Meet the Feebles

12/06/2008 | Categoria: Críticas

Filme trash de Peter Jackson parodia “Os Muppets”, mostrando bonecos fofinhos que se entregam a práticas completamente depravadas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Os criadores da série “South Park” são reconhecidos como cineastas criativos, que apostaram num cinema completamente trash – quanto mais tosco melhor – para fazer comédia de humor negro da melhor qualidade. É difícil discutir esta afirmação. O que pouca gente sabe é que Matt Stone e Trey Parker não são pioneiros nesta estética vagabunda. O grande clássico nesta área é o pouco conhecido “Meet the Feebles” (Nova Zelândia, 1989), escrachada animação com bonecos escrita, produzida e dirigida, quase sem nenhum orçamento, pelo neozelandês Peter Jackson, mais de uma década antes de ele se transformar em um dos mais respeitados diretores do planeta com a trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001-2003). O filme se tornou cult e é adorado por uma legião de cinéfilos ao redor do mundo.

A comédia debochada de Jackson é uma produção bastante singular e extremamente original. Foi feita de forma 100% independente, com câmeras amadoras de 16mm (por isso o formato 4:3, mais quadrado do que o normal), e praticamente sem orçamento. Jackson usou muito papelão, tecido, espuma de colchão e criatividade para construir cenários tosquíssimos e uma galeria impagável de personagens, criando um verdadeiro show de bizarrices. O filme parodia o seriado infantil “Os Muppets”, mostrando os bonecos fofinhos em formato de animais como integrantes de um grupo teatral que, nos bastidores, se entrega a práticas completamente depravadas. Nos intervalos dos ensaios para o espetáculo do grupo pode-se ver de tudo: sexo explícito, consumo e tráfico de drogas, ultraviolência e escatologia. Você consegue imaginar algo que seja tabu? Pois tenha certeza de que está no filme.

Ao conceber “Meet the Feebles”, Jackson já tinha uma carreira estável como cineasta independente. Ele fazia filmes de horror classe Z, esbanjando humor e criatividade, sem medo de chocar. Para este filme, Jackson partiu de uma idéia muito simples: fazer uma espécie de documentário dos bastidores de um show dos Muppets. Como não podia utilizar os bichinhos fofinhos da série de TV, por questões de direitos autorais, ele criou bonequinhos muito semelhantes e foi em frente. Acabou inventando uma espécie de antepassado pré-histórico de “Team America” (2004), o elogiado filme de marionetes dos diretores de “South Park”. A diferença é que, sem as rédeas de um estúdio, Jackson pode levar sua história a extremos de sexo, drogas e violência nunca antes vistos no cinema comercial.

A grande sacada de Peter Jackson é partir do conceito de que a maior parte dos artistas do show business é chegada a uma depravação. Com isso em mente, ele criou uma galeria inesquecível de personagens ultrajantes. Há um coelho doente de AIDS cheio de pústulas, uma hipopótamo com bulimia, um leão-marinho que fuma charuto, trafica drogas e alicia atrizes novatas para fazer sexo oral e anal nos camarins, e uma mosca paparazzi que se esconde dentro de privadas e se alimenta, literalmente, de merda. O assistente do produtor, um rato, faz filmes pornôs nos intervalos dos ensaios. E o diretor do show protagoniza um inacreditável número musical sobre as delícias da sodomia. Tudo isso sem economizar em imagens chocantes, piadas nojentas e excessos de todo tipo. Cinéfilos de estômago fraco devem manter distância.

Por outro lado, a produção tosca já demonstra o talento de Peter Jackson para criar histórias com muitos personagens e tramas paralelas. Neste aspecto, “Meet the Feebles” soa como um ensaio para a trilogia que fez a fama do cineasta. Ao todo, 22 personagens ganham espaço na trama, que entrelaça oito linhas narrativas diferentes (uma das mais engraçadas envolve as estratégias de espionagem da mosca paparazzi para descobrir segredos dos atores do show). Jackson, que também escreveu o roteiro, exibe muita segurança na condução da história, intercalando as subtramas com fluidez, e culminando com um clímax incrivelmente sangrento e hilariante.

O filme nunca foi lançado no Brasil em qualquer formato. Encontrá-lo em DVD, mesmo no exterior, não é tarefa das mais fáceis. Há três versões mais populares, todas semelhantes, contendo apenas o filme, sem qualquer extra. O longa tem imagem razoável (1.33:1, tela cheia) e áudio idem (Dolby Digital 2.0).

– Meet the Feebles (Nova Zelândia, 1989)
Direção: Peter Jackson
Animação com bonecos
Duração: 94 minutos

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