Match Point

07/01/2007 | Categoria: Críticas

Woody Allen trabalha a idéia do acaso em filme revigorante que alfineta com classe e ironia a aristocracia inglesa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O Festival de Cannes de 2005 marcou uma espécie de ressurreição para Woody Allen. Depois de lançar vários trabalhos apenas medianos (“Dirigindo no Escuro” e “Melinda e Melinda”), que repisavam temas caros ao cineasta desde os anos 1970, o diretor apareceu no evento com “Match Point” (EUA/Inglaterra/Luxemburgo, 2005), um trabalho revigorante, muito diferente do que ele faz tradicionalmente. O sucesso foi grande, e merecido. Pela primeira vez na vida, Allen filmou fora de Nova York (por razões financeiras, diga-se), deixou a comédia de lado e não incluiu na trama seu personagem favorito – o intelectual judeu inseguro e neurótico. Só por isso, o filme já mereceria atenção especial. Mas “Ponto Final” é mais do que isso. É um roteiro imprevisível que alfineta a aristocracia inglesa e brinca com a idéia do acaso em um enredo calcado na obra de Dostoievski.

A história contada no longa-metragem se passa em Londres e é uma narrativa mordaz, mas não exatamente bem-humorada; trata-se de uma crítica elegante de Allen aos hábitos excêntricos e fúteis das altas rodas de Londres. O personagem principal é o irlandês Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers), ex-tenista que largou o esporte profissional para dar aulas a executivos em um fechado clube londrino. Um dos alunos é Tom Hewett (Matthew Goode), filho de um rico empresário local (Brian Cox). O gosto em comum por ópera e literatura – Wilton é um grande fã de Dostoievski, grande sacada metalingüística de Woody Allen, que se baseou livremente no célebre romance “Crime e Castigo” – cria uma amizade entre os dois e introduz Chris ao mundo chique da capital inglesa.

Wilton é um alpinista social. Ele tem charme, polidez e boa aparência, o que faz Chloe (Emily Mortimer), irmã de Tom, se apaixonar por ele. O romance pode significar a porta de entrada de Chris para um mundo de luxo e conforto, mas existe uma ameaça: Nola (Scarlett Johansson), atriz norte-americana sem dinheiro que namora Tom Hewett. A atração que o ex-tenista sente pela loira de lábios carnudos é forte demais para ser sublimada em troca da relação estável com a bonitinha e insossa Chloe. O pior é que Nola gosta dele, mas também ela teme perder a posição conquistada junto aos Hewett.

A partir daí, “Match Point” se desenvolve de maneira imprevisível, a partir de um roteiro recheado de reviravoltas impulsionadas pelo lema que move Chris Wilton: “É melhor ser um homem de sorte do que ser um homem bom”. De fato, “Match Point” é um filme sobre o acaso, e nesse sentido possui forte conexão com o filme anterior de Woody Allen, “Melinda e Melinda”, que apresentava duas versões diferentes para a vida de uma mesma mulher. A tese é que o acaso, através de circunstâncias inesperadas e imprevisíveis, molda a existência de alguém. “É assustador pensar que o futuro depende mais da sorte do que de esforço”, raciocina Wilton.

O filme trilha esse caminho, mas sem deixar de elaborar a todo momento uma crítica feroz à futilidade da aristocracia londrina, o que faz de “Match Point” uma espécime ilustre da linhagem de longas-metragens que deu ao cinema obras como “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir, e “Assassinato em Gosford Park”, de Robert Altman. Além disso, possui um roteiro brilhante. Sempre que o espectador imagina que sabe para onde a história está indo, aparece uma reviravolta que leva a trama a um lugar completamente inesperado. A meia hora final, especialmente, é uma pérola de non-sense e humor negro.

Na tarefa de reinventar a própria carreira, Woody Allen conta com a colaboração de um forte elenco jovem. Rhys-Meyers constrói Chris Wilton de maneira inesperada e muito eficiente. Ele recusa o chavão do sorriso cínico e compõe o ex-tenista como um homem frágil e delicado, que sabe utilizar essa qualidade a seu favor, transformando-a em charme. Por outro lado, Scarlett Johansson é pura energia sexual (“Minha família diz que a minha irmã é mais bonita, mas eu sou sexy”). A cena em que os dois fazem amor pela primeira vez, em uma tarde chuvosa no mato, é de uma crueza incomum na obra de Woody Allen.

Embora boa parte da crítica aponte certa semelhança entre este filme e “Crimes e Pecados”, de 1989, a verdade é que Woody Allen fez um filme completamente diferente daquilo que se espera dele, o que é sempre muito bom. Aqui, saem as tragédias e comédias gregas e os Irmãos Marx, para dar lugar a ópera e Dostoievski, influência que Allen não hesita em deixar evidente ao incluir uma cena em que Chris Wilton lê “Crime e Castigo”. Em resumo, “Match Point” surge como marco de reinvenção de uma carreira que já se julgava em ponto morto. Acredite: Woody Allen ainda tem muito a dizer como autor.

O lançamento brasileiro é da PlayArte. O disco é simples, contendo unicamente o filme, com enquadramento original preservado (widescreen letterboxed) e som razoável em quatro canais (Dolby Digital 2.0).

- Match Point (EUA/Inglaterra/Luxemburgo, 2005)
Direção: Woody Allen
Elenco: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Michael Goode
Duração: 124 minutos

| Mais

GOSTOU DO FILME? DÊ SUA NOTA

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (12 votos. Média de 4,50 em 5)
Loading ... Loading ...


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »

  1. bom dia…
    bom eu gostei do filme porem eu nao consegui assisti-lo inteiro acabei dormindo alguem sabe me dizer qual é o final nao me perdoei por nao ter terminado de assistir

    obrigada

  2. Ótimo filme do velho Wood. Até me animei pra ver VICKY CRISTINA. Jennifer vc perdeu um filma surpreendente (como a chamada da TV disse). Mas falar o final aqui seria sacanagem e SPOLIERS, tem gente q abomina.! rs

Deixar comentário