Meninos do Brasil

16/11/2007 | Categoria: Críticas

Franklin J. Schaffer antecipa a clonagem em décadas num thriller melodramático que mistura nazistas e bebês

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Imagine que Adolf Hitler tivesse, antes de morrer, deixado amostras de DNA preservadas com o maior especialista em genética do Estado nazista. Com o desenvolvimento das técnicas avançadas de clonagem, que permitem a reprodução perfeita de qualquer ser humano, não é difícil imaginar a utilidade que um desses grupos neonazistas que existem por aí daria a este material, certo? Pois parte exatamente desta premissa engenhosa o suspense “Meninos do Brasil” (The Boys from Brazil, EUA/Inglaterra, 1978), longo e melodramático thriller investigativo dirigido por Franklin J. Schaffner (“Planeta dos Macacos”).

Não há dúvida de que a premissa é a melhor coisa de “Meninos do Brasil”. A idéia, extremamente bem desenvolvida, foi adaptada de um romance de Ira Levin (mesmo autor de “O Bebê de Rosemary”, cuja história trata de uma situação, digamos, bastante semelhante) escrito nos anos 1970, quando a possibilidade de clonar um ser humano não parecia nem remotamente possível. Sabe-se, porém, que a boa ficção científica costuma antecipar a ciência em algumas gerações, e foi exatamente o que aconteceu aqui. Há até uma cena em que um especialista no tema (interpretado pelo alemão Bruno Ganz, que anos depois faria Hitler em “A Queda”, de 2004) explica a clonagem para leigos em termos amplamente satisfatórios. Pena que o desenvolvimento dramático do filme não seja tão interessante quanto a idéia que lhe deu origem.

Aliás, um dos detalhes que mais chamam a atenção é a precisão da pesquisa levada a cabo por Ira Levin para o processo de criação do romance. Além de antecipar a clonagem, ele também acertou o local para onde um dos mais procurados fugitivos nazistas – Josef Mengele, médico responsável por experiências atrozes no campo de concentração de Auschwitz – havia escapado na realidade: o Brasil. De fato, Mengele vivia na época em São Paulo, tendo morrido afogado enquanto nadava em uma praia, alguns meses após o lançamento comercial da produção. Este fato, porém, só seria descoberto alguns anos depois, já na década de 1980.

Mengele (Gregory Peck, canastrão como sempre) é o antagonista da história. Ele é o cérebro por trás da ambiciosa experiência internacional levada a cabo por um grupo de ex-oficiais nazistas. O experimento consiste em espalhar clones de Hitler em algumas dezenas de famílias que recorrem à inseminação artificial para engravidar, sem que os pais saibam, em diversos países do mundo. Os pequenos bebês de olhos azuis crescem em ambientes familiares semelhantes ao existente na infância do líder nazista, enquanto são acompanhados discretamente por enviados de Mengele. O problema é que um jovem repórter (Steve Guttenberg) descobre o plano. Ele é assassinado pelos vilões, mas tem tempo de passar o bizu para um veterano caçador de nazistas (Laurence Olivier, em papel inspirado no lendário Simon Wiesenthal).

O filme de Schaffer acompanha a trajetória convergente desses dois homens extraordinários. É um melodrama criminal, que rouba elementos de filmes de espionagem e até de longas de horror (citações ao então recém-lançado “A Profecia” são freqüentes) para construir uma história curiosa, mas conduzida de forma burocrática e artificial. Curiosamente, o genial Olivier havia interpretado, dois anos antes, um personagem baseado em Mengele no superior “Maratona da Morte”. O clímax estranho inclui uma luta corporal entre Peck e Olivier, dois velhinhos acima dos 60 anos. Provavelmente não é um filme para platéias jovens, mas a premissa arrojada garante o interesse.

O DVD da Editora NBO contém apenas o filme, sem extras. O longa tem qualidade razoável de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Meninos do Brasil (The Boys from Brazil, EUA/Inglaterra, 1978)
Direção:Franklin J. Schaffner
Elenco: Gregory Peck, Laurence Olivier, James Mason, Lilli Palmer
Duração: 123 minutos

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