Mente Brilhante, Uma

08/04/2005 | Categoria: Críticas

Cinebiografia polêmica põe a platéia no lugar de um homem que sofre de esquizofrenia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Cinebiografias costumam ser polêmicas, em grande medida, porque é inevitável que fatos históricos sejam simplificados, e até alterados, para atender a exigências da arte dramática. Isso aconteceu com o ganhador do Oscar de 2002, “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind, EUA, 2001), filme que obteve boas bilheterias e reconhecimento da crítica, mas atingiu um patamar de sucesso a partir do qual passou a ser apedrejado por causa do moralismo e das liberdades que tomou para com um personagem real, de carne e osso. No entanto, é um filme que tem muitos méritos cinematográficos, e merece ser visto.

O personagem biografado por Ron Howard está longe de ser um homem comum. Trata-se de John Nash Jr, matemático e professor da Universidade de Princeton, ganhador do Prêmio Nobel por uma teoria que foi a primeira a encontrar padrões de recorrência em ações cotidianas onde, pensava-se, não havia nenhum. Um dos elementos catalisadores da brilhante teoria de Nash, no entanto, foi uma doença mental: a esquizofrenia. O filme de Ron Howard se dedica a mostrar como essas duas coisas tão distintas – a genialidade matemática e o problema mental – estão entrelaçadas de tal maneira que uma não poderia ter existido sem a outra.

O maior acerto do filme, não há dúvida, é pôr em discussão uma questão social que tem sido varrida para baixo do tapete durante anos a fio, que é o tratamento reservado pela sociedade aos doentes mentais, freqüentemente submetidos a períodos de isolamento que agravam e perpetuam a doença, ao invés de curá-la. Nesse sentido, “Uma Mente Brilhante” retrata como o carinho e a companhia de uma pessoa próxima (no caso, a esposa de Nash, Alicia) pode ser benéfica para ajudar os que possuem essa condição.

Russell Crowe interpreta o papel principal. Todos sabem que Crowe é um ator instintivo, que se sai melhor em papéis mais físicos. Mas ele soube entrar num papel incomum, ainda que de maneira desajeitada; grandalhão e tímido, mas confiante e às vezes ríspido, o ator parece vulnerável, mas sempre deixa um ar ameaçador quando está em cena. Sua contraparte feminina é Jennifer Connelly, uma atriz belíssima e talentosa que tem um par de olhos perfeitos para cenas que envolvam lágrimas, o que faz dela a atriz certa para interpretar Alicia. A mulher ama John Nash, mas sabe que se ficar com ele terá dificuldades extremas e muita solidão. Por isso, o terrível conflito interno que a consome. Connelly levou o Oscar pelo trabalho.

Um dos maiores méritos de Ron Howard foi a maneira encontrada para apresentar à platéia o modo como John Nash via o mundo. Gênio da matemática, quando moço Nash passava horas tentando encontrar padrões de comportamento em pessoas e objetos. Essa obsessão no levou à teoria que lhe deu o Prêmio Nobel, mas já era um indício da esquizofrenia, que se agravaria nos anos 1950. A época da “caça às bruxas” foi o período paranóico da Guerra Fria e da ameaça atômica; não poderia haver período mais adequado para uma doença mental, caracterizada por paranóia extrema, desabrochar em um homem como Nash.

O cientista passou a acreditar que os espiões russos lhe enviavam mensagens cifradas através de manchetes do New York Times. Também passou a achar que estava sendo seguido pelo FBI. O filme tem longas seqüências mostrando esses e outros fatos estranhos acontecendo com o cientista, sem jamais informar ao público se aquilo é real ou apenas uma peça que a mente esquizofrênica de John Nash está tentando lhe pregar. Dessa forma, o cineasta coloca a platéia na mesma condição de John Nash: nós, como ele, não estamos em condição de julgar o que é realidade e o que não passa de ilusão. Talvez esta seja a maneira mais adequada que o cinema já encontrou para realizar um filme sobre esquizofrenia e paranóia.

Do ponto de vista negativo, existem as alterações na biografia real de John Nash, para torná-lo um personagem conservador, moralista e perfeitamente enquadrado no paradigma hollywoodiano do herói. Assim, fatos como a bissexualidade do cientista e a sua separação de Alicia não são mostrados, de modo que o protagonista termina virando apenas mais um numa galeria interminável de biografados de Hollywood: um homem talentoso que enfrenta dificuldades enormes para vencer na vida, mas a conquista com base em muito esforço. Essa suavização da parte podre da biografia de John Nash é responsável pela mudança na opinião de muita gente, que hoje considera o filme apenas um longa-metragem mediano. “Uma Mente Brilhante” não é perfeito, mas está muito acima da média.

O DVD de “Uma Mente Brilhante”, lançado no Brasil pela Universal, tem duas diferentes versões. A primeira é simples, e contém o filme, apresentado em formato original widescreen anamórfico e com som Dolby Digital 5.1, e mais traz dois comentários em áudio (um com o diretor e outro com o roteirista Akiva Goldsman, ambos premiados com o Oscar, assim como o filme). A edição especial tem um disco a mais e uma galeria de cenas cortadas da edição final.

– Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, EUA, 2001)
Direção: Ron Howard
Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Paul Bettany, Ed Harris
Duração: 135 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


6 comentários
Comente! »