Marcas da Violência

11/04/2006 | Categoria: Críticas

David Cronenberg analisa dualidade entre instinto e consciência em filme com aparência ‘normal’

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Na maioria das vezes, qualquer pessoa na platéia de um filme sabe instintivamente, e instantaneamente, se ele é bom ou ruim, durante a projeção. Há exceções, porém, que justificam a regra. “Marcas da Violência” (A History of Violence, EUA, 2005), do canadense David Cronenberg, é uma dessas obras raras, que exigem reflexão para transcenderem o resultado imediato que se vê na tela. À primeira vista, o filme é um melodrama sobre as conseqüências de um ato violento para a família do homem que o pratica. Ao refletir sobre o filme, contudo, o espectador vai encontrar outra obra: um estudo intrigante sobre a dualidade entre instinto e consciência, entre o agir sem pensar e o agir bem pensado. Em última instância, “Marcas da Violência” é um provocante comentário sobre a dicotomia cultura/natureza.

Aos 62 anos, e depois de realizar a obra-prima de sensibilidade humana que foi “Spider – Desafie Sua Mente”, Cronenberg parece ter finalmente conseguido, ele próprio, alcançar um equilíbrio entre as duas coisas. Quem conhece a carreira do diretor sabe que seus filmes sempre priorizaram o inconsciente, o instintivo, o imponderável. Por isso, ao fazer um cinema que muita gente julgava impenetrável, ele desenvolveu um sucesso apenas marginal. Em “Marcas da Violência”, ao contrário, Cronenberg abre espaço para o rigor formal, passando a trabalhar a imagem de uma forma diferente, mais clássica. Utilizando a estrutura narrativa de um filme comum de Hollywood, ele promove a desconstrução desse clichê – mas apenas para quem quiser, ou souber, ver arrojo e originalidade sob a capa convencional do longa-metragem.

O primeiro ato de “Marcas da Violência” ilustra a vida de uma perfeita família norte-americana, filtrada através da ótica do fascínio pelo corpo humano que sempre marcou a obra de Cronenberg. Somos apresentados a Tom Stall (Viggo Mortensen), pequeno comerciante que dirige uma lanchonete na cidadezinha de Millbrook, Indiana. Afável e educado, ele leva uma vida exemplar. Tem uma esposa advogada, Edie (Maria Bello), a quem ama e que lhe corresponde o sentimento. Possui um par de filhos adolescentes perfeitamente normais. Tom é o tipo de sujeito querido pela comunidade, gentil e bondoso, sempre com um sorriso acolhedor para quem lhe cruza o caminho.

Certa noite, contudo, a lanchonete dele é visitada por um par de assaltantes alucinados que promete não apenas roubar o caixa do estabelecimento, mas derramar sangue também. Aí surge o ponto de ruptura que não apenas encerra o primeiro ato do filme, como também lhe empresta o significado maior, e oculto, que exige a citada reflexão do espectador. Tom aproveita um instante de distração de um dos bandidos, toma-lhe a arma e mata ambos, em uma ação explosivamente violenta (cabeças destroçadas são uma marca registrada do diretor, não custa lembrar) e coreografada com cuidado inédito na obra de Cronenberg. É a cena mais importante do filme.

A seqüência é a chave para destrinchar os significados camuflados da obra. A pergunta que ela traz à mente é a seguinte: como um homem tão pacato e amistoso como Tom Stall foi capaz de uma ação instintiva tão rápida e violenta? Quer dizer que, quando solicitado a agir sem pensar, por puro instinto, Stall se torna uma pessoa diferente? Como é possível que um tímido crônico se transforme em máquina de matar? Cronenberg sublinha essa pergunta fotografando e editando a matança de forma a ressaltar o timing assassino perfeito do personagem. Ele se move com a agilidade de um felino pronto para saltar sobre a presa. Será que um homem comum, com apenas uma cafeteira na mão, seria capaz de fazer o que Tom fez? Provavelmente não; teria hesitado, se atrapalhado com a arma, ou sido lento demais. Mas Tom Stall não é o mais comum dos homens? Nós, espectadores, não conhecemos tão bem o dia-a-dia dele?

