Matadores de Velhinha

02/01/2008 | Categoria: Críticas

Irmãos Coen assinam direção juntos pela primeira vez em comédia de humor negro impecável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Personagens surreais, diálogos deliciosamente camp (exagerados), trilha sonora repleta de canções rurais dos EUA e um senso de humor negro inigualável. “Matadores de Velhinha” (The Ladykillers, EUA, 2004) revisita com eficiência o universo muito particular dos irmãos Joel e Ethan Coen, após uma ligeira derrapada (“O Amor Custa Caro”, apenas razoável). Se “Matadores de Velhinha” não chega a estar à altura dos grandes momentos dos irmãos cineastas, que estão entre os mais originais e criativos artífices do cinema contemporâneo, pelo menos revela-se um longa de humor inspirado e belas imagens.

Na verdade, o longa-metragem tem alguma semelhança com o excelente “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”. Naquela comédia, os irmãos Coen buscaram inspiração livre nos fatos narrados na “Odisséia”, de Homero, e adicionaram isso fartas doses de paixão pelo ritmo da vida rural nos EUA. Tudo isso, claro, temperado com o humor negro peculiar de Joel e Ethan. Em “Matadores de Velhinha”, a inspiração vem de Edgar Allan Poe, embora esteja disfarçada de remake de um antigo filme inglês de 1955.

Como no longa-metragem original, “Matadores de Velhinha” narra uma história simples e surreal. O professor G.H. Dorr (Tom Hanks), um excêntrico professor sulista, aparece de surpresa na casa da viúva Marva Munson (Irmã P. Hall), numa cidadezinha à beira do rio Mississipi, querendo alugar um quarto da casa. Ele diz que deseja levar os colegas músicos de um grupo especializado em música renascentista para ensaiar no porão empoeirado do lugar. A senhora, encantada com o charme excêntrico do intelectual, aceita.

Ela não sabe, porém, que a história não passa de desculpa para que Dorr execute o roubo do cofre de um cassino localizado num barco. Ocorre que o cofre fica bem perto da casa. Dorr e seus asseclas pretendem, então, cavar um túnel ligando os dois lugares para efetuar um assalto perfeito. Como em qualquer filme dos irmãos Coen, é evidente que o plano original do protagonista vai progressivamente acumulando problemas, até sair completamente de controle – e tudo de uma maneira absolutamente imprevisível para o espectador.

“Matadores de Velhinha” captura os irmãos Coen (aqui assinando a direção de um filme juntos, oficialmente, pela primeira vez) no melhor de sua forma. Os cineastas constroem, com o cuidado habitual, um protagonista peculiar, com nuanças de comportamento que o fazem capaz de parecer ao mesmo tempo caricato e assustador. Dorr usa um vocabulário pomposo ao falar, citando freqüentemente passagens de Poe; se veste de forma impecável, com ternos e gravatas dignos das universidades (do século XIX); tem um cavanhaque ligeiramente diabólico e um topete um tanto engraçado; e possui uma risada descontrolada que é a cereja no topo do bolo. Ele não parece um intelectual antiquado – é o próprio, graças à boa interpretação de Tom Hanks.

O elenco de apoio segue a performance com a habitual competência. Os quatro membros da quadrilha estão absolutamente hilariantes, com destaque para Tzi Ma e seu hábito alucinado de esconder um cigarro aceso dentro da boca, com a ajuda da língua. Enquanto isso, Irma P. Hall e suas pernas tortas domina a cena sempre que está diante da câmera. E se os trejeitos curiosos dos coadjuvantes podem dar a impressão de um besteirol, o texto refinado e a trilha sonora espetacular (T. Bone Burnett aparece desta vez com uma coleção impecável de música gospel) transformam pura diversão em algo mais.

Mesmo com tantos atores bacanas e diálogos brilhantes, o destaque maior do filme está mesmo atrás da câmera: o fotógrafo Roger Deakins prova, mais uma vez, que é um dos maiores nomes da sua profissão em atividade. A fotografia, em tons laranjas e esverdeados, é rigorosamente primorosa, desde a escolha da paleta de cores até os enquadramentos precisos. Infelizmente, a crítica foi rigorosa com o filme e o tem julgado como uma obra menor dos irmãos Coen (de fato, não há como colocá-lo no mesmo patamar de “Fargo” ou “Gosto de Sangue”). Por outro lado, “O Grande Lebowski” ou “O Homem Que Não Estava Lá” também foram vistos dessa maneira, antes que o tempo se encarregasse de mostrar que eram integrantes legítimos da filmografia extensa e impecável de dois dos maiores (e mais despretensiosos) cineastas das últimas décadas.

O DVD da Buena Vista, simples, contém o filme com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Matadores de Velhinha (The Ladykillers, EUA, 2004)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Tom Hanks, Irma P. Hall, Marlon Wayans, J.K. Simmons
Duração: 104 minutos

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