Menina Santa, A

06/03/2008 | Categoria: Críticas

No segundo filme da carreira, Lucrecia Martel aborda sexualidade e adolescência em trabalho desconcertante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O cinema da diretora argentina Lucrecia Martel é, em grande parte, dedicado a decifrar os segredos, as armadilhas, as sutilezas do corpo humano. A própria cineasta admite abertamente este interesse. Observando-se sobre este aspecto, a jornada íntima da protagonista de “A Menina Santa” (La Niña Santa, Argentina/Espanha/Itália, 2004) ganha todo um novo significado, já que se trata de uma adolescente, na casa dos 16 anos, que precisa lidar simultaneamente com o despertar da sexualidade e com uma rígida e castradora educação religiosa. Em seu segundo filme, Martel insere esta problemática num desconcertante longa-metragem, cujo impressionante rigor formal deixa evidente a originalidade da abordagem da diretora.

Produzido por Pedro Almodóvar, “A Menina Santa” é o segundo trabalho assinado por Lucrecia Martel. Depois de chamar a atenção da comunidade cinematográfica internacional pelo impecável trabalho cênico desenvolvido em “O Pântano” (2001), a diretora demonstra maturidade e talento. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2004, foi bem recebido pela crítica, mas saiu do festival sem nenhum prêmio importante. Trata-se de um daqueles trabalhos que não cabem dentro de rótulos ou gêneros. Consegue, ainda, a proeza de se aproximar e ao mesmo tempo se afastar do cinema argentino contemporâneo, sempre tão elogiado. A abordagem de Martel é minimalista, sutil e de índole naturalista, como quase todo bom cinema feito pelos conterrâneos, mas possui bem mais complexidade e sutileza.

O enredo constrói com delicadeza um triângulo amoroso dos mais inusitados, entre a dona de um hotel (Mercedes Morán), a jovem filha dela (María Alche) e um tímido médico que está hospedado lá para participar de um congresso (Carlos Belloso). A mulher se sente atraída pelo otorrinolaringologista caladão, sem saber o sujeito se insinuou sexualmente para a garota, logo no primeiro dia da estada no hotel. Amália, a menina, vive aquela fase de ebulição sexual que todos experimentamos na adolescência. Graças à rígida educação cristã que recebe, ela interpreta o acontecido como um sinal divino, e inicia uma espécie de jogo sexual inconsciente com o desconhecido, para desespero dele. O desenrolar da história inclui pequenas tramas paralelas – o ciúme que a mãe ainda sente pelo ex-marido, a amizade entre Amália e Josefina (Julieta Zylberberg) – e segue por caminhos completamente inusitados.

Graças à abordagem seca e naturalista, que se reflete nas atuações espontâneas do elenco, na fotografia cheia de sombras e tonalidades pastéis e na economia de diálogos, Lucrecia Martel constrói uma teia complexa de sentimentos de culpa, ansiedade e desejo entre os personagens, através de uma dinâmica de filme de suspense. Não há trilha sonora para sublinhar o significado emocional de cada cena, e isto mantém o espectador sempre alerta e receptivo a novos desdobramentos, o que é muito bom. A imprevisibilidade da ação dramática, porém, não significa uma trama frouxa e aberta, já que o terceiro ato alinhava todas as subtramas em um único e poderoso clímax, que encerra o filme de maneira inconclusa (o final pode desagradar muita gente) e deixa, propositalmente, vários pontos de interrogação que a platéia precisa preencher para atribuir significados ao filme. A experiência de ver “A Menina Santa” é original e estimulante.

O DVD da Imagem Filmes é simples e seco, sem qualquer extra. A qualidade do filme é apenas razoável em imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– A Menina Santa (La Niña Santa, Argentina/Espanha/Itália, 2004)
Direção: Lucrecia Martel
Elenco: Mercedes Morán, Carlos Belloso, María Alche, Julieta Zylberberg
Duração: 106 minutos

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