Menino do Cabelo Verde, O

14/02/2006 | Categoria: Críticas

Longa-metragem de estréia de Joseph Losey é uma parábola instigante sobre preconceito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um menino careca está sendo interrogado numa delegacia de polícia. Ninguém sabe quem ele é, onde mora ou o que faz, a não ser que fugiu de casa. Para piorar, o garoto se recusa a falar com todo mundo. Até que o psicólogo Dr. Evans (Robert Ryan) aparece, com um sanduíche e um milk-shake, e o dobra. Uma vez que o garoto abre a boca, se põe a contar uma história aparentemente maluca, de como percebeu, certa manhã, que seu cabelo havia se tornado misteriosamente verde, e como esse acontecimento extraordinário acabou resultando na fuga. A intrigante abertura de “O Menino do Cabelo Verde” (The Boy With Green Hair, EUA, 1948) indica, de imediato, que o longa-metragem de estréia do diretor Joseph Losey é um filme singular.

“O Menino do Cabelo Verde” é uma parábola sobre preconceito e uma obra visionária, que olha adiante de seu tempo, alertando o público norte-americano para o perigo de se julgar coisas ou pessoas pela aparência. A própria biografia do diretor confirma isso. Três anos depois de lançar o longa-metragem, o diretor foi convocado para depor na investigação do Congresso norte-americano conduzida pelo senador Joseph McCarthy, sob suspeita de atividades subversivas – leia-se, ser comunista. Losey não era, mas sabia que o tempo estava fechando para gente que, como ele, estimulava o pensamento livre e repudiava a camisa-de-força do preconceito. Assim, preferiu não retornar aos EUA e se radicar na Inglaterra, onde passou a assinar filmes sob o pseudônimo de Joseph Walton.

Categorizar “O Menino do Cabelo Verde” como uma parábola é algo simples, que pode ser feito já a partir da primeira seqüência que se passa fora da delegacia de polícia. Quando o menino Peter Frye (Dean Stockwell) começa a falar, explica que os pais viajaram durante a II Guerra Mundial e, desde então, ele foi deixado sob os cuidados de parentes. Depois de perambular de casa em casa, acabou com o avô Grampa (Pat O’Brien), que Peter identifica como um ator. Entra em cena um flashback, quando o filme assume de vez o ponto de vista da criança e narra o suposto encontro do avô com um rei (os cenários teatrais e as interpretações exageradas dos atores deixam evidente que se trata de um devaneio do menino).

Depois disso, quando Peter passa a narrar para o médico as aventuras que o levaram à delegacia, o filme retoma os cenários e interpretações realistas, mas já deixou a pista: a partir dali, o que veremos não é a realidade nua e crua, mas uma versão dela produzida pela mente fértil do rapaz. Ele vai descobrir que seus pais morreram e ele é, na verdade, um órfão. Na manhã seguinte à descoberta, Peter acorda com o cabelo verde. Ninguém sabe como nem por que isso ocorreu. O longa-metragem se concentra, então, nas reações controversas das pessoas que rodeiam o garoto ao fato exótico.

A narrativa é simples e econômica, apoiando-se principalmente da boa interpretação de Dean Stockwell. Futuro ator de prestígio, premiado inclusive em Cannes (em 1962), Stockwell era uma entre várias crianças-prodígio que existiam em Hollywood nos anos 1940, e foi delas o que melhor rendeu quando adulto. Na época de “O Menino do Cabelo Verde”, o rapaz já tinha mais de dez longas-metragens no currículo, e a experiência fica evidente na segurança e no rosto expressivo que sua interpretação evidencia. Preste atenção especial na personagem da professora (Barbara Hale), espécie de alter-ego do diretor dentro do filme.

O lançamento em DVD no Brasil é uma iniciativa da Aurora. O longa-metragem aparece restaurado, com boa qualidade de imagem (no formato original, 4:3) e som (Dolby Digital 2.0). Não há extras. Vale ressaltar que o filme foi lançado em poucos países.

– O Menino do Cabelo Verde (The Boy With Green Hair, EUA, 1948)
Direção: Joseph Losey
Elenco: Pat O’Brien, Dean Stockwell, Robert Ryan, Barbara Hale
Duração: 82 minutos

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