Matei Jesse James

15/08/2005 | Categoria: Críticas

Sam Fuller ficcionaliza episódio da história americana e realiza ótimo estudo sobre a culpa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Matei Jesse James” (I Shot Jesse James, EUA, 1949) é o filme de estréia do controverso diretor Samuel Fuller. Como projeto, o longa-metragem diz muito sobre o tipo de cinema que agradava ao cineasta. Embora o legendário pistoleiro norte-americano esteja no título, ele não é o protagonista desse melodrama surpreendente. Esse papel cabe a Bob Ford (John Ireland), o integrante da quadrilha de James que o matou, covardemente, com um tiro nas costas. O filme de Fuller ficcionaliza o episódio, imaginando o que poderia ter acontecido com Ford após o crime que lhe tornou famoso e, ao mesmo tempo, maldito.

A produção de “Matei Jesse James” foi bastante conturbada. Mesmo trabalhando com orçamento reduzido, Fuller não pôde escalar o ator que desejava para o papel de Jesse James, e teve que efetuar mudanças no elenco até dias antes de as filmagens começarem. Mesmo assim, desde o começo, optou por soluções visuais baratas e criativas para cenas menos importantes, de modo que pudesse filmar sem ser importunado.

Essa criatividade com poucos recursos fica evidente já nos créditos de abertura, que não passam de cartazes desenhados com letras no estilo western e colados em uma parede. A câmera passeia pelos cartazes e, imediatamente após mostrar o nome do diretor, move-se rapidamente para a direita e focaliza o rosto do famoso bandido, que abre o filme freneticamente em meio a um assalto. Créditos como os de “Durval Discos” bebem diretamente dessa fonte.

Nessa seqüência, Jesse salva a vida de Ford, baleado no assalto. Os dois se escondem na fazenda do chefe do bando, sob identidades falsas. Acontece que Ford tem uma paixão. A presença de Cynthy Waters (Barbara Britton) na cidade faz Bob Ford considerar seriamente a possibilidade de matar o chefe para ganhar o perdão da Justiça. Sendo homem livre, e contando ainda com o bônus da recompensa pelo sumiço de James, Ford imagina que será fácil se casar e começar uma vida de fazendeiro. O filme traça o retrato da vida de Ford após o crime, bem como as reações da sociedade ao seu ato.

De certa maneira, não seria errado chamar “Matei Jesse James” de um anti-western. Abusando de movimentos de câmera rápidos e firmes, e de um número bem mais abundante de closes em rostos do que o normal, Sam Fuller realiza um excelente estudo sobre a culpa. Após o assassinato, Ford é assaltado pela rejeição social (não tanto pelo assassinato em si, mas pela forma covarde como o realizou) e sobretudo pelo remorso. O sentimento de culpa fica evidente quando o rapaz, contratado para encenar o crime em um espetáculo teatral de segunda categoria, não consegue simular o disparo fatal.

Há cenas memoráveis no longa-metragem, como o encontro de Ford com um violeiro que, sem saber a identidade do sujeito, canta para ele uma balada popular que enaltece James e o chama de “covarde e mesquinho” (a reação de Ford é simplesmente sair do bar, humilhado). Todos os personagens são delineados de maneira firme (observe, por exemplo, a reação da namorada de Bob Ford ao receber a notícia do crime cometido por ele). O final da película contém um belo exemplo do tipo de ironia cruel a que Sam Fuller adorava submeter seus personagens.

É um privilégio que as platéias brasileiras possam assistir a “Matei Jesse James” em DVD, pois o lançamento digital do primeiro filme de Fuller aconteceu em pouqíssimos lugares. A cópia disponibilizada pela Aurora tem imagem boa, som Dolby Digital 2.0 mono, e o disco não contém extras, excetuando-se trechos de críticas e uma sinopse em texto.

– Matei Jesse James (I Shot Jesse James, EUA, 1949)
Direção: Samuel Fuller
Elenco: John Ireland, Preston Foster, Barbara Britton, Reed Hadley
Duração: 80 minutos

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