Mensageiro do Diabo, O

03/08/2007 | Categoria: Críticas

Reverendo psicopata é destaque na galeria de personagens inesquecíveis do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O reverendo Harry Powell (Robert Mitchum) é um dos mais lendários, fascinantes e desconhecidos personagens da história do cinema. Inúmeros filmes (“Faça a Coisa Certa”, de Spike Lee), e até novelas de televisão (“Celebridade”), já buscaram inspiração em Powell para expressar visualmente a dicotomia amor/ódio que existe na alma de cada ser humano. Portanto, não se engane: Harry Powell foi o primeiro personagem a exibir as célebres tatuagens nos dedos das duas mãos, com as palavras “love” (amor, na mão direita) e “hate” (ódio, na esquerda). Ele é o pioneiro.

Todo vestido de preto, chapéu lançando sombras sobre o rosto longo de olhos agudos e injetados, a composição física do reverendo é capaz de dar arrepios até nos adultos. Por isso, o primeiro encontro dele com as duas crianças que escondem o grande segredo do longa-metragem, John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Anne Bruce), é um momento aterrorizante para os dois pequenos. Eles olham fixamente para a tatuagem do homem do vozeirão grosso e de modos traiçoeiros. Powell percebe isso. “Ah, crianças, vocês estão olhando para os meus dedos. Gostariam que contasse a pequena história da mão direita/mão esquerda?”, provoca, iniciando um pequeno monólogo que influenciou milhares de futuros cineastas.

Harry Powell é a figura dominante de “O Mensageiro do Diabo” (Night of the Hunter, EUA, 1955), único filme dirigido pelo ator Charles Laughton. Trata-se de um filme B, um longa-metragem de baixo custo, influenciado de modo decisivo por um estilo que já havia sido grande em Hollywood, mas experimentava um período fatal de decadência: o film noir. A ambientação e a fotografia do filme, exageradamente estilizadas, chamam a atenção do crítico Roger Ebert. Ele observa que o visual do trabalho parece “um cartão de Natal”, e tem razão. O estilo é o elemento fundamental do longa-metragem.

Observe, por exemplo, as cuidadosas seqüências panorâmicas que mostram as crianças navegando rio abaixo em um pequeno barco. As cenas dominam a segunda metade do filme. Os fortes contrastes enfatizam as silhuetas, o céu estrelado e, em primeiro plano, os animais da floresta (lagartos, aranhas, coelhos, corujas). Fortemente influenciadas pelo expressionismo, as imagens evocam uma atmosfera ao mesmo tempo sórdida e religiosa, perfeitamente condizente com um filme que tem um pregador psicopata como principal personagem. A brilhante seqüência que mostra o quarto de Powell, um cômodo com ângulos triangulares que lembra uma capela profana, deixa isso evidente.

O enredo é bastante simples. O reverendo Harry Powell é um assassino de prostitutas que vai para a cadeia por 30 dias, pelo roubo de um carro. A polícia não sabe que ele mata garotas. Na prisão, Powell divide a cela com Ben Harper (Peter Graves), um homem simples, morador de uma pequena cidade no interior dos EUA. Enlouquecido pelas dificuldades enfrentadas na época da Grande Depressão, o sujeito roubou um banco e escondeu a fortuna em um lugar desconhecido da casa onde mora. Foi preso e condenado à morte.

Harper fala dormindo, e durante o sono revela que as crianças sabem o esconderijo do dinheiro. Powell ouve, e espera Harper morrer para sair da prisão e fazer uma visitinha ao resto da família. A comunidade o vê como um marido em potencial para a viúva, Willa (Shelley Winters). É tudo o que o reverendo deseja. Claro que o objetivo é o dinheiro roubado.

Além do pequeno monólogo sobre as mãos tatuadas, Mitchum protagoniza várias outras seqüências arrepiantes. Na primeira aparição diante da família Harper, põe-se embaixo de um poste, assobiando, e lança uma sombra ameaçadora na parede do quarto dos meninos, em um momento de que Fritz Lang se orgulharia. “Cri-aaan-çaas”, cantarola, em outro momento, uma canção que se tornará sinônimo de terror para a platéia e os pequenos, assustados com o homem diabólico. É belíssimo.

Leve em consideração que o filme é visto quase que inteiramente do ponto de vista de duas crianças assustadas e você entenderá perfeitamente o clima onírico, quase surreal. O uso de soturnas canções de ninar cantadas por um coral infantil reforça o clima de conto de fadas ao avesso. Dessa maneira, o “cartão de Natal filmado” atinge em cheio o objetivo: o visual do filme é a maneira como os meninos vêem o mundo, alegórica e subjetiva.

Talvez devido a influência do expressionismo, o longa-metragem não encaixa na veia realista que domina o cinema de Hollywood há décadas. De fato, não há muito de realista em um filme que mostra duas crianças escapando, com sucesso, de um psicopara assassino de mulheres, um desequilibrado mental que interpreta as violentas cenas do Velho Testamento ao pé da letra. Mas não se engane: você está diante de uma obra-prima.

“O Mensageiro do Diabo” está disponível em DVD no Brasil com uma edição simples da Silver Screen Collection. Ela contém apenas o filme com imagens restauradas (fullscreen, enquadramento original), ainda que ligeiramente arranhadas. O áudio é Dolby Digital 2.0 (há uma dublagem em português remixada para 5.1).

– O Mensageiro do Diabo (Night of the Hunter, EUA, 1955)
Direção: Charles Laughton
Elenco: Robert Mitchum, Shelley Winters, Lillian Gish
Duração: 93 minutos

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