M.A.S.H.

26/09/2003 | Categoria: Críticas

Obra-prima de Robert Altman faz crítica ácida à estupidez da guerra em coleção de esquetes memoráveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O ano era 1970 e a guerra do Vietnã representava mais ou menos a mesma coisa que a caçada a Osama bin Laden nos Estados Unidos, após os ataques de 11 de setembro de 2001: o assunto do momento. A diferença é que lá, enquanto os conservadores apoiavam a ação militar na Ásia, a juventude ia às ruas para protestar. Por isso, abordar esse tema espinhoso numa produção de grande estúdio (no caso, a 20th Century Fox) era uma tarefa hercúlea. Com “M.A.S.H.”, porém, o cineasta Robert Altman não só conseguiu realizar a proeza, como consolidou uma das carreiras mais iconoclastas já vistas em Hollywood. Essa obra-prima do humor como crítica social existe no Brasil em um ótimo DVD duplo.

Em sua carreira, filme a filme, Altman se dedicou cutucar as feridas da sociedade norte-americana e fazer a ela uma crítica implacável, sempre armado com um senso de humor corrosivo e vastas galerias de tipos humanos impagáveis. “M.A.S.H.”, claro, permanece como uma das mais ácidas críticas à estupidez da guerra. Além disso, tem o mérito de ser um dos primeiros filmes na História a ter a palavra “fuck” dita por um ator. O crítico cinematográfico Roger Ebert, cronista do jornal Chicago Sun Times e o mais conhecido nome do ramo, garante que “M.A.S.H.” é o grande pioneiro nesse sentido, pelo menos entre obras custeadas por estúdios de Hollywood.

O formato digital, que vem recuperando para as novas gerações clássicos que mofavam nas locadoras, é perfeito para o filme de Altman. “M.A.S.H.” foi feito num formato (2:35:1) que proporciona perda maior que 50% de sua imagem, em cortes laterais, quando visto na TV. O efeito tela de cinema é preservado no disco e, ainda por cima, houve uma bela restauração da película, o que é louvável. O processo de recuperação do negativo original é descrito num pequeno documentário no disco 2.

Mesmo com esse capricho, a imagem de M.A.S.H. ainda está granulada e cheia de sombras. Ressalte-se, contudo, que essa era a intenção do diretor. Altman fez um filme de baixo orçamento e tentou, através do uso de lentes especiais, deixar o filme com fotografia quase amadora (não à tôa, a seqüência do jogo de futebol entre os recrutas, no final, é a mais luminosa). Esses detalhes dos bastidores, bem como os estrategemas que Altman usou para burlar a vigilância da Fox e manter o tom satírico do enredo, estão espalhados nos três documentários. Juntos, eles contam 1h45 de entrevistas com atores, roteiristas e produtores da obra: detalhes técnicos, relatos das gravações e relacionamentos no set, está tudo lá. O próprio Altman ainda contribui com um comentário em áudio. Tudo está legendado em português, para alegria dos fãs.

É possível perceber, no filme, a característica mais pertinente da obra completa do cineasta: o enredo fragmentado em múltiplos protagonistas e pequenos contos minimalistas que, apenas quando reunidos, possuem um sentido mais amplo. “M.A.S.H.” contém uma coleção de esquetes que narra o cotidiano dos médicos do Exército norte-americano na Guerra da Coréia (Coréia só no nome, diga-se). O locutor atrapalhado que fala a todo instante no rádio do acampamento conecta as histórias, que envolvem uma porção de personagens.

A galeria de co-protagonistas, aliás, está entre as melhores já boladas por Altman. Os dois melhores médicos do camping ficam à frente das câmeras por mais tempo; são dois boa-vidas de carteirinha, Trapper John McIntyre (Elliott Gould) e Hawkeye Pierce (Donald Sutherland). A chegada e a saída do último ao front marcam início e fim do filme. Além da dupla, há um major que encobre taras sexuais rezando o dia inteiro (Robert Duvall), um dentista gay com o maior membro sexual do Exército americano (John Schuck), uma loira sensual e autoritária, a major Lábios Ardentes Houlihan (Sally Kellerman) e muitos outros sujeitos hilariantes.

Nas histórias, o cineasta enfatiza o absurdo da guerra através da aparente displicência dos médicos para com o trabalho. Entre cirurgias complicadíssimas, eles lutam para arrumar azeitonas para beber martini e jogam golfe; tentam transar com todas as mulheres que aparecem pela frente e planejam ganhar uma grana preta numa aposta com o general/comandante. Enfim, estão pouco se lixando para os feridos – querem mais é se divertir e fazer o tempo passar mais rápido. O horror cotidiano da guerra é tão comum que não espanta mais.

Espectadores não acostumados com o trabalho do diretor podem estranhar o ritmo (ou a falta dele). Não há tensão aparente, nem algo que poderíamos chamar de clímax. Mas nem precisa, porque o que o humor corrosivo das melhores esquetes pretende mesmo é destruir completamente os estereótipos do Rambo, o herói de guerra altruísta e patriótico que Hollywood gosta de perpetuar como imagem-padrão do americano típico. Preste atenção especial em dois momentos geniais: a vinheta em que Altman emula o quadro “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci, para narrar um surreal ritual de suicídio à moda ocidental; e o dia em que os oficiais acampados armam um plano para descobrir se os cabelos louros da major Lábios Ardentes são mesmo naturais. Hilariante.

– M.A.S.H. (M.A.S.H., EUA, 1970)
Direção: Robert Altman.
Elenco: Donald Sutherland, Elliott Gould, Robert Duvall, Sally Kellerman, John Schuck. Fox.
Duração: 117 minutos

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