Menina de Ouro

10/01/2006 | Categoria: Críticas

Clint Eastwood filma drama humano com delicadeza, profundidade e senso de mistério perfeito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Filmes sobre boxe são um verdadeiro desafio para o cineasta que tem audácia suficiente para fazê-los. “Touro Indomável”, que Martin Scorsese dirigiu em 1980, é um paradigma fundamental para o gênero, porque é uma obra-prima incontestável. Depois dele, diretores de primeiro time sempre tiveram dificuldade de lidar com o assunto. O que dizer de um filme cujo protagonista é não apenas um boxeador, mas também uma mulher? Por causa dessa caracterização improvável, muita gente não dá um tostão furado por “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby, EUA, 2004), o 25º trabalho dirigido por Clint Eastwood. Ocorre que o ouro da menina de Eastwood, com o perdão do trocadilho, é de 24 quilates – ou seja, é ouro puro, de alta qualidade, um lindo tratado cinematográfico sobre culpa e amizade, um drama humano feito com delicadeza e profundidade.

Para começar, “Menina de Ouro” não é realmente um filme sobre boxe. Maggie Fitzgerald (Hilary Swank) não é uma boxeadora, mas uma garçonete caipira cujo sonho é se tornar uma lutadora de boa qualidade. Ela aborda um veterano treinador, Frankie (Eastwood), e lhe pergunta quais as chances de ser treinada por ele. “Não treino garotas”, responde ele, secamente. Vira as costas, vai embora, e nem pensa mais nisso. Mas Maggie não desiste. Matricula-se até a academia de fundo de quintal erguida por Frankie, chamada Hit Pit (algo como “Bocada da Porrada”), paga seis meses adiantados, e começa a esmurrar sacos de areia durante horas a fio.

Maggie é um exemplo de determinação que Frankie demora a enxergar, porque está envolvido em problemas com um lutador que pode brigar pelo título mundial. Willie (Mike Colter) tem talento, mas Frankie insiste que ele precisa de mais experiência para ganhar o cinturão, o que leva Willie a abandoná-lo. De qualquer forma, o treinador não se sente à vontade com Maggie sob nenhuma circunstância, e tem muitas razões para isso.

Para começar, ele é compreensivelmente machista, um sujeito para quem o boxe deveria ser proibido para garotas. Em segundo lugar, Frankie tem uma mancha no passado: uma filha que se recusa a falar com ele há vários anos, por algum motivo que o filme jamais explica, mas que lhe leva a ir à missa diariamente (“Você deve ter feito algo muito sério”, diz o padre da igreja que Frankie freqüenta). Um espectador atento pode fazer aqui uma relação interessante e muito rica: Frankie hesita em se relacionar com Maggie, em um nível subconsciente, por um sentimento de culpa relacionado ao problema com a filha.

Seguindo o ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, Maggie insiste tanto que Frankie acaba aceitando treiná-la, com a condição de que ela passe às mãos de um empresário assim que atingir nível profissional, o que ele estima que irá ocorrer em quatro anos. É o início de uma grande amizade, e um dos muitos momentos emocionantes que “Menina de Ouro” oferece. Este é o tipo de filme sobre o qual comentar pouco, o mínimo possível, é algo que favorece o espectador. “Menina de Ouro” segue rumos completamente inesperados, e entrega à platéia lições comoventes sobre determinação, amizade e força de vontade.

O roteiro de Paul Haggis é uma verdadeira mina de ouro. O texto ensina muito à platéia recusando-se, ao mesmo tempo, a entregar esses ensinamentos já mastigados. A hesitação de Frankie em permitir que seus pupilos enfrentem oponentes de grande qualidade, por exemplo, pode ter raiz na amizade duradoura entre o treinador e Scrap (Morgan Freeman), um ex-lutador que cuida da academia e narra o filme. “Menina de Ouro” jamais faz nenhum comentário ou observação sobre a relação entre as duas coisas (esse é um comentário meu), mas o espectador atento vai traçar essas relações, que revelam muito sobre as personalidades dos personagens. O filme está cheio desses pequenos detalhes, que enriquecem o enredo, dão profundidade aos personagens e envolvem a platéia de forma ativa na interpretação do longa-metragem. Quantos filmes são capazes de fazer isso?

