocês acompanha trajetória de mulher atormentada em trabalho de sensualidade latente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A prática voyeur é tema recorrente no cinema há muitas décadas, desde “Janela Indiscreta” (1954). O ato de observar pessoas desconhecidas sem que elas saibam disso é um tanto controverso (nem sempre os espectadores gostam de ser lembrados da natureza voyeur do próprio cinema), mas geralmente rende thrillers cheios de tensão. O belo filme de estréia da premiada curta-metragista Andrea Arnold, “Marcas da Vida” (Red Road, Reino Unido/Dinamarca, 2006), é um thriller de primeira, mas vai além. Também funciona como excelente estudo de um personagem atormentado e como cinema social vigoroso, além de ser impregnado por uma rara alma feminina que agrega ao filme uma sensualidade latente e nem um pouco óbvia.

Bem sucedida como especialista em curtas-metragens (ganhou o Oscar em 2003), a diretora escocesa Andrea Arnold elaborou a história a partir de um laboratório de roteiro no Festival de Sundance, em 2005. Posteriormente ela se associou ao dinamarquês Lars Von Trier num projeto chamado “Advanced Party”, segundo o qual três diferentes cineastas deviam filmar longas-metragens independentes, todos ambientados na periferia da cidade escocesa de Glasgow, com um mesmo grupo de personagens. A influência de Von Trier, aliás, é evidente em “Marcas da Vida”, cuja estética (imagens sujas e imperfeitas, câmera na mão, uso exclusivo de som ambiente, sem música) traz à memória as regras do grupo Dogma, que o dinamarquês criou em 1995.

A grande sacada da diretora, que também escreveu o roteiro, é fechar o foco do filme na protagonista. Jackie (Kate Dickie) trabalha como funcionária da Prefeitura de Glasgow, onde monitora as câmeras de vigilância da periferia da cidade. Ela passa a maior parte dos dias observando, com grau elevado de interesse e afeto, a rotina de certos habitantes da região. Jackie é solitária, tendo se afastado da família por vontade própria, e o filme nos informa que este comportamento está ligado a um trauma não superado, um episódio obscuro do passado, em que ela perdeu marido e filha. A narrativa jamais nos informa as circunstâncias de tal acontecimento. Jackie faz sexo ocasional com um colega de trabalho, mas não tem namorado, e nem quer ter. Está anestesiada. Vive uma vida em preto-e-branco, sem foco e sem sabor.

Certo dia, porém, a visão surpreendente de um rosto conhecido, nas câmeras de vigilância que ela monitora, vem arrancar a mulher do torpor. Trata-se de Clyde (Tony Curran), jovem ruivo que Jackie identifica como responsável pela morte do marido e da filha. Contar mais do que isto seria estragar o restante do filme. É permitido dizer apenas que a câmera de Andrea Arnold acompanha de perto as atitudes aparentemente impulsivas da mulher, que num impulso começa a se aproximar de Clyde, abandonando a postura passiva de quem está atrás das câmeras de vigilância para iniciar um movimento ativo à frente delas. Há embutida aqui uma reflexão interessante sobre a natureza do voyeur. Assistir às emoções dos outros é uma coisa bem diferente de vivê-las. De repente, a vida em preto-e-branco de Jackie ganha cores. O coração volta a pulsar, mesmo que por motivos moralmente discutíveis.

O ponto de partida da trama de “Marcas da Vida” lança um sem-número de possibilidades para o que pode acontecer após a aproximação entre Jackie e Clyde. O filme poderia se desviar para o melodrama, virar mais uma película de perseguição/punição ao culpado, ou entrar no território mais delicado da humanização de um carrasco. Andrea Arnold dá um jeito de lidar, ao mesmo tempo, com todas e nenhuma. A diretora mantém firmemente o foco no exterior de Jackie, tornando tudo imprevisível. A estratégia é manter a personagem sabendo mais do que a platéia. Acompanhamos o que ela faz, mas não sabemos o que ela pensa – jamais somos informados sobre o que ela está planejando. Não há um único diálogo de exposição que permita ao espectador compreender melhor o comportamento dela. Talvez haja aqui uma segunda camada de reflexão sobre a natureza do voyeur. Neste ponto, o filme assume que tudo o que vemos é mediado pela interpretação pessoal, e portanto não pode ser encarado como realidade.

De qualquer forma, Arnold mantém um interesse crescente sobre as vidas cruzadas daqueles dois personagens. Humaniza ambos, e injeta dose extra de tensão sexual à narrativa à medida que ela avança, tudo culminando em uma longa seqüência, maravilhosa em crueza e excitação, cujo conteúdo é melhor não revelar (você vai reconhecê-la quando a vir). A dupla de atores Kate Dickie (oriunda da TV escocesa) e Tony Curran (papéis secundários em blockbusters como “Gladiador”) nos dá interpretações sensacionais, contidas e no entanto cheias de energia, e a fotografia aparentemente despojada, assinada por Robbie Ryan, é um triunfo de luz e sombras, nos apresentando à periferia de Glasgow em uma série de imagens duras e sujas que transpiram um tipo de lirismo urbano, quase noir. Ainda que o final, redondinho demais, possa desagradar a algumas pessoas, é um filmaço.

A edição nacional do DVD, da Califórnia Filmes, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e nenhum extra.

– Marcas da Vida (Red Road, Reino Unido/Dinamarca, 2006)
Direção: Andrea Arnold
Elenco: Kate Dickie, Tony Curran, Martin Compston, Nathalie Press
Duração: 113 minutos

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