Melhor É Impossível

01/04/2005 | Categoria: Críticas

Comédia sensível sobre escritor neurótico e garçonete é boa história sobre gente comum

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Há quem tenha histórias fantásticas, que se passam em lagos, com barcos, amigos e salada de macarrão. Não é o nosso caso”. Ao dizer essas palavras, Jack Nicholson está sentado no banco de trás de um conversível, tentando interromper uma delicada conversa que o vizinho gay e a mulher em quem está interessado travam, sentados nos bancos da frente. O bate-papo é muito importante para Greg Kinnear, o vizinho, um homem simpático e sofrido. Por isso, os dois ficam irritados com a interrupção. Nós, a platéia, também ficamos. Na verdade, alguns de nós achamos o personagem de Nicholson tão chato, tão mala, que não prestamos atenção na frase. A sentença é o momento definidor de “Melhor É Impossível” (As Good as it Gets, EUA, 1997), a excelente comédia do diretor James L. Brooks.

Na verdade, a oração vai mais além. Talvez seja a frase que define toda a obra do cineasta, alguém que corre na contramão da indústria cinematográfica e que, por isso, jamais conseguiu verdadeira notoriedade, embora provavelmente isso seja algo que não lhe interesse muito. As histórias que os grandes estúdios de Hollywood escolhe para contar, em sua esmagadora maioria, são exatamente aquelas histórias com lagos, barcos, amigos e salada de macarrão – as histórias vencedoras. As pequenas histórias, de gente como a gente, não chegam às telas. São histórias de pessoas que têm problemas em pagar o aluguel, acordam cedo para pegar o ônibus e levam mordidas de cachorros.

Pode-se dizer que o fio condutor da obra de James L. Brooks (que fez “Laços de Ternura”, também com Nicholson) é esse: os encontros e desencontros de gente comum, que não têm nada de extraordinário. Pessoas com quem esbarramos todo dia, tão rotineiramente que nem lhes damos mais importância. Ao tratar essa turma de derrotados com delicadeza, dar-lhes uma voz, o diretor se solidariza com eles. De quebra, narra histórias humanas, emocionantes, vivas, em filmes simpáticos que têm um senso de humor carinhoso e sutil. Não há ironia em “Melhor É Impossível”. Não se trata de uma sátira ou de um pastelão, mas de um drama humano, cuja comédia vem das dificuldades cotidianas dos personagens. Sabe aquela frase famosa, “estou rindo para não chorar”? É mais ou menos o caso.

O escritor Melvin Udall é um desses caras. Ele é um homem solitário que sofre de um distúrbio neurótico, um problema que o isola ainda mais e o transforma em um sujeito mau-humorado, sarcástico e, às vezes, simplesmente grosseiro; em resumo, um mala clássico. Machista e preconceituoso, Melvin é obrigado a rever seus conceitos depois que passa a cuidar, contra a vontade, do cachorro de um vizinho acidentado, o artista plástico Simon Bishop (Greg Kinnear). Ao mesmo tempo, Melvin faz amizade e se sente atraído pela garçonete Carol Connelly (Helen Hunt), uma mulher divorciada que tem um filho doente.

O roteiro do longa-metragem, também escrito pelo diretor, é engraçado, sensível e muitas vezes imprevisível, apesar de um pouco longo. Os personagens são ricos. E os diálogos, excelentes, deixam espaço para que os atores pintem e bordem. Dessa forma, atores apenas medianos oferecem performances cheias de energia e carisma. É o caso da mediana Hunt, que constrói uma Carol simpática e frágil, apesar da “casca” durona – o papel lhe deu o Oscar de melhor atriz em 1998. Também Kinnear, um comediante que até então só conseguia papeia afetados, mostra sutileza no papel de Simon.

Se gente do segundo escalão consegue desempenhos tão bons, o que dizer de um veterano de talento tantas vezes comprovado, como Jack Nicholson? Claro que Nicholson arrasa, adaptando seus persona cinematográfica favorita (o sujeito meio maluco, que interpreta com perícia desde o clássico hippie “Sem Destino”). Não é preciso dizer muita coisa, apenas relatar que Nicholson faturou seu terceiro troféu dourado na festa da Academia de Hollywood (o segundo na categoria principal dos atores) com sobras, coroando um filme simpático e, porque não dizer, tremendamente otimista, capaz de elevar a moral de muito espectador.

O DVD da Columbia é muito simples, e tem apenas o básico: o filme com o corte original, widescreen, na proporção 1.85:1, e som Dolby Digital 5.1. Um comentário em áudio do diretor, não legendado, é o único extra disponível.

- Melhor É Impossível (As Good as it Gets, EUA, 1997)
Direção: James L. Brooks
Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr.
Duração: 138 minutos

| Mais

GOSTOU DO FILME? DÊ SUA NOTA

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (11 votos. Média de 4,36 em 5)
Loading ... Loading ...


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »

  1. Melhor crítica que encontrei sobre o filme: http://t.co/x3vRyi2k

Deixar comentário