Medo Devora a Alma, O

21/06/2010 | Categoria: Críticas

Melodrama simples e poderoso que aborda com honestidade problemas dos imigrantes na Alemanha

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O ritmo de trabalho febril e incessante do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder se tornou legendário na indústria cinematográfica. Entre 1969 e 1982, quando morreu de overdose de drogas aos 37 anos, Fassbinder finalizou nada menos do que 43 filmes. Em média, ele aprontava um longa-metragem a cada 100 dias, geralmente trabalhando em múltiplas funções – escrevendo o roteiro, dirigindo, atuando e editando. O mais incrível é que a maior parte deste material tinha excelente nível.

“O Medo Devora a Alma” (Angst Essen Seele Auf, Alemanha, 1974) é um ótimo exemplo de como Fassbinder prescindia de boas condições de trabalho para criar grandes filmes. Foi o terceiro título com a assinatura do cineasta a sair no mesmo ano. Teve o roteiro escrito em apenas duas semanas, tornou-se uma das produções mais baratas da carreira dele, e também uma das mais interessantes. Trata-se de um melodrama simples e poderoso que aborda, com honestidade, problemas relacionados aos imigrantes terceiro-mundistas na Alemanha, em especial o preconceito com que os alemães os recebem.

Homossexual assumido, Fassbinder buscou inspiração no relacionamento que mantinha na época com o marroquino El Hedi ben Salem. O amante não conseguia trabalho, e por isso o cineasta decidiu, no intervalo entre duas grandes produções, rascunhar apressadamente um roteiro e transformá-lo em ator. “O Medo Devora a Alma” conta, em linhas gerais, a história do complicado caso de amor entre os dois, com uma única alteração: para não despertar a ira do público ao enfocar uma relação homossexual, numa época em que isto seria um escândalo, Fassbinder substituiu a si mesmo, na história, por um equivalente mais amistoso: uma mulher velha, baixinha e gorda.

Emmi (Brigitte Mira) é uma senhora viúva, de meia-idade, que trabalha como zeladora. Certa noite, ela entra em um bar para fugir da chuva e conhece Ali (El Hedi ben Salem), um operário marroquino. O estabelecimento é devotado aos árabes: tem uma radiola de ficha recheada de canções orientais, serve cuscuz marroquino e funciona como ponto de encontro para a comunidade de imigrantes da região. Ali (o termo não é o verdadeiro nome do rapaz, mas um vocábulo genérico que serve como apelido de qualquer pessoa de origem árabe, algo como “Zé” em português) é um homem amistoso e se oferece para levar Emmi em casa após a chuva passar.

O filme retrata a aproximação dos dois como o encontro de duas almas solitárias, dois representantes de comunidades específicas (os velhos, os imigrantes) que têm dificuldade para se relacionar com a sociedade. Nasce um sentimento entre os dois, mas o filme não se preocupa em defini-la como amor ou qualquer outra coisa; pode ser que eles estejam apenas querendo companhia, carinho e sexo. A partir daí, cada um deles passa a enfrentar problemas de preconceito.

As vizinhas de Emmi a evitam e fofocam sobre ela (“com este sobrenome, acho que ela não é alemã de origem”, comenta uma delas), o quitandeiro da esquina a serve com rudeza, os filhos param de falar com a mãe. Os amigos de Ali também não entendem como ele pode se apaixonar por uma mulher tão feia e velha. Nem uma única pessoa, no meio de convivência do casal, compreende a relação. Daí vêem os inevitáveis conflitos internos: eles devem enfrentar tudo e todos para ficar juntos? Ou é melhor abdicar do companheiro e volta a ser aceito pelos respectivos círculos de parentes e amigos?

A abordagem de Fassbinder é simples e direta, e ele desenha as situações com firmeza e objetividade, indo direto ao ponto. Cada cena tem grande intensidade dramática, o que transforma o filme como um todo em um melodrama vigoroso. O visual – cores fortes e básicas, com muito azul, amarelo e vermelho – reflete visualmente essa abordagem direta, como se toda a história estivesse sendo escrita com canetas de hidrocor, em fortes tons saturados. Há cenas maravilhosas, como o momento em que Emmi conta aos filhos adultos que vai se casar com Ali – um dos rapazes, com raiva, levanta-se e chuta a televisão, fazendo uma referência velada a outro melodrama sobre preconceito, “Tudo o que o Céu Permite”, do dinamarquês Douglas Sirk, grande ídolo de Fassbinder.

Como nos melhores melodramas, todos os personagens fora a dupla central são apenas rascunhos, existindo com a mera intenção de preencher papéis específicos exigidos pelo roteiro – a garçonete loira do bar, o dono da mercearia, as colegas zeladoras, os mecânicos. Eles entram e saem de cena rapidamente, e isso permite que o espectador enfoque apenas Emmi e Ali, e o tema que Fassbinder deseja: a dificuldade que todos enfrentamos para vencer determinadas imposições sociais, baseadas em preconceitos, em nome de qualquer coisa que se pareça com amor.

Embora reflita um período específico na história da Alemanha, o filme possui um charme universal, continua a possuir ressonância, e não apenas dentro do país europeu. Praticamente todas as grandes nações da Europa possuem comunidades terceiro-mundistas vivendo em seus intestinos; os argelinos lotam os subúrbios da França, os paquistaneses e indianos vivem em moquifos na Inglaterra (no Brasil, pense nos descendentes de africanos e ex-escravos). Desta forma, “O Medo Devora a Alma” pode ser considerado um filme-irmão de “Caché”, de Michael Haneke, e “Minha Adorável Lavanderia”, de Stephen Frears, que também abordam a questão do preconceito em, respectivamente, França e Inglaterra.

O longa saiu no Brasil em DVD pela Paragon Multimídia, em disco simples e sem extras. A qualidade é OK, com enquadramento correto (fullscreen 1.33:1) e som em quatro canais (Dolby Digital 2.0).

– O Medo Devora a Alma (Angst Essen Seele Auf, Alemanha, 1974)
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Brigitte Mira, El Hedi ben Salem, Barbara Valentin
Duração: 93 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


3 comentários
Comente! »