Medo

13/08/2007 | Categoria: Críticas

Filme coreano se esmera em criar história complexa de fantasmas com atmosfera arrepiante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Há uma cena, mais ou menos na metade de “Medo” (A Tale of Two Sisters, Coréia do Sul, 2003), que mostra uma conversa trivial entre um homem e uma mulher. Durante o papo, uma das pessoas revela ter visto uma cena estranha poucos minutos antes. O diretor Kim Ji-woon faz então um corte súbito e retorna à cena já exibida, mostrando uma tomada que já conhecemos, agora de uma maneira completamente diferente. É um baita susto, um arrepio de medo genuíno que poucos filmes conseguem pregar num espectador. Só por essa brilhante conjunção de montagem e roteiro, “Medo” já valeria a pena.

Só que as virtudes do filme, um dos melhores exemplares do melhor horror asiático, vão muito além dessa cena assustadora. “Medo” (tradução monossilábica para a expressão que literalmente significa “Um Conto de Duas Irmãs”) é um filme de suspense sobrenatural que se preocupa com os personagens e se esmera em reproduzir, em detalhes, a atmosfera de medo e confusão que as duas pequenas protagonistas experimentam. Elas são irmãs retornando ao lar, depois de um tempo internadas em uma instituição para doentes mentais, devido ao trauma da morte da mãe. O diretor Kim Ji-woon narra a história de modo a fazer o espectador sentir a mesma sensação de desconforto e incompreensão que as garotinhas.

Uma vez na casa, uma mansão afastada de centros urbanos, com cômodos úmidos e escuros e à beira de um lago, as duas crianças (interpretadas por Lim Soo-jeong e Mun Geun-yeong) passam a ser vítimas de abusos, por parte da madastra (Yum Jung-ah). Ora afável, ora histérica e ameaçadora, a mulher assusta as pequenas, que ainda por cima são obrigadas a confrontar um fantasma que cria aparições surpreendentes e gera pesadelos horríveis nas meninas. Pior: elas precisam lidar com a situação sozinhas, pois o pai (Kim Kap-su) é um homem entristecido e ausente.

A primeira metade de “Medo” estabelece o clima soturno e, ao mesmo tempo, melancólico da história. Como as duas crianças estão chegando de um sanatório, o espectador passa a desconfiar que as assombrações possam ser uma ilusão causada pelo trauma. Não podemos esquecer que as duas perderam a mãe. A partir do arrepiante acontecimento descrito no primeiro parágrafo, as coisas se complicam, e o enredo segue por um caminho surpreendente. O final do filme dá um nó de vez na cabeça de quem não estiver prestando muita atenção.

Além de contar uma história intrigante de forma muito bem dosada, com sustos e reviravoltas aparecendo nos momentos certos, Kim Ji-woon também se revela um estilista, um cineasta preocupado em entregar um filme visualmente belíssimo, com excelente uso de cores (o filme privilegia tonalidades vermelhas e verdes, mas sempre dentro de uma paleta vibrante, de texturas profundas) e composições visuais cuidadosas. O resultado é superior inclusive às produções mais interessantes dedicadas ao tema do sobrenatural e oriundas do Japão, o que não deixa de ser uma boa surpresa, uma vez que o país do sol nascente tem se firmado como maior celeiro de bons filmes de horror da atualidade.

O DVD de locação da Europa Filmes é de boa qualidade. O enquadramento correto (wide anamórfico) foi preservado, e há trilha de áudio em cinco canais (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, um making of, trailer e entrevistas com a equipe. O DVD para venda direta é duplo e tem também dois comentários em áudio, cenas cortadas e entrevistas com a equipe.

– Medo (A Tale of Two Sisters, Coréia do Sul, 2003)
Direção: Kim Ji-woon
Elenco: Kim Kap-su, Lim Soo-jeong, Mun Geun-yeong, Yum Jung-ah
Duração: 115 minutos

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