Meninas

17/01/2007 | Categoria: Críticas

Documentário de Sandra Werneck radiografa fenômeno da gravidez adolescente no Brasil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Após duas grandes produções (uma delas, a cinebiografia de Cazuza, enorme para os parâmetros do cinema brasileiro) que lhe tomaram dez anos, a cineasta Sandra Werneck decidiu retomar o fôlego embarcando em um projeto de escala menor, mas nem por isso menos importante. “Meninas” (Brasil, 2006) marca o retorno de Werneck ao terreno do documentário e exibe, através de um registro curto e de impacto, um vislumbre de um fenômeno urbano muito comum nas periferias brasileiras: a gravidez precoce. Trata-se de um documentário correto, com ótimos personagens e senso de urgência muito bem-vindo.

Na realidade, o projeto começou com uma escala muito maior. Durante a pré-produção, a idéia era acompanhar a gravidez de diversas garotas, em diferentes pontos do Brasil, a fim de oferecer ao espectador um panorama mais amplo e completo do fenômeno. Ao todo, foram entrevistadas 110 adolescentes, entre 10 e 14 anos, que moravam em seis estados: Rio, São Paulo, Minas, Pernambuco, Paraíba e Cera. Ao fim da pesquisa, porém, Sandra tomou uma decisão corajosa, fechando o foco em apenas três (e não quatro, ao contrário do que informa a capa do filme e o site oficial) garotas, todas moradores de favelas cariocas.

O aspecto mais positivo de “Meninas” é a absoluta ausência de um fio condutor das histórias que não seja a cronologia. Não existe – pelo menos de forma explícita – a ambição de construir um painel definitivo do fenômeno da gravidez adolescente, e isso é muito bom, pois tal ambição poderia corroer o projeto pelas entranhas. O que vemos na tela é um registro quase fotográfico das vidas de três meninas de subúrbio – e isso significa a emergência de uma sexualidade precoce, e a dificuldade dos pais para lidar com isso. O filme se abstém de fazer qualquer tipo de comentário sobre o fato. Se as meninas do subúrbio fazem sexo cedo, este é um traço social que não é, necessariamente, positivo ou negativo. Ele existe, e é documentado como tal.

Como se sabe, qualquer documentário funciona melhor quando radiografa bons personagens, e a escolha deles em “Meninas” foi bastante feliz. Um dos casos documentados é digno de nota: a gravidez de Edilene, 14 anos. Moradora de Engenho Pedreira, ela se descobriu grávida após romper com o namorado de 21 anos. Os dois voltaram, mas neste meio tempo o rapaz havia engatado um namoro com uma vizinha de Edilene, chamada Joice, 15 anos. A outra garota também engravidou na mesma (ela aparece em duas entrevistas curtas). Embora tenha esbarrado na personalidade fechada e de poucas palavras de Edilene, a equipe conseguiu documentar perfeitamente a dor de todos os envolvidos no rolo, em especial o sofrimento de Alex, o pai, dividido entre a responsabilidade pelas duas crianças e a paixão genuína por Edilene.

O tom do documentário não é muito didático, e o fluxo de imagens sai bastante espontâneo. Werneck teve olhos abertos para reconhecer bons personagens e interessantes histórias de vida ao redor dos protagonistas. A mãe de Luana, 15 anos, é um ótimo exemplo. Viúva com cinco filhas, ela inicialmente recusa a situação e recrimina a garota sem economizar nos esporros, apenas para cair em si e se derramar em lágrimas ao escutar o coração do neném batendo, na primeira ultrassonografia. Em outro filme, o diretor poderia desprezá-la por ela ser mera coadjuvante, mas não aqui. Enfim, o longa-metragem é ótimo: oferece uma visão clara do problema, sem ser áspera ou condescendente, e traz de quebra ótimos personagens.

O disco simples, da Videofilmes, é bem legal. Tem o filme com qualidade impecável (imagem em widescreen anamórfico, som Dolby Digital 2.0), um curto making of e entrevista com a diretora.

– Meninas (Brasil, 2006)
Direção: Sandra Werneck
Documentário
Duração: 71 minutos

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