Máscara de Satã, A

26/08/2005 | Categoria: Críticas

Estréia de Mario Bava é horror gótico visualmente ótimo, mas com enredo frouxo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O italiano Mario Bava nasceu em 1914 e estudou para ser pintor. Sua carreira profissional, no entanto, o levou ao cinema. Devido aos conhecimentos técnicos sobre técnicas de produção e exibição de imagens, ele se tornou um respeitável diretor de fotografia. Até que, aos 46 anos de idade, decidiu estrear como diretor, com uma homenagem explícita aos antigos filmes de horror da Universal, como “Drácula” e “Frankenstein”. O filme foi “A Máscara de Satã” (La Maschera del Demonio, Itália, 1960), e firmou posição como uma das pedras angulares do cinema italiano de terror, que ganharia muitos adeptos na década seguinte.

Por causa do seu background profissional, Mario Bava desenvolveu um estilo eminentemente visual, dando ênfase absoluto a questões técnicas. O uso (ou a ausência) de cores e sombras, os enquadramentos, a composição de imagens na tela, a utilização abundante e original (com movimentos rápidos) do zoom são marcas registradas que já havia desenvolvido durante o trabalho como fotógrafo para diretores como Roberto Rossellini. Por isso, não causa espanto que “A Máscara de Satã” seja um filme tão maduro visualmente. Bava não era um aprendiz desenvolvendo um estilo, mas um mestre no ofício que agora trabalhava em projetos pessoais.

Por outro lado, a falta de experiência como diretor o levou a deixar em segundo plano as questões narrativas. Em “A Máscara de Satã”, isso é bastante evidente; o erro seria corrigido em filmes posteriores, mas ainda assim a parte visual do trabalho de Bava continua a chamar mais atenção do que os aspectos narrativos. “A Máscara de Satã” é horror gótico com visual interessante, mas com enredo frouxo e problemas de roteiro. Um exemplo: a geografia da principal locação – um castelo na Moldávia – é confusa e tem erros evidentes. Um quarto do castelo desemboca em uma cripta que é mostrada, em outra cena, como construção separada, e por isso seria impossível uma comunicação direta entre os dois aposentos.

O que transforma “A Máscara de Satã” em produto superior é a atmosfera sombria e cheia de mistério que Mario Bava consegue imprimir à película, graças à habilidade acima do normal para construir composições visuais cheias de sombras e contrastes fortes, algo que fica ainda mais evidente porque a fotografia do filme é em preto-e-branco. Algumas pessoas vêem influência do expressionismo alemão, mas a fonte onde Bava bebe está muito mais nos filmes B da Universal. Os elementos visuais são bem semelhantes: floresta, nevoeiro, castelos empoeirados, lobos, morcegos, tempestades. Além disso, o final de “A Máscara de Satã” é uma alusão bem evidente ao clímax de “Frankenstein”, que James Whale dirigiu em 1931.

O enredo é uma adaptação livre de um conto do escritor russo Nikolai Gogol. A narrativa distorce os conceitos que conhecemos sobre bruxaria e vampirismo, mas a história básica é bem simples. Trata da ressurreição de uma princesa acusada de bruxaria. Asa Vajda (Barbara Steele) volta à vida graças à intervenção desastrada de dois médicos que passam pelo castelo onde ela está enterrada e quebram a cruz que a mantinha aprisionada dentro de um caixão de pedra. A mulher revive o amante vampiro Javutich (Arturo Dominici) e tenta possuir a sua descendente Katia Vajda (também interpretada por Steele).

A trama tem problemas evidentes de ritmo e os erros de continuidade são muitos. Ao despertar, por exemplo, a bruxa já sabe o nome dos médicos que estão no lugar, sem que ninguém tenha contato com ela. Além disso, as interpretações carecem de naturalidade, soando empostadas devido aos diálogos declamados, solenes demais. Por outro lado, há ótimas seqüências de horror, como as ressurreições de Asa (uma cena bem gore, violenta, que serviria de inspiração para os futuros trabalhos de Dario Argento) e Javutich. Esse último sai da cova de maneira bem dramática, em cena que teria eco depois em “Kill Bill”, de Tarantino. Há ainda um prólogo fascinante, que mostra como a bruxa Asa foi capturada e posta fora de combate, com o uso de uma máscara metálica cheia de pregos.

O disco contém uma cópia em bom estado de conservação, com poucos arranhões, o que valoriza ainda mais a fotografia. A qualidade da cópia é completada com o corte original (widescreen anamórfico 1.66:1) e trilha em inglês, no formato Dolby Digital 1.0. Não existem extras. O lançamento é da Works DVD, com base no lançamento efetuado em 1999 nos EUA pela Image Entertainment.

– A Máscara de Satã (La Maschera del Demonio, Itália, 1960)
Direção: Mário Bava
Elenco: Barbara Steele, Ivo Garrani, Andrea Checchi, John Richardson
Duração: 87 minutos

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