Matrix Reloaded

18/01/2006 | Categoria: Críticas

Ótimo filme de ação, comercial de produtos sofisticados e filosofia básica em forma de cinema – o filme é tudo isso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Quando a gente escreve sobre filmes-evento gigantescos, é uma prática salutar refletir sobre o que foi visto durante alguns dias (e, se possível, ver o filme mais de uma vez) antes de fazer uma crítica. Nem sempre isso é possível. As rotinas jornalísticas aprisionaram o crítico, obrigando-o a escrever um comentário o mais rápido possível, para não ver os concorrentes lhe passarem a perna. Isso superficializa as análises, outrora mais agudas e profundas – e nem por isso menos compreensíveis. Por isso, acredito que um lançamento em DVD oferece a oportunidade de reavaliação de um filme muitas vezes injustiçado quando passa nos cinemas. Ou o contrário.

Um caso que se encaixa perfeitamente nessa situação é o de “Matrix Reloaded”. Ainda durante a temporada de cinema, em maio/junho de 2003, o longa ficou ecoando na minha cabeça durante muito tempo. A expectativa criada em torno do filme foi tão grande que eu me mandei para o Multiplex logo na primeira sessão do dia de estréia, uma quinta-feira à tarde. Queria estar entre os primeiros a ver o que os irmãos Wachowski tinham aprontado. Acho o “Matrix” original um dos raríssimos exemplares de cinema que se comunicam diretamente com a geração para quem devem falar, além de ser um longa de ação inteligente como poucos. Daí a importância. Era mesmo um filme-evento.

Desde lá, pensei muito sobre o filme. Já o revi três vezes depois disso (duas no cinema, uma no DVD), e as idéias finalmente estão mais assentadas. Antes de partir para a crítica, contudo, esclareço que sou partidário da corrente que gosta de mesclar a sensação de estar vendo o filme (ou seja, tento passar para o leitor um pouco da emoção, da espontaneidade dessa experiência) com a possibilidade de refletir friamente sobre ele (aí, uso meu conhecimento teórico para analisá-lo). É quase impossível, mas vou tentar fazer isso agora, reescrevendo o texto que fiz logo que o filme entrou em cartaz nos cinemas.

Assim, relembro aquela primeira sessão, em maio de 2003, e da maneira como fiquei desconfortável na cadeira do Multiplex. Olhava para o relógio de vez em quando, disputei o braço da cadeira com um sujeito que sentou do meu lado… essas coisas dizem muito, porque não acontecem quando o filme me atinge como um soco, algo que ocorreu com o primeiro “Matrix”. Se a obra fala diretamente ao coração, fico tão encantado que esqueço onde estou. Nem olho para o braço da cadeira, mergulho na tela, viro parte da ação. “Reloaded” não me atingiu assim. Saí da sala meio decepcionado.

Depois eu mudei de idéia – mas só um pouco. Para começar, um detalhe que realmente me incomodou muito, e parece ter passado inteiramente despercebido para o público: parte das regras estabelecidas para o “universo Matrix”, no primeiro filme, foram ignoradas. Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie Anne-Moss) enfrentam agentes sem medo e, pior, não morrem. Isso era algo inimaginável no primeiro longa. Lembro de uma cena do original, quando Cypher (Joe Pantoliano) dava um conselho a Neo: “Se encontrar um agente, faço o mesmo que o resto de nós: corra”. Dessa vez ninguém corre. Isso, acredito, é o defeito mais grave do longa.

Segundo problema: falta de ritmo. O ritmo é certamente um dos grandes trunfos do primeiro “Matrix”. Lá, as cenas de luta aparecem nos momentos certos, e o filme equilibra perfeitamente ação e idéias, kung-fu e filosofia. Dessa vez não. “Reloaded” tem cenas de ação totalmente gratuitas. Neo X guarda-costas do Oráculo?? É boa, mas inteiramente dispensável para o desenvolvimento da ação. Também está cheia de erros de continuidade, como um copo que cai e volta a subir na mesa em que a dupla briga. Além disso, acontece sem motivo. Acredito que um dos roteiristas percebeu que o filme estava ficando lento demais, e que seria bom movimentá-lo de algum jeito. Outras cenas de pancadaria e perseguição são tão longas que se tornam banais. A perseguição de carros de 14 minutos é sensacional, tem ângulos impressionantes e termina da maneira mais espetacular possível, mas cansa.

Aqui vai uma observação de cunho bem pessoal. Acredito que cenas de ação funcionam melhor quando deixam o público querendo mais. Em “Reloaded”, achei-as longas demais. Tudo no filme é oversized: os diálogos, as coreografias, as lutas. Os primeiros 45 minutos são chatos. Gasta-se tempo demais apresentando personagens e estabelecendo o enredo básico. O filme leva uma hora para mostrar o previsível encontro entre Neo e o comandante de Zyon (da maneira mais clichês possível: são dois insones) e discutir sobre o futuro da cidade. O discurso de Morpheus beira o ridículo de tão óbvio. A rave que rola depois? Parecia que tinham libertado a Timbalada da Matrix.