A comunidade da cidade em que ele vive não se faz essas perguntas. Stall, horrorizado com o episódio, é tratado como herói. Ele prefere esquecer tudo. Mas não pode, porque na manhã seguinte um gângster com olho de vidro, Carl Fogarty (Ed Harris), aparece na lanchonete, acusando Tom de ser alguém que lhe fez muito mal no passado. Os habitantes de Millbrook, claro, não acreditam nisso. A família de Tom também não. E nem a platéia. Por quê? Porque todos já tivemos a chance de observar o quão simpático, tranqüilo e normal é o comerciante.

Cronenberg continua a jogar com a aparência de um thriller burocrático. Uma subtrama importante, por exemplo, examina os desdobramentos que o ato violento de Stall provoca na vida do seu filho mais velho, Jack (Ashton Holmes). É um segmento interessante do filme, mas familiar a todo mundo que já viu um filme sobre típico de Hollywood sobre adolescentes. As seqüências que envolvem o rapaz funcionam muito mais como cortina de fumaça para as verdadeiras intenções de Cronenberg, que estão imbricadas naquelas perguntas que insistem em rondar o comerciante desde o duplo assassinato.

A segunda metade do filme, que segue por caminhos tortuosos de mordacidade surpreendente, acrescenta novas informações para que a platéia possa analisar a questão central do filme, sobre a dualidade entre instinto e aculturação. Aí, Cronenberg entrega mais uma obra inteligente, em que investiga o problema da identidade cultural: quem é o verdadeiro Tom Stall, o pacífico praticante do “sonho americano” ou o assassino impiedoso de quem se ameaça rasgar ao meio esse “sonho”? Quais os atos que o definem como pessoa, afinal? São os atos triviais, do dia-a-dia, ou os extraordinários, que trazem à tona um homem diametralmente oposto?

É exatamente quando o raciocínio chega a esse ponto que “Marcas da Violência” passa a encaixar perfeitamente na obra de Cronenberg, já que, no fundo, lida com um problema que é básico para o diretor: o caráter fugidio da identidade cultural nos tempos contemporâneos. Sob diferentes pontos de vista, esse era o tema de “eXistenZ”, “Videodrome”, “Gêmeos – Mórbida Semelhança” e tantos outros. Cronenberg, não custa lembrar, é um autor sempre associado aos intelectuais pós-modernos, que têm como um dos grandes temas da atualidade exatamente as questões de identidade cultural. “Marcas da Violência”, desse modo, se afirma como um filme pós-moderno, só que travestido de cinema clássico de Hollywood.

Se analisado do ponto de vista psicanalítico, “Marcas da Violência” também dá pano para as mangas. Tudo é sexo e morte, dizem os freudianos; no filme de Cronenberg, como de resto em toda a sua obra, esses dois temas tabus ganham uma representação visual crua e visceral. “Marcas da Violência” possui duas fortes cenas de sexo, uma delas com um casal fazendo um honesto 69, algo que o cinema cheio de pudor dos EUA poucas vezes tem coragem de exibir. Aliás, cabe aqui um parêntese para ressaltar o excelente trabalho de Viggo Mortensen no papel principal, encarnando à perfeição as duas faces do atormentado Tom Stall. Maria Bello, que divide a cena com ele, faz jus ao sobrenome, mas soa às vezes um pouco exagerada nas cenas mais dramáticas.

Quanto às representações da morte, a já citada seqüência-chave do trabalho fala por si só. Cronenberg, não custa lembrar, é um dos autores mais interessados em empurrar as fronteiras desses dois temas além dos limites socialmente aceitáveis no cinema contemporâneo. Por causa dessa vontade de ultrapassar fronteiras, há a polêmica. Muita gente vê em “Marcas da Violência” um mero veículo para cenas sobre temas do interesse do diretor. A função desse texto foi tentar explicar que se trata de muito mais do que isso. Mas seria exigir demais que um trabalho tão diferente pudesse angariar aprovação unânime. “Marcas da Violência” não é para todo mundo; é para quem curte cinema transgressor, mesmo que dessa vez esse cinema apareça travestido de normalidade.

O DVD da PlayArte é excelente, seguindo o padrão do lançamento norte-americano. O filme aparece com ótima cópia (imagem wide anamórfica, som Dolby Digital 5.1). Há um documentário (66 minutos) repleto de entrevistas, uma cena deletada e making of da cena cortada. Tudo com legendas em português.

– Marcas da Violência (A History of Violence, EUA, 2005)
Direção: David Cronenberg
Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt
Duração: 96 minutos

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