Matrix Revolutions

14/01/2006 | Categoria: Críticas

Capítulo final da trilogia tem cenas espetaculares, mas deixa perguntas sem respostas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Enquanto “Matrix Revolutions” (EUA, 2003) ia se desenrolando na tela à minha frente, eu comecei a me sentir como Neo, no final do capítulo anterior da saga. Quem já assistiu a “Matrix Reloaded” sabe que, em determinado momento, o Arquiteto mostra ao Escolhido duas portas, e pede que ele faça uma escolha. Eu sentia o mesmo dilema. Podia analisar a terceira e última parte da trilogia como um espetáculo cinematográfico isolado, ou podia inseri-la dentro do contexto da trilogia de filmes mais importante dos últimos dez anos. Seriam duas análises bem diferentes.

“Matrix Revolutions” tem a trama dividida em duas linhas básicas de ação. A primeira acompanha a libertação de Neo (Keanu Reeves) do limbo em que fora parar no final de “Reloaded”. O herói acredita, então, que ir até a Cidade das Máquinas é a única maneira de cumprir a profecia do Escolhido. A trama secundária exibe a resistência dos humanos à invasão das máquinas em Zion.

Aqui temos um primeiro problema: a jornada do protagonista, com referências cristãs mais explícitas do que nunca, fica muitas vezes em segundo plano. Coadjuvantes como Niobe (Jada Pinkett Smith) ganham importância fundamental nesse capítulo da trilogia. Aliás, Niobe, como Zee (Nona Gaye), confirma um das poucas tendências que mantém a coerência em “Revolutions”: as mulheres são fortes, decididas e guerreiras no universo Matrix. Trinity (Carrie-Anne Moss), agora temos certeza, não é exceção.

Se preferisse ignorar os dois antecessores do longa-metragem, eu poderia julgar “Matrix Revolutions” por duas das seqüências mais espetaculares do cinema de ação contemporâneo. A invasão das máquinas a Zion é a principal. Quando as furadeiras gigantes começam a rasgar o teto da cidade subterrânea, o espectador não tem idéia de que vai testemunhar 14 minutos de uma dos mais épicas, sombrias e brutais cenas de batalha da história do cinema.

Do mesmo modo, a luta final entre Neo (Keanu Reeves) e o agente Smith (Hugo Weaving) é um momento para fãs de histórias em quadrinhos. Quem leu o clássico “O Cavaleiro das Trevas” vai assistir à cena com um sorriso de satisfação. As referências visuais podem até soar meio manjadas (o duelo de faroeste já havia sido vivido pela mesma dupla no primeiro filme, e o soco no estilo “Touro Indomável” tem sido tão copiado quanto o chute de Trinity no “Matrix” original), mas não importa. A luta retrata bem o que aconteceria se dois super-heróis tivessem que se enfrentar. Essa luta tinha que acontecer mesmo dentro da Matrix.

Bem, mas o filme encerra uma trilogia. Portanto, a porta que eu preciso escolher é aquela que vai me levar a uma reflexão sobre o conjunto dos três filmes. E aí vai a má notícia: “Matrix” não se sustenta como uma obra em três partes. A engenhosa teia de referências (filosofia, religião, kung fu, programação de computadores) organizada pelos irmãos Larry e Andy Wachowski simplesmente perde o sentido, quando avaliada retrospectivamente.

Eu poderia lembrar um grande número de perguntas que a série levanta e, depois, se recusa a (ou esquece de) responder. Mas isso me levaria a um erro primário: eu me afundaria em centenas de detalhes e acabaria gerando uma resenha desnorteada. Em resumo, perderia o foco da trilogia. Exatamente o que parece ter acontecido com os Wachowski. “Matrix”, como obra única, soa como um Boeign 747 desgovernado: pode ser belo, mas não possui norte.

Todo filme parte de uma necessidade dramática. Não há exceção a essa regra. É essa necessidade que gera a ação dos protagonistas; eles devem realizar atividades e superar obstáculos em busca da satisfação desse objetivo. Não perder o foco de trilogia significa manter sempre em mente a necessidade dramática que move os personagens principais (os rebeldes de Zion).

A necessidade dos humanos rebelados, acredito, é a profecia emitida pelo Oráculo (interpretada por Mary Jane em “Revolutions”). A profecia afirma que um humano com poderes especiais, o Escolhido, vai destruir a Matrix e libertar a raça humana. Isso é dito, de forma absolutamente clara, por Morpheus (Laurence Fishburne), numa conversa com Neo, durante o filme de 1999.

Esse, portanto, é o objetivo de Neo, Morheus e Trinity. É, também, o maior dos muitos furos que “Revolutions” deixa no ar. Não vou revelar o final do terceiro capítulo da trilogia, mas posso dizer com segurança que a necessidade dramática dos três filmes é esquecida. Faça o teste: assim que terminar a projeção, pergunte a si mesmo se Neo conseguiu cumprir o objetivo principal da existência dele – tornar verdadeira a profecia do Oráculo.