O papo filosófico também não funciona como no primeiro. O filme parece ter fugido de Baudrillard/Platão pra ir fincar pé em teorias mais próximas da matemática, da causalidade (causa -> conseqüência, uma coisa que dói de tão óbvia). Só que deveriam ter traduzido o matemaquês para linguagem comum. Quando o longa se aproxima do final, fiquei sem entender direito boa parte dos diálogos. Acho que os roteiristas fizeram isso de propósito: esconderam o vazio de conteúdo do filme atrás de frases ininteligíveis. Algo que também aconteceu com Jean Baudrillard (o inspirador-mor de “Matrix”). Baudrillard foi acusado, por um físico chamado Alan Sokal, de escrever livros que ninguém entende porque não tem nada a dizer.

Bom, mas o tempo me faz dar uma chance a “Matrix Reloaded”. Com a chegada do DVD, percebi que gosto mais do filme do que imaginava. Vi, finalmente, muitos acertos. A última hora de projeção, por exemplo. A ação finalmente engrena, e “Reloaded” fica intrigante e empolgante. Os vôos solitários de Neo são sensacionais. A luta dos 100 agentes Smith contra ele decepciona apenas se for vista de um ponto de vista realista (culpa do marketing, que a vendeu como a primeira vez em que o espectador não conseguiria identificar os dublês digitais; a partir de certo momento, fica óbvio que tem um boneco digital no lugar de Keanu Reeves, porque o rosto não aparenta uma ruga sequer). A coreografia, contudo, é fantástica, maravilhosa, de derrubar queixos mesmo. A perseguição de carros também é de tirar o chapéu.

De resto, sobra a trama, complicada e que promete desenvolvimentos bem intrigantes na terceira parte da trilogia. Não dá para ficar analisando os acontecimentos da meia hora final sem estragar o filme para quem ainda não o viu, mas vai um aviso: prepare-se para ouvir conversas quase ininteligíveis (e aí o DVD apresenta uma vantagem incomparável, já que podemos voltar o filme quantas vezes for necessário até entender tudo). No final, obtemos muitas perguntas e quase nenhuma resposta. “Matrix Reloaded” é um bom filme de ação, que poderia render mais se fosse encurtado e, talvez, fundido ao futuro “Revolutions”. Mas fica longe do revolução cinematográfica do “Matrix” original. Esse sim, merece entrar na história do cinema.

O DVD duplo lançado no Brasil pela Warner mostra como a trilogia, para o bem ou para o mal, vem mudando o conceito e o significado da palavra “cinema”. Há dois documentários significativos para entender essa mudança. O primeiro (9 minutos) mostra porque o assistente de direção dos longas foi escalado pelos Wachowski para fazer os comerciais dos produtos que aparecem em “Reloaded”, como o telefone celular da Samsung que os personagens utilizam para se comunicar. Os irmãos cineastas supervisionaram tudo. Eles queriam que até os comerciais de TV contivessem pequenos inserts da trama e mantivessem, com o longa, uma unidade visual. Ou seja, os comerciais (que estão no DVD) fazem parte da “experiência Matrix”!

Outro featurette (6 minutos) reforça a natureza fragmentada dessa experiência, esclarecendo que, para ser compreendido por inteiro, “Reloaded” obriga o espectador a assistir desenhos animados (os nove episódios de “Animatrix”) e a jogar videogame (o game “Enter The Matrix”, que ganha também um documentário exclusivo de 28 minutos). É o primeiro caso de mídia cruzada (cross media) da história do cinema. Ou seja, o cinema da trilogia “Matrix” comprende filmes, videogame, animações e até comerciais de TV (futuramente, talvez, quadrinhos, livros, álbuns de figurinha…)! Completam o disco um documentário (22 minutos) sobre os bastidores das filmagens, curto mas interessante, e outro (30 minutos) dedicado a explicar como foi feita a seqüência da perseguição na auto-estrada. Uma brincadeira com o filme, feita para a MTV (9 minutos), também é incluída.

Um último detalhe: há duas versões do longa à venda no Brasil. A diferença entre ambas é que uma apresenta as imagens no formato original (widescreen, com a tela mais horizontal) e a outra mutila o corte original dos cineastas para deixar a imagem mais quadrada (fullscreen). Quem encara filmes como arte prefere, em geral, a primeira opção; o espectador comum costuma ficar com a segunda, porque ela preenche melhor a tela da TV que quase todos temos em casa. Preste atenção: no final das contas, ao comprar o DVD, você está decidindo se considera “Matrix Reloaded” como arte ou não. Portanto, escolha com cuidado.

– Matrix Reloaded (EUA, 2003)
Direção: Larry e Andy Wachowski
Elenco: Keanu Reeves, Carrie Anne-Moss, Laurence Fishburne, Hugo Weaving
Duração: 138 minutos
Censura: 12 anos

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