“Menina de Ouro” também é um filme de atores. Hilary Swank, que ganhou o Oscar em 1999, mostra que é uma atriz extraordinária. Observe como sua técnica no boxe melhora, no decorrer das lutas que o longa-metragem mostra. Repare no sotaque caipira perfeito. Preste atenção, sobretudo, no olhar determinado, quase sem piscar, que ilustra a força interior da sua personagem. Maggie é uma mulher fascinante, que Clint Eastwood descortina aos poucos e nunca desnuda totalmente. O senso de mistério que o diretor sabe imprimir a seus personagens (Frankie e Scrap também têm sua cota de mistérios, como já observado antes) é simplesmente impecável, perfeito. Não sabemos demais e nem de menos sobre eles. Sabemos na medida exata.

Uma detalhe magistral no filme é o modo como Eastwood trabalha os personagens secundários (à exceção de Scrap). Todos são superficiais e previsíveis, e o filme não tenta aprofundar nenhum deles. É algo absolutamente intencional. Eles são construídos como arquétipos do melodrama, e dessa forma o cineasta economiza tempo de projeção para trabalhar melhor o cerne do filme, que é a relação muito humana entre mentor e aprendiz, um tema milenar. Não se pode esquecer que “Menina de Ouro” é um melodrama assumido. E, por definição, o melodrama é um gênero que trabalha com o exagero de certos aspectos dramáticos que, na vida real, dificilmente aconteceriam. “Menina de Ouro” não tenta reproduzir a realidade com rigor. Quer ser cinema, bom cinema. Só isso.

O filme caminha tranqüilo, tem seu próprio ritmo, e uma estrutura narrativa sólida que jamais permite momentos bobos. “Menina de Ouro” exige atenção completa do espectador, pois até mesmo pequenas cenas de transição podem ocultar momentos que vão ter repercussão mais à frente da narrativa. Mas, claro, há as seqüências genuinamente emocionantes. Em determinado momento, após visitar a mãe hostil, Maggie está no carro com Frankie, e se queixa de solidão. “Não tenho ninguém além de você, Frankie”, Maggie se permite dizer. “Você tem a mim. Até que apareça um bom empresário, é claro”, brinca o velho treinador. Este é um diálogo que celebra a verdadeira amizade. Como não se emocionar com essas coisas?

O fato é que “Menina de Ouro” dá seqüência a uma grande fase do Clint Eastwood diretor, uma fase que já nos deu o fabuloso “Sobre Meninos e Lobos”, um dos melhores longas lançados em 2003. Para seu filme sobre boxe, Eastwood também compôs a trilha sonora (discreta e belíssima, toda acústica), produziu e atuou. “Menina de Ouro” acabou saudado pelos críticos dos EUA como o melhor filme de Clint. É difícil afirmar isso com convicção, pois o diretor tem outras grandes obras capazes de rivalizar com este filme (“As Pontes de Madison”, “Os Imperdoáveis”). Mas não há dúvida de que “Menina de Ouro” é obra de um diretor sensível, um autor genuíno e um dos grandes conhecedores da psique humana a freqüentar Hollywood.

No mercado nacional, existem dois DVDs da Europa Filmes com a produção. A versão para locação é horrível, com cortes laterais na imagem para formatá-la à proporção 4×3 das TVs comuns, o que elimina os enquadramentos elegantes da bela fotografia. Há trilha de áudio Dolby Digital 5.1 (em português é DD 2.0), mas nada de extras.

O outro disco é duplo e feito para colecionadores. Esse vale a pena, ainda que vacile no formato de tela, fazendo um disco wide anamórfico com cortes laterais (está em 1.85:1, ao invés do 2.40:1 original). O som é OK (DD 5.1) e há um disco só de extras. É mais de uma hora de material caprichado, incluindo um bom documentário de bastidores das filmagens (18 minutos), outro excelente dissecando pré-produção e o roteiro (13 minutos), e uma mesa redonda razoável com Eastwood, Freeman e Swank (25 minutos). Tem ainda o trailer obrigatório, cenas não editadas de bastidores (21 minutos) e três galerias de entrevistas triviais, com Eastwood (6 minutos), Freeman (3 minutos) e Swank (6 minutos), além do trailer obrigatório. Todo o material tem legendas em português.

– Menina de Ouro (Million Dollar Baby, EUA, 2004)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Hilary Swank, Clint Eastwood, Morgan Freeman, Margo Martindale
Duração: 133 minutos

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