A resposta a essa questão, pode-se argumentar, não é tão simples. Deve passar por uma série de conceitos filosóficos que foram habilmente inseridos pelos irmãos Wachowski na trilogia. Desde o primeiro filme, a questão do controle foi abordada de diversos pontos de vista – religioso (o Oráculo e o livre-arbítrio), mitológico (as considerações de Morpheus sobre o destino), matemático (as equações obsessivas do Arquiteto), filosófico (a causalidade de Merovingian).

Em tese, a profecia é desmistificada no segundo filme. Ocorre que esse recurso não pode esquecer os instintos básicos dos personagens. Eles são tridimensionais, possuem personalidades. Com ou sem profecia, desejam derrotar a Matrix. No terceiro longa, alguns deles renegam o que eram no primeiro filme. Não consigo imaginar como o Morpheus de 1999 ficaria feliz com o final de “Revolutions”. Mas ele fica.

De certa forma, o terceiro capítulo faz o desfavor de explicitar a fragilidade do segundo filme da série. Em “Reloaded”, os irmãos Wachowski levantaram muitas dúvidas sobre o universo Matrix. Algumas delas: qual a natureza real de Merovingian (seria um dos Escolhidos anteriores)? Por que motivo Neo consegue, de fato, apresentar poderes reais (devidamente expandidos em “Revolutions”)? De que maneira o agente Smith, um programa rebelado que ganhou o poder de se replicar, consegue se infiltrar no mundo real?

O produtor Joel Silver, bem como todos os defensores de “Reloaded”, sempre afirmarou que o filme só poderia ser julgado depois que as pessoas vissem “Revolutions”, pois eles constituiriam uma espécie de filme único. Por isso, vamos ao cinema procurando respostas para as indagações deixadas sem respostas no segundo filme. Infelizmente, essas dúvidas permanecem sem respostas quando “Revolutions” termina.

Obviamente, seria um insulto à inteligência de qualquer pessoa afirmar que “Matrix” é uma trilogia fracassada. O primeiro filme será sempre um clássico irretocável, e o universo criado pelos dois diretores permite que as três obras sejam objetos de leituras feitas em diversos níveis de percepção. Para mim, esse permanece o maior dos méritos da trilogia: a criação desse universo rico, palpável, repleto de nuanças. Um universo construído a partir do cruzamento de múltiplas fontes de referências.

Porém, esse mérito leva também ao defeito maior dos três filmes. É uma enorme ironia, aliás, constatar que um dos conceitos mais fundamentais para a criação da trilogia foi responsável também pela sua derrocada: o controle. Em certo momento do DVD “Matrix Revisited – Os Segredos da Produção”, os irmãos Wachowski afirmam que todas as idéias que já tiveram na vida estão nos filmes da série “Matrix”. Partindo dessa declaração, consigo perceber o erro fatal da dupla. Eles criaram um universo tão imenso que perderam o controle dele.

Esse não foi um erro cometido por J.R.R. Tolkien, por exemplo. Embora tenha criado até mesmo línguas e uma mitologia completa para a sua Terra-Média, Tolkien deixou esses detalhes de fora da trama de “O Senhor dos Anéis”, para não complicar o enredo em excesso. Assim, ele evitou perder o fio da meada. Os Wachowski não perceberam a armadilha e caíram nela.

Em outras palavras, os irmãos gastaram todas as cartas na manga estabelecendo as regras e premissas do tal universo. Eles montaram, com habilidade excepcional, um complexo quebra-cabeças de personagens e situações. No processo, contudo, perderam o controle sobre a própria criação e não souberam como amarrar as dezenas de tramas e subtramas desenvolvidas no enredo dos dois primeiros filmes. Exatamente – grande ironia! – como o Arquiteto da Matrix.

Veja a coincidência: no final de “Revolutions”, a maior ameaça à Matrix não está nos humanos, mas num vírus aparentemente impossível de deter, uma ameaça não prevista pelo Arquiteto. O paralelo entre a Matrix e a trilogia é, portanto, inevitável. Na vida real, o vírus dos irmãos arquitetos da trilogia “Matrix” foi a ambição.

O DVD do filme segue o padrão de megalançamentos. Vem em disco duplo, com as opções de formato widescreen ou fullscreen à escolha do usuário. O disco 2 possui três documentários interessantes, sendo um com entrevistas dos irmãos Wachowski, outro enfocando os efeitos especiais e o terceiro sobfre o jogo online. Trailers e pequenos segmentos completam o pacote.

– Matrix Revolutions (EUA, 2003)
Direção: Larry e Andy Wachowski
Elenco: Keanu Reeves, Hugo Weaving, Carrie Anne-Moss, Laurence Fishburne
Duração: 128 minutos

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