Máscara da Ilusão

25/03/2006 | Categoria: Críticas

Fábula surrealista britânica cria soturno universo de criaturas bizarras a partir da arte de Dave McKean

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Máscara da Ilusão” (MirrorMask, Inglaterra/EUA, 2005) é um filme talhado para os fãs da legendária série de quadrinhos adultos Sandman, especialmente aquela parcela de leitores que se delicia não apenas com as maravilhosas histórias boladas pelo escritor Neil Gaiman, mas também com as capas sensacionais criadas pelo designer gráfico Dave McKean. O filme é um projeto de longa data da dupla, e atinge perfeitamente o objetivo dos dois autores: criar um universo tridimensional completo, habitável por atores de carne e osso, a partir do soturno visual surrealista criado por McKean para as capas da publicação.

De fato, este é um filme feito sob medida para designer gráficos e amantes das artes plásticas em geral. O visual é mais importante do que a história, que vem em segundo plano, como os próprios autores admitem. Nesse sentido, “Máscara da Ilusão” é muito mais um projeto de Dave McKean do que de Neil Gaiman; o trabalho do roteirista foi tão somente elaborar uma fábula adulta que permitisse ao amigo designer liberar toda sua criatividade, criando personagens e locações bizarras a partir de colagens fotográficas produzidas sobre texturas rústicas e monocromáticas, quase sempre em tons de cobre, crepusculares. O resultado final soa como “O Mágico de Oz” refeito por um artista plástico pós-moderno.

O clássico dirigido em 1939 por Victor Fleming é a principal referência de “Máscara da Ilusão”, porque fornece o esqueleto narrativo que sustenta a história criada por Neil Gaiman. Em linhas gerais, o enredo dos dois filmes pode ser resumido com as mesmas palavras. Vejamos: menina com problemas familiares vive uma aventura surrealista em uma espécie de universo paralelo, habitado por criaturas que têm rostos estranhamente familiares, mas não parecem humanas. Em “Máscara da Ilusão”, a menina é Helena (Stephanie Leonidas), uma filha de artistas circenses que está cansada da vida cigana e deseja viver como uma adolescente normal.

O problema de Helena é a misteriosa doença que acomete a mãe dela (Gina McKee), logo após uma áspera discussão entre as duas. Na noite em que a mulher será submetida a uma perigosa cirurgia na cabeça, a traumatizada Helena vai parar, sem saber como, no universo dos maravilhosos e sinistros desenhos que rabisca nas paredes do quarto (aliás, a idéia de transformar a garota na autora dos desenhos que servem como alicerce visual do universo fantástico é engenhosa, pois justifica os delírios visuais que vêm a seguir). No novo mundo, Helena precisa encontrar o artefato mágico do título, que trará equilíbrio e paz. Nesse caminho, vai topar com criaturas fascinantes e misteriosas, como bizarros pássaros-macacos, máscaras gigantes que falam e um grupo de fascinantes e ameaçadoras esfinges.

Quem acompanha a obra de Neil Gaiman vai encontrar no filme uma série de conceitos familiares ao escritor: referências a “Alice no País das Maravilhas” (as pantufas em forma de coelho, que geram uma ótima piada), ao mitológico personagem do Arlequim, às máscaras carnavalescas da Idade Média, ao mundo do circo. Isso sem falar da própria lógica distorcida de tempo e espaço que domina o mundo dos sonhos, algo que o próprio Gaiman soube trabalhar tão bem na premiada série dos quadrinhos e que, aqui, ganha contorno próprio.

No entanto, é mesmo o visual delirante criado por Dave McKean (os créditos oficiais lhe atribuem “direção e design”, o que não deixa de ser uma informação fundamental) que chama a atenção. Para produzi-lo, com apenas U$ 4 milhões, McKean utilizou a mesma técnica de hipervalorizado “Sin City”: os atores filmaram todas as cenas (com exceção do prólogo e do epílogo) em estúdio, numa enorme sala com fundo azul, enquanto uma equipe de 16 jovens artistas ficou encarregada de montar os cenários digitais, mesclados depois com as imagens do elenco.

Tudo isso foi feito a partir de criações visuais de McKean, que elaborou todas as texturas e criaturas digitais usando o programa trivial Adobe Photoshop. Essa matéria-prima foi repassada aos artistas gráficos, junto com instruções detalhadas sobre movimentos de câmera e iluminação, de forma que eles pudessem animar os desenhos. O resultado final, para quem não conhece a arte de Dave McKean, lembra um pouco a obra de Salvador Dali, especialmente a famosa série de desenhos de relógios derretidos. A animação ficou nota 10, e a interação entre os atores, o cenário e as criaturas digitais é simplesmente perfeita.

Vale ressaltar que, apesar do tom fugir totalmente do realismo e ter um toque sinistro muito evidente, não se trata de um filme adulto, mas de uma fábula infanto-juvenil, na linha do citado “O Mágico de Oz”, só que mais cínico e menos escapista – pense em uma mistura dos filmes de Tim Burton com os quadros do já citado Dali, e terá uma boa idéia do que é o filme. Como se não bastante, as generosas doses de humor britânico (aquele tipo de humor que não faz rir, mas é excêntrico e delirante) garantem cenas divertidas, como dois momentos distintos em que Helena foge de seres ameaçadores, com o amigo Valentine (Jason Barry), usando livros, de duas formas incomuns. Um filme excêntrico e delicioso.

O DVD lançado no Brasil pela Sony é muito bom. O disco é simples, mas traz uma cópia do filme em alta resolução, com enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) e som OK (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, um comentário em áudio reunindo Gaiman e McKean, um bom documentário dividido em cinco partes (entrevistas com os dois artistas, números da produção e uma sessão de perguntas e respostas com fãs) e uma galeria de imagens produzida por McKean. Todo o material tem legendas em português. Os menus animados são de alta qualidade e seguem o estilo do longa-metragem.

- Máscara da Ilusão (MirrorMask, Inglaterra/EUA, 2005)
Direção: Dave McKean
Elenco: Stephanie Leonidas, Gina McKee, Rob Brydon, Jason Barry
Duração: 101 minutos

| Mais

GOSTOU DO FILME? DÊ SUA NOTA

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (3 votos. Média de 5,00 em 5)
Loading ... Loading ...


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »

  1. Ótimo filme.
    Nem dava nada por ele até ver…
    Bom para ver com a namorada….
    Estimular a mente….
    Chega do Real!!
    Fantasia criativa é melhor!!

  2. Mckean e claro Gaiman! Estes são gênios incomprendidos de nossa era(Século XX e XXI) , só serão dados o devido valor quando já não estiverem na terra. Assim como Chopin, Beethoven e outros. Estes homens se tornarão clássicos da humanidade! Parabéns!! E que o mundo do Sonhos sempre existam pra nós!

  3. A genialidade é sempre incompreendida, porém secretamente admirada. Máscara da Ilusão é um filme belíssimo, cuja criatividade é o ponto alto. Fiquei encantada com o filme! Divino Surrealismo!!!

  4. filme muito estranho,não dá pra entender quase nada.

  5. filme muito estranho,não dá pra entender quase nada.

Deixar comentário