Marcelino Pão e Vinho

15/12/2008 | Categoria: Críticas

Longa espanhol de 1954 não esconde a propaganda católica, mas tem lugar reservado na memória de muitos brasileiros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

No Recife da década de 1970, onde passei minha infância, era normal os cinemas organizarem mostras retrospectivas temáticas durante feriados católicos. Na semana da Páscoa, particularmente, quase todas as salas de projeção recuperavam antigos clássicos religiosos e exibiam para famílias inteiras. Era um daqueles raros momentos em que pais e filhos, de todas as idades e classes sociais, iam juntos ao cinema – um panorama bem diferente do circuito exibidos asséptico e chique que temos hoje.

“Marcelino Pão e Vinho” (Marcelino Pan y Vino, Espanha, 1954) era um dos longas-metragens que faziam mais sucesso durante essas exibições especiais. Invariavelmente, o melodrama sobre o pequeno órfão criado por doze frades em um convento, que aplacava sua solidão criando uma amizade improvável com uma estátua de madeira de Jesus Cristo localizada no sótão, deixava a multidão de espectadores às lágrimas no final.

Eram tempos diferentes. Uma revisão crítica feita em pleno século XXI, quando as platéias são muito mais cínicas e mais refratárias a histórias de índole religiosa, ressalta os defeitos de “Marcelino Pão e Vinho” de maneira mais evidente do que suas qualidades. Do ponto de vista estritamente cinematográfico, é até difícil acreditar que o filme do húngaro Ladislao Vadja recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim e conquistou menção honrosa em Cannes.

Trata-se de um filme pobre. O design de som, por exemplo, quase não abre espaço para ruídos e efeitos sonoros, privilegiando as vozes e uma trilha sonora genérica onipresente. A cinematografia é trivial, com as câmeras limitando-se a seguir os personagens, sem maiores preocupações com composição visual, à exceção das cenas no terceiro ato em que Marcelino e Jesus conversam – a criatividade foi necessária para driblar a falta de recursos para efeitos especiais.

O ritmo é outro problema, já que o primeiro ato se estende em demasia e torna o filme arrastado, demorando um tempão para desenvolver a história propriamente dita. Além do mais, o elenco – que tem a presença do veterano Fernando Rey, de “Operação França” (1971) – também não ajuda. Pablito Calvo, garoto que interpreta o protagonista, tem um sorriso contagiante, mas nenhuma presença cênica.

Para completar, como se pode imaginar, os efeitos especiais em 1954 não eram exatamente uma especialidade do cinema espanhol, e resultam menos convincentes do que os engenhosos trabalhos do pioneiro Georges Mèliés, cinco décadas antes. Sobreposições e fusões de má qualidade tomam a tela nos momentos mais dramáticos, impedindo a platéia de “comprar” a realidade da história.

O maior problema do longa, contudo, não está nas características cinematográficas do filme em si, mas no caráter inegável de propaganda católica que ele carrega. Por tudo isso, é bastante curioso perceber que, visto em casa, “Marcelino Pão e Vinho” ainda exerce curioso fascínio sobre boa parte dos espectadores – e não me refiro às crianças, que são naturalmente o público mais suscetível à mensagem do filme, por causa da empatia imediata gerada pelo protagonista-menino.

Há, evidentemente, o aspecto da nostalgia, que ajuda muitos adultos a relevarem defeitos técnicos evidentes por causa das lembranças de infância que o filme lhes traz. De qualquer forma, a mensagem religiosa é forte o suficiente para garantir sobrevida considerável ao único trabalho de destaque da filmografia do diretor, especialmente no maior país católico do mundo.

O DVD nacional carrega o selo da Versátil. Não há extras, mas pelo menos a qualidade de imagem (standard 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0) é decente.

– Marcelino Pão e Vinho (Marcelino Pan y Vino, Espanha, 1954)
Direção: Ladislao Vadja
Elenco: Pablito Calvo, Rafael Rivelles, Juan Calvo, Fernando Rey
Duração: 91 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »