Melinda e Melinda

03/10/2005 | Categoria: Críticas

Woody Allen funde teatro grego e pós-modernismo em filme coeso, inteligente e curioso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Woody Allen sempre teve uma queda para a dramaturgia clássica grega. Idéias típicas do teatro feito no país europeu há três mil anos atrás formaram o estofo de “Poderosa Afrodite” (1995), filme que tinha até mesmo um coro ambientado em anfiteatro. Talvez seja com “Melinda e Melinda” (Melinda and Melinda, EUA, 2004), no entanto, que o diretor e roteirista atinge o objetivo de infiltrar um formato mais próximo do teatro grego dentro de um filme. Mais interessante ainda é que Woody Allen consegue fazer isso flertando também com uma idéia tipicamente pós-moderna (e, portanto, diametralmente oposta), que é a Teoria do Caos. Ou seja, Allen junta Aristóteles e Jean Baudrillard em um filme coeso e inteligente, mas com resultado no mínimo curioso.

Sem assistir ao filme, um espectador que ler essa descrição pode achar que “Melinda e Melinda” é um samba do crioulo doido, ou mesmo que o filme finalmente foge da habitual reciclagem de clichês que o cineasta promove a cada novo projeto. Nem uma coisa nem outra. “Melinda e Melinda” traz o Woody Allen de sempre, com trama ambientada nos cenários chiques e românticos de Nova York, personagens pertencentes à fauna artístico-intelectual da cidade, trilha sonora pontuada por canções de jazz. A diferença é que, dessa vez, Woody conseguiu comprimir duas tramas dentro de um único filme, utilizando um expediente que roubado do diretor francês Alain Resnais.

Quem assistiu aos obscuros “Smoking/No Smoking”, longas que Resnais fez para serem assistidos de uma vez só, vai reconhecer a mesma idéia no projeto de Woody Allen. Os filmes de Resnais tinham a mesma cena de abertura. No final dela, a protagonista tinha que tomar uma decisão: fumar ou não um cigarro. No primeiro filme, ela fuma. No segundo, não. A decisão faz com que tramas diferentes se desenrolem, resultando em dois filmes completamente opostos.

A mesma idéia já foi utilizada em outras produções, a exemplo do alemão “Corra Lola Corra” e do norte-americano “Mais Que o Acaso”. Ela flerta com o que os teóricos pós-modernos chamam de Teoria do Caos. A Teoria do Caos destaca a importância do acaso no rumo da vida de qualquer pessoa, afirmando que pequenos incidentes, ou tomadas de decisões, influenciam para realizar pequenas alterações na rotina que vão se amontoando e tornando qualquer existência impossível de prever.

“Melinda e Melinda” começa com dois casais conversando em um restaurante de Manhattan. A discussão, travada entre dois dramaturgos e acompanhada pelos respectivos cônjuges, gira em torno de qual gênero dramático tem mais relação com a vida real, se a comédia ou a tragédia. Como esbarram em um impasse, os dois resolvem a parada com uma aposta: criam duas tramas distintas para um mesmo personagem, utilizando o mesmo ponto de partida. O personagem é Melinda (Radha Mitchell), e o ponto de partida é a chegada da mulher, interrompendo um jantar entre dois casais de amigos.

No filme, as duas histórias vão acontecendo em paralelo. Mas atenção: apesar do mesmo ponto de partida e do mesmo perfil da personagem principal, as duas tramas de “Melinda e Melinda” não são iguais, e nem mesmo os coadjuvantes são os mesmos. As duas histórias compartilham elementos aqui e acolá (uma antiga “lâmpada mágica”, uma visita da protagonista ao hipódromo), mas não narram estritamente os mesmos fatos.

Da mesma forma, Woody Allen foi inteligente o bastante para não confinar a comédia dentro de uma narrativa e a tragédia na outra. Os gêneros se combinam e entrelaçam. Há elementos cômicos na história supostamente dramática, e há cenas mais densas dentro da parte engraçada. Na verdade, o cineasta defende uma tese, que está explícita na frase utilizada para emoldurar os pôsteres do filme: a vida pode ser comédia ou tragédia, e tudo depende apenas do ponto de vista de quem observa.

É interessante observar que o elenco da parte cômica parece mais à vontade na frente das câmeras, com destaque para Will Ferrell, no papel do marido de uma diretora de cinema que se apaixona por Melinda. Ferrell é o alter ego de Woody Allen no filme, e exibe os cacoetes típicos que o diretor e roteirista mostraria, se estivesse no elenco. Só que o ator funciona com um tempo diferente, mais tranqüilo e menos neurótico. Por outro lado, defende uma história que Woody Allen já contou muitas outras vezes: a saga de um homem apaixonado que tenta chamar a atenção de seu objeto de desejo. Esta elege o apaixonado sujeito como confidente e lhe informa sobre seus pretendentes, sem ter idéia de que está lhe partindo o coração.

A parte cômica de “Melinda e Melinda” tem seu ponto fraco nessa variação da mesma história, mas Allen a repete com algum frescor e senso de humor mais contido do que o habitual. Há, também, uma diferença grande de ponto de vista, pois a contraparte dramática traz Melinda como a (óbvia) protagonista, enquanto na parte cômica o personagem principal é na verdade Hobie (Ferrell), e Melinda vira coadjuvante de luxo.

O filme é curto e eficiente, além de muito superior ao chatinho “Igual a Tudo na Vida”, projeto anterior do diretor. Além do mais, termina com dois finais (talvez um pouco apressados) que soam completamente integrados às duas narrativas, como se nenhuma das duas histórias pudesse terminar de outra maneira. Não, não são finais previsíveis – são apenas adequados. E isso é muito bom.

O lançamento em DVD no BRasil é da Fox. O disco é frugal, contando apenas com o filme. O áudio é Dolby Digital 5.1 (há dublagem em português). A imagem preserva o enquadramento original (widescreen 16×9).

– Melinda e Melinda (Melinda and Melinda, EUA, 2004)
Direção: Woody Allen
Elenco: Radha Mitchell, Will Ferrell, Chlöe Sevigny, Chiwetel Ejiofor
Duração: 100 minutos

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