Marcas do Terror

29/09/2006 | Categoria: Críticas

Takashi Miike capricha na quantidade de cenas de ultra-violência e no clima de pesadelo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O japonês Takashi Miike sempre foi um estranho no ninho dentro do elenco de cineastas integrantes do projeto da telessérie “Mestres do Terror”. Enquanto a maior parte dos diretores faz parte de uma mesma geração, vivendo tempos de decadência após um grande passado entre as décadas de 1970 e 1980 (casos de John Landis, John Carpenter e Dario Argento, por exemplo), Miike é um dos nomes mais respeitados do gênero na atualidade. Mick Garris, o criador da série, queria tanto incluir um filme de Miike no seriado que concedeu a ele o privilégio de ser o único dos treze cineastas a poder trabalhar com equipes e locações próprias.

Dá para entender. Ponta-de-lança do horror asiático e cineasta extremamente prolífico, Miike não enfrenta problemas de orçamento, como os demais nomes da série, para filmar. Mesmo assim, ele viu uma grande vantagem na empreitada: penetrar no difícil mercado norte-americano. Por isso, aproveitou o ensejo para filmar sua primeira obra falada em inglês. Só que não cedeu um milímetro do estilo sanguinolento, que capricha no clima de pesadelo surreal e narra histórias sem preocupação com cronologia e continuidade. O resultado é que o canal de TV a cabo Showtime, responsável pela exibição dos médias-metragens nos EUA, achou o filme pesado demais e o vetou. Por isso, “Marcas do Terror” (EUA, 2005) aparece apenas no formato de DVD.

O imbróglio teve repercussão negativa no círculo de fãs que acompanhou a primeira temporada de “Mestres do Terror”, entre outubro de 2005 e março de 2006. Garris, o criador da série, teve que vir a público para dizer que aceitava a censura, pois acreditava que “Imprint” era o filme mais perturbador que havia visto na vida. A declaração apenas atiçou a curiosidade dos cinéfilos. Se o veterano diretor de filmes de horror não estivesse apenas jogando panos mornos na polêmica, é possível que os aficionados estivessem diante de um clássico do gênero. Algum tempo depois de “Imprint” ver a luz do dia, porém, já dá para afirmar que nem tanto ao mar e nem tanto à terra.

O filme é puro Takashi Miike. Para começar, possui uma direção de arte bela e sombria, apostando em um uso incomum de cores para acentuar o clima de pesadelo da história – no prostíbulo onde o enredo se passa, por exemplo, todas as prostitutas têm cabelos vermelhos. Também mescla presente, passado e recordações de personagens, tornando a narrativa labiríntica e algo onírica, mais ou menos como nos filmes de David Lynch. Como se não bastasse, o diretor pontua todo o filme com grande número de imagens ultra-violentas, incluindo uma perturbadora longa cena de tortura com agulhas capaz de provocar dor física nos mais sensíveis.

O enredo lembra um pouco o drama nipônico “Memórias de uma Gueixa”, mas não tem medo de pisar fundo na bizarrice. Um jornalista norte-americano cujo nome não é mencionado (Billy Drago, cuja péssima atuação caricata quase estraga o filme) chega a uma misteriosa ilha no Japão, à procura de uma prostituta de nome Kumomo. Alguns anos antes, eles se conheceram e se apaixonaram. Antes de voltar aos EUA, o americano prometeu retornar para buscá-la. Desde então, não foi mais capaz de encontrá-la, passando anos a seguir pistas.

O último indício o levou ao lugar sinistro, um ponto remoto acessível apenas de barco, onde moram apenas ladrões e prostitutas. Chegando lá, ele é obrigado a passar a noite, e escolhe para lhe fazer companhia uma tristonha garota de rosto deformado. Logo, a mulher vai lhe contar qual o verdadeiro destino de Kumomo – mas a história, cheia de reviravoltas, mistura-se com os relatos do passado da própria garota, filha de um bêbado violento e de uma mulher especializada em abortos.

“Imprint” não é um filme comum. Como quase todo o cinema de Miike, tem um quê de sadismo – a precisão quase cirúrgica como ele filma a cena de tortura é realmente agoniante – e uma vontade quase palpável de transcender a fronteira do susto puro e simples. A experiência que o média-metragem deseja ofertar ao espectador vai mais fundo, lidando com temas que funcionam como arquétipos do horror para a mente humana: incesto, mutilações e toques de sobrenatural. É um filme que se leva a sério, tem coragem e é bem moderno, permanecendo à distância do cruzamento horror-comédia que dominou quase toda a série “Mestres do Horror”. É muito bom, mas certamente excessivo (que tal ver uma mulher arrancando com as mãos um pedaço do próprio cérebro?) para quem tem estômago forte.

O DVD brasileiro ganha lançamento pelas mãos da Paris Filmes. A qualidade geral é fraca. O disco é simples e traz o filme com o enquadramento original de imagem (letterbox 4:3, que preserva o formato 1.77:1), com áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0). Como extra, um making of. A decepção é maior quando sabemos que a Anchor Bay preparou uma edição bem mais recheada para os Estados Unidos, trazendo o vídeo em formato wide anamórfico (que também preserva o enquadramento original e tem resolução melhor da imagem), som em seis canais (Dolby Digital 5.1) e uma série generosa de extras.

– Marcas do Terror (Imprint, EUA/Japão, 2005)
Direção: Takashi Miike
Elenco: Billy Drago, Youki Kudoh, Michie Itô, Toshie Negishi
Duração: 64 minutos

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