Menina dos Olhos

08/03/2005 | Categoria: Críticas

Kevin Smith tenta repetir ‘Procura-se Amy’ e entrega filme fraco e pouco inspirado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Menina dos Olhos” (Jersey Girl, EUA, 2004) serve como prova definitiva de que o cineasta, escritor de quadrinhos e fábrica ambulante de cultura pop Kevin Smith não é o maior cronista da geração jovem dos anos 1990. É uma pena dizer isso, pois Smith produziu um dos filmes mais inteligentes e engraçados que retratam o período, “Procura-se Amy”. Mas ele jamais conseguiu igualar o frescor e a espontaneidade daquele filme. Nem quando se esforçou conscientemente para isso, como parece ser o caso aqui.

“Menina dos Olhos” é uma tentativa óbvia de retomar o mesmo tema – a chegada tardia da vida adulta para um homem que se comporta como menino – de “Procura-se Amy”. Um publicitário, Ollie Trinke (Ben Affleck), é obrigado a criar sozinho a filha, Gertie (Raquel Castro), porque a esposa Gertrude (Jennifer Lopez) morre durante o parto. O filme joga o foco na dificuldade de Ollie para conciliar uma profissão egoísta e exigente com as demandas de uma criança pequena.

O enredo é um campo fértil para observações sarcásticas e agudas sobre o estilo de vida dos anos 1990. Basta dar uma olhada em “Procura-se Amy” para perceber a similaridade evidente. No primeiro, Kevin Smith tentava se posicionar diante do dilema de ser um sujeito de formação católica e conservadora tentando se adaptar a um meio de sexualidade liberal. Neste caso, Smith tenta fazer o mesmo, trocando o foco da vida sexual para a vida profissional de sua geração. Só que não alcança o sucesso logrado anteriormente.

Algumas pessoas poderiam dizer que Kevin Smith virou um mala sem alça. Não seria 100% mentira. Ele envelheceu, e as suas piadas também. Além disso, toda a estrutura narrativa de “Menina dos Olhos” é uma cópia descarada de produções hollywoodianas que empestam os cinemas. Temos então um protagonista ególatra, maníaco por trabalho, que se vê obrigado pelas circunstâncias a se voltar para valores mais íntimos. Daí, com uma providencial ajuda de um par romântico (a balconista de locadora Maya, interpretada por Liv Tyler), descobre os prazeres idílicos da vida familiar.

Tudo isso soa para você como um retrato realista da juventude dos anos 1990? Creio que não. Na tentativa de criar um filme de temática mais adulta, Smith conseguiu provar apenas que perdeu a conexão quase mágica que tinha com a sua própria geração. Claro que há bons momentos no longa-metragem (a cena em que Ollie pega Gertie e um amiguinho exibindo as respectivas genitálias um para o outro é excelente), mas eles são apenas produtos de um roteirista capaz de criar boas piadas. Só que essa seqüências estão mais raras e, o que é pior, repetitivas.

Esses problemas pioram a situação porque deixam ainda mais evidentes as claras limitações de Smith como cineasta. Ele é um diretor ancorado na palavra, nos diálogos, e é apenas através delas que consegue dar ritmo ao filme. A fotografia banal e pouco criativa e as elipses de tempo enfadonhas (abusando de clipes musicais) depõem contra o filme. “Procura-se Amy” era assim, mas os diálogos deliciosos mascaravam bem essas limitações técnicas. Quando as palavras falham, Kevin não tem onde buscar qualidades. Por isso, naufraga.

De qualquer modo, por conter referências abundantes ao universo criado por si mesmo (brincadeiras com “Star Wars”, aparições de atores e personagens dos filmes anteriores – não, Jay e Silent Bob não aparecem dessa vez), “Menina dos Olhos” tem elementos suficientes para atrair a platéia aos cinemas. E a sacada de usar o astro Will Smith no papel de si próprio, em uma cena crucial, também é muito boa. Ele ofusca completamente os parcos recursos interpretativos de Affleck e garante boas gargalhadas.

Em DVD, o filme chega com poucos recursos extras, como galeria de fotos. O som é Dolby Digital 5.1, mas a imagem tem cortes laterais e está em tela cheia. De certa forma isso não faz grande diferença em um filme de Kevin Smith, cineasta pouco técnico e que evita enquadramentos mais elaborados de câmera.

– Menina dos Olhos (Jersey Girl, EUA, 2004)
Direção: Kevin Smith
Elenco: Ben Affleck, Liv Tyler, Raquel Castro, George Carlin
Duração: 102 minutos

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