Marley e Eu

15/05/2009 | Categoria: Críticas

Melodrama cômico sobre o processo de maturidade de um homem usa o velho clichê do cão bonitinho para mexer com a empatia da platéia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Lágrimas. Lágrimas e mais lágrimas. Não há como escapar delas ao final de “Marley e Eu” (Marley & Me, EUA, 2008). Você pode ter amado o filme, ou tê-lo odiado, ou mesmo tê-lo atravessado sentindo a estranha sensação de que se trata, no fundo, da história sobre a maturidade de um homem, onde o cachorro é mero acessório de luxo. Não importa muito a interpretação que você dá à história; importa que o choro no final seja praticamente inevitável, e – supresa! – funciona bem em um nível dramático mais raso. Afinal, trata-se do momento infalível da catarse, e a catarse sempre foi elemento fundamental no formato dramatúrgico do drama, desde que os gregos o inventaram.

É perfeitamente explicável, portanto, o sucesso quase banal da versão cinematográfica do tomo autobiográfico de mesmo nome, escrito pelo jornalista John Grogan. O filme de David Frankel (“O Diabo Veste Prada”) é um perfeito representante do drama cômico, ou comédia dramática, um formato essencialmente norte-americano de cinema que esconde por trás da historinha simples um tema universal (a chegada da maturidade) e uma lição de moral bem mastigadinha, ao estilo dos livros de auto-ajuda que ficam em destaque nas vitrines das livrarias.

Afinal de contas, além de retrabalhar a historinha do crescimento pessoal de Grogan (interpretado por Owen Wilson), o diretor usa como fio condutor da história um elemento dramatúrgico infalível para evocar a empatia da platéia: um animal. No caso, Marley, um cão labrador (não por acaso, uma das raças favoritas das crianças). O filme começa quando Grogan e sua noiva (Jennifer Aniston) compram o filho, e termina… bom, não é difícil imaginar como ele termina. O importante é saber que “Marley & Eu” não é um filme sobre um cachorro, e nem sobre a relação de amizade entre um homem e um cachorro. Trata-se de um filme sobre os processos de tomada de decisões que transformam um menino (ou, no caso, um sujeito com cara e comportamento de adolescente) em um homem.

Nesse ponto, “Marley & Eu” ganha todo um novo espectro de interesse, porque reflete um tema bastante caro aos tempos contemporâneos, que é a dificuldade que temos – todos nós, pessoas do século XXI – em deixar a infância para trás e assumir as rédeas de nossas próprias vidas, com todas as dificuldades que isso significa. A questão é que Frankel trata esse tema espinhoso com leveza, apinhando o filme de elementos talhados para garantir a empatia dos espectadores. Os dois principais são a escalação dos atores que fazem o par principal (Wilson e Aniston não são apenas astros populares nos EUA, mas se tornaram conhecidos exatamente pela simpatia natural que provocam nas pessoas) e, claro, o fato de que toda a história é filtrada pelos olhos de um animal de estimação.

Há décadas, no cinema, os cachorros são usados como ferramentas narrativas para provocar empatia. Um velho clichê de Hollywood, por exemplo, diz que não importa quantas pessoas o protagonista de um filme seja mostrado matando, desde que o diretor jamais o filme matando um cão. Em “Janela Indiscreta” (1954), Alfred Hitchcock subverteu esse clichê e fez platéias do mundo inteiro espumarem de ódio do vilão, depois que este mata o cão de um casal (as mesmas platéias que estavam prestes a desculpá-lo por ter esquartejado a própria mulher, uma velha chata que passava o dia inteiro resmungando). “Marley & Eu” abraça o clichê em sua forma mais convencional, o que estimula o processo de identificação do público com o animal.

Curiosamente, Marley (o cão) é uma figura pouco importante, no que se refere à importância narrativa. Seu envelhecimento assinala a passagem do tempo na história, que cobre quase duas décadas (embora Owen Wilson e Jennifer Aniston continuem jovens, bonitos e esbeltos durante todo o tempo), e ele pontua o andamento com gags físicas que dão humor e colorido à história, mas é só. Marley não influencia muito na série de importantes decisões que John Grogan precisa tomar no decorrer da história, que vão do casamento à paternidade às mudanças de emprego. E o final do filme… também não precisava apelar, né, David Frankel?

O DVD nacional é da Fox e vem em disco simples. O formato original (wide 2.35:1 anamórfico) foi respeitado, e a trilha de áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). O material extra é compacto: galeria com 19 cenas cortadas (26 minutos), making of (8 minutos), featurettes sobre os cachorros usados no filme (7 e 3 minutos), featurette sobre adoções de cães (3 minutos), erros de gravação (6 minutos) e uma piadinha sobre uma cena específica do filme (2 minutos). Divertido.

– Marley e Eu (Marley & Me, EUA, 2008)
Direção: David Frankel
Elenco: Jennifer Aniston, Owen Wilson, Eric Dane, Alan Arkin
Duração: 115 minutos

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