Maria Antonieta

13/08/2007 | Categoria: Críticas

Sofia Coppola vê a polêmica rainha franco-austríaca como adolescente pop-rebelde em filme lindo e vazio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A seqüência de abertura de “Maria Antonieta” (Marie Antoinette, EUA/França/Japão, 2006) diz bastante a respeito do filme. Ao som de acordes estridentes de guitarra levemente desafinados da banda Gang of Four, os créditos são apresentados em letras rosa-choque sobre fundo preto, utilizando a mesma tipologia anárquica do lendário álbum de estréia dos Sex Pistols. O estilo pós-moderno nada tem a ver com o luxo e a pompa do século XVIII, época em que a história se passa. Mas, mesmo sem mostrar atores ou figurinos, a seqüência deixa evidente que a estética escolhida pela cineasta Sofia Coppola para contar a história da adolescente austríaca que virou rainha da França é, no mínimo, inusitada.

Estética pop-adolescente adornando a cinebiografia de uma controversa personagem aristocrática do Velho Mundo? Guitarras desconexas na trilha sonora de um filme de época? A escolha parece estranha, bizarra até, mas não soa tão incomum quando se analisa o retrato de Maria Antonieta que emerge do longa-metragem: uma adolescente rica (alguns poderiam acrescentar o adjetivo “alienada”, ou “patricinha”), irremediavelmente presa dentro de um mundo com o qual não guarda identificação. Para Sofia Coppola, a polêmica rainha francesa não passava de uma garota comum, uma jovem que se viu presa numa posição que não desejava e resolveu se rebelar.

A palavra-chave é rebeldia. Na interpretação de Coppola, Maria Antonieta teria sido uma menina normal com sensibilidade pop. Se tivesse nascido no século XXI, ela provavelmente ouviria The Strokes, New Order e Aphex Twins, bandas cujas canções batem ponto na trilha sonora. Também preferiria o grafismo anárquico mostrado nos créditos para escrever suas cartas, ao invés da elegante e formal caligrafia de bico-de-pena, tradicional nas altas cortes européias do século XIX. Se pudesse, Maria Antonieta teria colocado vestidos rosa-choque, posto um piercing no nariz e feito tatuagens. Enfim, teria feito tudo o que os jovens da atualidade fazem para demarcar um espaço o mais distante possível da imagem bem-comportada dos adultos. “Maria Antonieta” é um filme talhado para platéias jovens.

Observando em retrospectiva os trabalhos em cinema feitos pela diretora, é muito evidente a unidade temática. Os três filmes que Coppola dirigiu (além deste, os elogiados “As Virgens Suicidas”, de 2000, e “Encontros e Desencontros”, de 2003) enfocam, em essência, a mesma situação: mulheres jovens vivendo presas a circunstâncias das quais não conseguem se libertar. Vale lembrar que o primeiro trabalho de Sofia no cinema, como roteirista do conto “A Vida Sem Zoe” (dirigido pelo pai Francis no irregular “Contos de Nova York”, de 1989), também circundava o mesmo tema, ao mostrar uma menina solitária vivendo num quarto de hotel, esquecida pelos pais. Tudo isso torna irresistível, quase inevitável, a tendência de fazer uma leitura autobiográfica de “Maria Antonieta” – ou seja, a personagem histórica teria sido distorcida para virar uma versão ficcional da própria diretora.

Maria Antonieta, portanto, é Sofia. Isso fica ainda mais evidente quando a gente sabe que as músicas da trilha sonora fizeram parte da adolescência da própria Sofia. Curiosamente, quase tudo o que foi escrito sobre “Maria Antonieta” gira em torno da sensibilidade pop do filme, em especial a respeito da ousadia de sublinhar as cenas mais importantes com canções roqueiras. No entanto, quase ninguém percebeu que este é um recurso usado pela diretora para estabelecer a progressão emocional da protagonista, principalmente através do uso da música e da direção de fotografia. De fato, a produção pode ser dividida em dois blocos de duração mais ou menos igual, mas que seguem escolhas estéticas bastante diferentes.

Durante a primeira metade, Maria Antonieta (Kirsten Dunst) se esforça bastante para obedecer à vontade da mãe (Marianne Faithful), imperadora da Áustria e principal interessada na união precoce da filha com o príncipe francês Luiz XVI (Jason Schwartzman). Embora infeliz, a adolescente tenta se enquadrar no sistema e representar o papel que dela se espera. Neste trecho do filme, ouve-se música erudita, e as composições visuais criadas pelo diretor de fotografia Lance Acord privilegiam linhas retas e enquadramentos simétricos, organizados impecavelmente. Há muitas tomadas panorâmicas que ressaltam a opulência dos castelos franceses (Coppola filmou os interiores no verdadeiro palácio de Versalhes, onde a verdadeira Maria Antonieta viveu) e dos figurinos belíssimos (Milena Canonero, que fez “Barry Lyndon” de Kubrick, desenhou as roupas).

Já na segunda metade do filme, uma série de decepções pessoais fazem com que a futura rainha da França desista de tentar agradar à família. Ela assume sua porção rebelde, deixa flagrante sua antipatia pela amante do rei (Asia Argento) – o que causa escândalo na fauna de condes e duques que cerca os governantes – e cai de cabeça numa vida desregrada, repleta de champanhe e amantes. É quando as canções das bandas pós-punk tomam a trilha sonora de assalto. Ao mesmo tempo, a câmera busca composições diferentes, mais arrojadas, cheias de linhas diagonais em desarranjo e muito movimento.

A existência de uma lógica precisa dentro da textura colorida das imagens de “Maria Antonieta”, contudo, não o torna um filme realmente bom. Acima da beleza e do luxo evocados por cada fotograma, o que fica mais evidente é a futilidade e o vazio emocional dos personagens. Não há uma única figura histórica que se salve: o rei Luiz XV (Rip Torn) é pintado como um velho devasso, a corte é formada basicamente por mulheres invejosas e fofoqueiras de plantão, o herdeiro do trono francês é um homem fraco cujo interesse se resume a caçar raposas, e a própria Maria Antonieta é insípida em seu desinteresse pelas intrigas palacianas.

O elenco não ajuda muito – Kirsten Dunst não convence como adolescente, Jason Schwartzman parece ter dificuldade para se mover dentro do figurino pesado, Asia Argento não tem o menor cacoete de dama do séculoXVIII. Em meio a tantos acertos narrativos e à beleza visual evidente, o que realmente sobressai é a narrativa ausente, distante, quase onírica, de um filme entorpecido de ópio. Sim, é a obra de um autor, mas que autor chato, hein? No final das contas, o que sobra é um espetáculo visual equivalente à protagonista: lindo de se ver, e vazio como um balão de gás.

O DVD, da Sony, traz o filme com imagens na proporção correta (widescreen anamórfica), áudio OK (Dolby Digital 5.1), mais making of e galeria de cenas cortadas.

– Maria Antonieta (Marie Antoinette, EUA/França/Japão, 2006)
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Marianne Faithful, Steve Coogan
Duração: 123 minutos

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